Os diálogos *Hípias Menor* e *Hípias Maior*, considerados escritos de juventude de Platão, estruturam-se como peças literárias e dramáticas nas quais Sócrates interroga o sofista Hípias de Élida. A dinâmica entre os personagens revela o estilo platônico de confrontar a retórica e a busca pela verdade, embora transite por argumentos que frequentemente geram estranhamento e debates sobre a validade lógica das conclusões.
Em *Hípias Menor*, o debate inicial parte de uma análise literária e moral de dois heróis homéricos: Aquiles e Odisseu. Enquanto Hípias defende a superioridade de Aquiles por considerá-lo simples, verdadeiro e mais nobre, Sócrates problematiza essa dicotomia ao equiparar os personagens e introduzir um raciocínio espinhoso sobre a verdade, a mentira e a intencionalidade. Por meio de uma série de silogismos, Sócrates argumenta que aquele que possui o conhecimento da verdade é o único plenamente capaz de mentir ou cometer o mal voluntariamente. Nesse sentido paradoxal, a capacidade e a eficiência intelectual acabam sendo associadas à excelência moral, levando à conclusão provocativa — e desconfortável até mesmo para Sócrates — de que quem erra ou comete injustiças de forma proposital seria, em tese estrita de competência, superior àquele que o faz por ignorância ou involuntariamente. Essa equiparação entre habilidade técnica e virtude reflete a mentalidade grega da época, focada na *práxis* e na eficácia dos atos em si mesmos, desprovida de uma transcendência moral moderna, o que resulta em um impasse dialético inconclusivo.
A discussão transita para o conceito de estética e essência em *Hípias Maior*, obra em que Sócrates e Hípias buscam definir o que é o belo em si, distanciando-se de meros exemplos particulares. Hípias tenta sucessivas definições que são sucessivamente refutadas por Sócrates: primeiro sugere que o belo é uma bela jovem; depois, o ouro; em seguida, propõe uma vida saudável, rica e suntuosa; e, por fim, recorre à utilidade e ao prazer sensorial. Todas essas tentativas sofrem com o mesmo erro conceitual de apontar instâncias particulares ou aplicações utilitárias em vez de isolar a forma universal da beleza. O próprio Sócrates utiliza exemplos contrastantes, como a famosa comparação entre o macaco mais belo e a humanidade, para demonstrar que o julgamento do belo é relativo ao referencial adotado, embora esse método também resvale em falácias. No desfecho, após examinar se o belo estaria ligado ao útil, ao benéfico ou ao prazer proporcionado pela visão e audição, o diálogo se encerra sem uma definição definitiva, deixando Hípias frustrado e consolidando a tônica platônica de expor a fragilidade das opiniões dogmáticas e da retórica descomprometida com o rigor filosófico.