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Edgar Allan Poe • O Coração Delator • MÊS DO HORROR

O Coração Delator: Análise do conto de Edgar Allan Poe

Neste vídeo especial do Mês do Horror, mergulhamos na atmosfera sombria e claustrofóbica de Edgar Allan Poe para analisar um de seus contos mais célebres, "O Coração Delator". Acompanhe a nossa análise detalhada da mente perturbada deste narrador icônico e descubra como a culpa e a paranoia se manifestam de forma magistral na literatura gótica.

Verdade! Nervoso, muito terrivelmente nervoso, eu fui e sou. Mas por que dirá que sou louco? A doença apurou meus sentidos, não os destruiu, não os amorteceu. Acima de tudo, tornou aguda minha audição. Ouço qualquer coisa no céu e na terra; já ouvi muito no inferno. Como, então, posso estar louco? Escute! Observe como posso lhe contar minha história de modo são, com muita calma.

É assim, pessoal, que começa o conto "O Coração Delator", de Edgar Allan Poe. Meu nome é Mateus e você está no canal Universo Antares. O nosso narrador começa nos contando um pouco sobre a situação em que vivia: ele cuidava de um velho. Ele faz questão de ressaltar que esse senhor nunca lhe havia feito nenhum mal, sendo inclusive uma pessoa boa. O problema é que ele sentia uma raiva irracional e profunda por um dos olhos desse velho, que ele chamava de "olho de abutre". Ele o descrevia como um olho azulado, de cor pálida e com um aspecto meio embaçado.

O narrador afirma veementemente que não é louco, mas sentia um ódio tão grande por aquele olho que decidiu matar o velho. E ele reitera que o crime não seria contra o homem em si — já que gostava dele —, mas exclusivamente por causa daquele olho. A única solução para se livrar da visão daquela íris seria dar fim à vida do senhor.

Toda noite, por volta da meia-noite em ponto, o narrador pegava um lampião para iluminar o quarto, já que tudo estava na mais completa escuridão e o velho já dormia. Ele entrava bem devagar, abria a porta com cautela e ficava ali, observando apenas com um olho, espreitando para ver se o velho estava acordado e se conseguiria avistar o famigerado olho que tanto o atormentava. E vejam que interessante: nessa hora, o narrador até argumenta que aquilo provava sua sanidade, afinal, que louco seria capaz de planejar algo com tanta meticulosidade?

Durante sete longas noites, é exatamente isso que ele faz. À meia-noite, lá vai ele na ponta dos pés, com seu lampião, para não acordar o velho, apenas para ver no que daria. Ocorre que o velho sempre está dormindo profundamente, de modo que ele acaba não fazendo nada. A impressão que passa é que faltava um plano concreto; parecia mais um impulso repentino, algo difícil de explicar. Como o velho dormia, ele desistia e ia embora.

Até que, na oitava noite, as coisas mudam. Ele vai ao quarto, mas acaba fazendo um pequeno barulho. O velho acorda sobressaltado e pergunta: "Quem está aí?". O nosso narrador permanece absolutamente imóvel. Ele sabe que o velho está acordado e que não pode ser visto, então decide esperar pacientemente que ele torne a dormir. No entanto, percebe que o velho está muito inquieto, com a respiração pesada — um som um tanto assustador. O narrador descreve que o velho estava tomado por pavor, tentando convencer a si mesmo de que o ruído havia sido apenas o vento em um galho ou algum outro barulho inofensivo da noite.

Depois de algum tempo de espera, o narrador ganha coragem, pega o lampião e deixa passar apenas um facho tênue de luz, direcionando-o exatamente para o olho que tanto odiava. Ele percebe que o velho estava com os olhos abertos no escuro, encarando o vazio, e a luz atinge em cheio aquela íris detestada. Nesse instante, ele é tomado por uma fúria cega. Ele hesita por um momento, pensando no que fazer, mas logo decide agir.

Lembrando da sua audição extremamente aguçada — que ele insistia em usar como prova de sua sanidade, argumentando que as pessoas apenas confundiam sentidos apurados com loucura —, ele começa a ouvir um som que vai se tornando cada vez mais claro. Ele percebe que são os batimentos do coração do velho. Ele descreve o som como os tambores de uma marcha militar, incentivando os soldados para a batalha. O som vai ficando tão alto, tão ensurdecedor, que ele teme que algum vizinho acabe escutando.

É então que ele decide acabar de vez com aquilo: entra no quarto de supetão, arranca o velho da cama, joga-o no chão e empurra a pesada cama de cima para abafá-lo. Após algum tempo, percebe que não há mais nenhum batimento e que o velho está, de fato, morto.

Começa, então, a corrida contra o tempo para esconder o corpo. Ele consegue esquartejar o cadáver, arrancando a cabeça e os membros, e esconde os pedaços nas paredes do quarto, retirando algumas tábuas do assoalho e encaixando tudo com cuidado. Limpa todo o sangue, sem deixar vestígios, e fica extremamente satisfeito com o próprio trabalho. Por volta das quatro da manhã, tudo já estava pronto e perfeito.

No entanto, na manhã seguinte, os policiais batem à porta. Eles explicam que um vizinho ouvira um grito ou barulho suspeito durante a noite e acionara as autoridades, temendo que alguém tivesse invadido a casa. O narrador, esbanjando falsa tranquilidade, abre a porta e diz que está tudo bem, que ele está sozinho e que o barulho no sonho tinha sido dele mesmo. Para provar sua inocência, ele os convida a entrar e mostra os cômodos, afirmando que o velho está viajando e que as coisas estão intactas (excluindo, claro, a cama que ele havia revirado, mas que já pusera em ordem).

Ele fica extremamente satisfeito consigo mesmo, achando que está se saindo muito bem e que o crime fora perfeitamente acobertado. Até que… a sua "grande audição" — aquela mesma que, segundo ele, provava que não era louco — começa a pregar-lhe peças. Ele volta a ouvir aquele som: as batidas compassadas de um coração.

O barulho vai se intensificando enquanto os policiais conversam descontraidamente e dão atenção à sua narrativa, sentados exatamente sobre o local do assoalho onde ele havia escondido os restos mortais. O som dos batimentos cresce, torna-se incontrolável. Ele tenta falar mais alto, movimenta-se pela sala, tenta fingir que não há nada de errado, na esperança de que os policiais também não percebam.

Contudo, os batimentos parecem atingir um volume insuportável. Em sua paranoia crescente, ele passa a acreditar que os policiais já sabem de tudo, que estão apenas caçoando dele, conversando e rindo cinicamente porque já ouviram o som do coração e querem torturá-lo psicologicamente.

Não aguentando mais a pressão daquele som agonizante que parecia prestes a explodir em seu peito, ele perde o controle. Incapaz de suportar a suposta zombaria e o barulho ensurdecedor, ele decide confessar o crime aos gritos. Está aí o nosso narrador: alguém que gabava-se de sua extrema meticulosidade e sanidade, mas que acabou se traindo e confessando o assassinato unicamente porque o som imaginário daquele coração delator tornou-se insuportável.