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“A Rua” – Rua lovecraftiana? É possível, sim! • @rayhanchamoun MÊS DO HORROR

A Rua de HP Lovecraft: análise do conto obscuro

Neste episódio da série dedicada a analisar toda a obra de H. P. Lovecraft, o foco é voltado para um de seus textos mais obscuros e atípicos: o conto "A Rua", publicado originalmente em dezembro de 1920. A narrativa surpreende por adotar uma perspectiva inusitada, transformando a própria via pública na protagonista e testemunha central da história ao longo das décadas.

Há quem diga que coisas e lugares têm almas, e há quem diga que não. Eu mesmo não me atrevo a dizer, mas vou contar sobre a rua. Escrito no comecinho de 1920, o conto "A Rua" é um texto obscuro de H. P. Lovecraft publicado em dezembro do mesmo ano na revista *The Wolverine*. A premissa da história traz de forma muito evidente o *background* do próprio Lovecraft, que era abertamente racista e xenofóbico, e é engraçado como isso reflete em seus textos. Aqui, temos um texto nacionalista e, ao mesmo tempo, brilhante, porque o protagonista da história é literalmente a rua. Acompanhamos a formação da civilização americana na Nova Inglaterra, desde a chegada de imigrantes ingleses que formam uma localização pacata.

O conto começa justamente falando sobre essa gente simples e como a rua se formou organicamente, como um caminho natural até a fonte de água que as pessoas usavam para coletar recursos para continuar suas vidas. É muito interessante como ele retrata a guerra contra os indígenas logo no início. Depois disso, é notável ver como Lovecraft tem esse viés nacionalista e nostálgico da história americana, e como ele associa diretamente o avanço, o crescimento populacional e a diversidade de culturas à degradação. Vemos primeiro essa rua se formando com pessoas trabalhadoras e do bem. Depois, essas pessoas vão para a guerra — provavelmente a Guerra de Independência Americana.

Quando retornam, a rua já está mudada: não são mais cabanas, mas casas. A rua passa a ser parte de um todo, existindo outras ruas ao redor, sendo ela a maior de todas. Fala-se sobre a convivência daquele povo extremamente conservador. Em seguida, os filhos dessas primeiras gerações vão para a guerra de novo, marcando a hecatombe da rua. Temos a descrição de homens que levantam uma bandeira que tudo indica ser a dos confederados, representando a Guerra Civil Americana, e provavelmente o lado que perdeu. Lovecraft associa isso diretamente à ruína da rua, pois, quando os soldados voltam, as pessoas já não são mais as mesmas, e percebe-se a chegada de uma quantidade maior de imigrantes.

Após essa guerra, ainda há outra, que provavelmente retrata a Primeira Guerra Mundial, quando os soldados partem de novo e retornam para encontrar os Estados Unidos do começo do que conhecemos hoje: uma terra com diversos imigrantes. Lógico que Lovecraft não tarda em associar isso à ruína da rua, sendo quase como se a rua estivesse triste por ela mesma. Gosto muito de como há descrições nítidas de roseirais, campos de carvalhos e tordos, enfim, da abundância da vida natural que aos poucos vai sendo tomada por tubulações de esgoto e fiação elétrica. Lovecraft associa muito isso — uma constante em seus contos — à ideia de que tudo acaba sendo degenerado, perdendo a pureza da natureza com um olhar rancoroso.

O conto termina quando acontece uma cena em que imigrantes estão tentando levantar uma revolução; a maior parte deles são completos estrangeiros tentando lutar contra policiais. No entanto, a maioria desiste, e a rua reflete isso através de suas ruínas. O mais interessante é que, em uma noite que precede essa revolução, simplesmente todas as pessoas da rua desaparecem, sendo extintas e deletadas, enquanto a rua vira basicamente um escombro. A descrição dá a entender que a rua tomou partido e eliminou aquelas pessoas que considerava injúrias. O conto termina com os sobreviventes observando a hecatombe da rua e como ela arrastou para suas ruínas aquilo que acreditava ser ruim, embora deixe essa dúvida no ar.

Gostei bastante do conto, principalmente pelo tamanho: é bem curto, tem somente quatro páginas, e vale muito a pena. É um texto onde se percebe muito da personalidade de Lovecraft, do seu racismo e da sua xenofobia, mas ao mesmo tempo transparece sua genialidade em retratar o horror das maneiras mais diversas, como na perspectiva de uma rua através da história. Vale a pena somente por isso. Digam aí o que acharam desse conto meio interessante, bizarro e estranho. De qualquer forma, trarei mais contos do autor. Espero que tenham gostado e vejo vocês no próximo vídeo. Até mais!