"Os Sonhos na Casa da Bruxa" é uma das obras mais psicodélicas e inventivas de H. P. Lovecraft, misturando matemática não euclidiana, ocultismo e terror cósmico de forma única. A seguir, confira a análise completa deste clássico conto dentro da nossa playlist dedicada ao autor.
O conto "Os Sonhos na Casa da Bruxa" é excelente e muito proveitoso, especialmente se você conhece a mitologia criada por H. P. Lovecraft. O autor não era conhecido apenas por seu estilo de prosa e suas histórias de terror, mas também pela mitologia que inventou para servir de base a essas aventuras e aos pesadelos enfrentados por seus personagens. O conto foi escrito em 1932 e publicado pela primeira vez em junho de 1933 na revista *Weird Tales*.
A história acompanha Walter Gilman, um estudante de matemática da Universidade Miskatonic. O enredo se passa em Arkham, cidade fictícia criada pelo autor onde diversos de seus contos se conectam e onde essencialmente tudo de ruim acontece — a cidade amaldiçoada de Lovecraft. A Universidade Miskatonic é apresentada como o berço de acadêmicos charlatões e excêntricos que acreditam em ocultismo, com a diferença de que, no universo de Lovecraft, muitos deles estão de fato certos. Gilman se hospeda em um local muito barato: a chamada "Casa da Bruxa", uma construção em estilo holandês bastante precária.
Ninguém queria se hospedar ali até aquele momento porque a lenda dizia que a bruxa dos tempos coloniais Keziah Mason morava no local. Quando foi presa após confessar crimes e atrocidades, Keziah conseguiu sumir de dentro da cela através de um feitiço, atravessando a parede e escapando para outras dimensões. A lenda persiste até a época da narrativa. Gilman sente-se atraído pela casa porque seus estudos matemáticos buscam teorias e equações capazes de transcender as três dimensões conhecidas. Curiosamente, os rituais dos quais Keziah participava mostram paralelos com as equações que ele desenvolve, unindo a ciência e o misticismo.
Ocupando um quarto próximo ao sótão — cujos acessos estavam bloqueados por tábuas —, Gilman começa a estudar para os exames parciais, mas seu desempenho cai devido a uma febre persistente e a sonhos recorrentes. Quando Lovecraft menciona sonhos, devemos ter cautela, pois muitas vezes não se trata de um sonho comum, mas de uma interação real do personagem com o horror. Os eventos são experienciados de maneira tão fantástica que os personagens acabam acreditando estarem sonhando — essa é a graça do horror cósmico, apresentar algo tão grotesco que a vítima é incapaz de distinguir a realidade.
Nos sonhos de Gilman, ele é visitado por Keziah, agora uma velha raquítica, acompanhada por um demônio de aspecto grotesco e vampírico, chamado Brown. A bruxa o arrasta por ângulos não euclidianos das paredes, abrindo fendas dimensionais para mundos completamente fantásticos. Nesses locais, vemos o reflexo da nossa dimensão, com criaturas orgânicas que atuam de forma inorgânica e vice-versa. Gilman atravessa conglomerados de esferas, poliedros e prismas enquanto a bruxa o alerta de que seus estudos matemáticos estão corretos e que ele se aproxima da verdade.
Em uma de suas viagens mais marcantes, Gilman visita uma cidade alienígena e ciclópica — evocando os mundos e as criaturas de *Nas Montanhas da Loucura* ou *Um Sussurro nas Trevas*. A bruxa tenta convencê-lo a servir a Azathoth, um dos grandes deuses que reina em uma galáxia distante. Gilman fica abismado com a arquitetura grotesca e com os habitantes daquela cidade, percebendo a existência de uma hierarquia rigorosa respeitada pelas entidades.
O conto ganha uma curva ascendente à medida que se aproxima o Sabá das Bruxas em Arkham, período em que o véu entre o mundo espiritual e o dos humanos se estreita. Gilman acorda cada vez mais apavorado, tomado por impulsos instintivos que o puxam para fora da cidade. Em um momento, vagando pelas ilhotas de Arkham, ele acredita ver a bruxa nas docas acompanhada de seu rato de estimação (o demônio Brown). O autor trabalha brilhantemente a ideia de que o horror exerce uma atração mórbida sobre a vítima — o famoso abismo olhando de volta para você. Gilman tem pavor, mas ao mesmo tempo sente uma atração avassaladora por aquilo, enquanto sua sanidade se esvai e seu desempenho acadêmico despenca.
O clímax se aproxima quando Gilman presencia diretamente um ritual na cidade dos sonhos e consegue se agarrar a um ídolo de pedra, que misteriosamente aparece em seu quarto quando ele acorda. Levando o objeto à universidade, ele ganha renome acadêmico ao descrever com precisão matemática as formas e os processos de interação entre esses mundos, baseando-se em sua própria experiência.
Mais adiante, em um transe induzido no sótão, Gilman é levado a encontrar o Homem Negro — muito provavelmente Nyarlathotep, o mensageiro dos deuses —, que lhe oferece o livro de Azathoth para assinar, selando um pacto com o culto de Cthulhu e outras entidades. Sob efeito de feitiço, ele acaba cometendo atrocidades, incluindo o sequestro de crianças para sacrifício.
O conto caminha para o desfecho quando Gilman, ainda enfeitiçado e forçado a segurar uma bacia sacrificial com hieróglifos, vê uma criança prestes a ser sacrificada. No último segundo, o horror de sua situação o desperta; ele se atira contra a bruxa e trava uma luta intensa. Para se defender, ele utiliza uma corrente com um crucifixo dada por um vizinho religioso — não por fé estrita na proteção divina, mas usando o objeto de forma puramente prática para estrangular a velha. Antes disso, o demônio Brown o ataca ferozmente.
O sacrifício é interrompido, mas o estrondo dos cânticos e a cacofonia das entidades deixam Gilman completamente surdo. O demônio Brown, consumido pela amargura devido à morte de Keziah, tenta se vingar de Gilman. A criatura acaba sendo combatida, e os demais inquilinos, apavorados com o ataque sobrenatural, fogem imediatamente da Casa da Bruxa.
Anos mais tarde, quando as autoridades determinam a demolição do prédio por questões de saúde pública, encontram-se ossadas humanas e de criaturas disformes escondidas nas paredes. O conto encerra com um gancho formidável: a polícia relata que um culto macabro foi desmantelado em uma região remota de Arkham, e entre os adeptos havia um homem alto de pele escura — uma clara evidência da presença de Nyarlathotep, indicando que o ciclo de horror está longe de terminar.