Neste vídeo, Ryan Chamon apresenta e analisa um conto pouco conhecido de H. P. Lovecraft que combina horror cósmico com a Roma antiga. O texto, intitulado “The Very Old Folk”, foi escrito por volta de 1927 e publicado postumamente em 1935 na revista *Weird Tales*. A proposta é mostrar como o autor transporta seu estilo característico para um cenário histórico.
Imagine que você tem um sonho muito estranho e, ao acordar, descobre que não passava de uma fantasia. E se esse sonho se misturasse ao horror cósmico lovecraftiano e acontecesse na Roma antiga? Não, não é clickbait: H. P. Lovecraft escreveu um conto de horror cósmico ambientado na antiguidade, e ele é sensacional.
Olá, meu nome é Ryan Chamon. Sou escritor, leitor ávido de fantasia, horror e ficção científica, e também produzo conteúdo para o YouTube, incluindo especiais como este. Neste especial, comento, analiso e resumo toda a obra do autor, referindo‑me a todas as histórias que ele escreveu, seja sozinho ou em colaboração, ao longo de sua breve, porém muito prolífica, vida. Hoje vamos analisar o conto “The Very Old Folk”, que mistura horror cósmico e ficção histórica.
A narrativa foi escrita por Lovecraft por volta de 1927 e publicada pela primeira vez em 1935 na revista *Weird Tales*, volume 23. Por que ela é tão interessante? Você terá que ficar até o final do vídeo para descobrir, mas já adianto que a história tem a marca típica de Lovecraft: rapidez, poder e um clímax que remete aos horrores diante do desconhecido.
A história começa de forma epistolar, através de uma carta destinada a um tal Melmoth. Trata‑se do relato de um sonho sobrenatural que ocorre na véspera do Dia de Todos os Santos, entrelaçando memória ancestral, horror atemporal e a fantasia da mente do sonhador. Uma citação importante reflete bem esse início: “Foi o sonho mais vívido em anos, extraindo do subconsciente poços muito entocados e esquecidos”. O personagem principal costumava ter esse tipo de sonho, mas há muito tempo não vivenciava algo semelhante. Agora ele tem um retorno a essa experiência sobrenatural e reveladora.
O protagonista está situado na Hispânia interior, no final da República Romana, na região de Pompelo – a atual Pamplona, ao sopé dos Pirineus. É a véspera das calendas de novembro, e a população é mista, típica do Império Romano: romanos, nativos e híbridos de tribos vizinhas, que mantêm algum contato com o povo que será retratado na narrativa. A atmosfera geral é de inquietação indefinível. Como costuma acontecer nas obras de Lovecraft, os protagonistas tentam racionalizar o horror da maneira mais científica possível, mas acabam percebendo que o que enfrentam é tão poderoso que nem a ciência moderna consegue descrevê‑lo sem abalar toda a concepção de realidade.
Em uma época em que a maior parte do povo romano ainda era pagã e extremamente supersticiosa, essa atmosfera opressora se torna ainda mais intensa. As colinas erguem‑se em tons escarlates e dourados ao norte, e todos compartilham uma inquietação visceral que chega ao ponto de as autoridades romanas serem acionadas. Elas precisam agir contra um povo que supostamente realiza rituais anuais na mesma véspera das calendas de maio e novembro, atormentando a população.
O protagonista onírico, identificado apenas como N. Cos Rufus – um alter‑ego de Lovecraft inserido na narrativa – é um oficial romano, membro da 12ª legião, e ocupa a posição de tribuno militar. Ele descreve sua entrada no sonho como “funcionário romano, carregando o peso da civilização contra o desconhecido”. O “desconhecido” são os “povo muito antigo”, habitantes das montanhas que supostamente se comunicam com criaturas de língua indecifrável e atuam como intermediários entre a realidade e o inominável, seres amarelos de olhos oblíquos. Essa representação caricata reflete o preconceito do autor ao definir esses seres como “estrangeiros”, embora os romanos também fossem extremamente misantrópicos.
Esses antigos realizam rituais infames duas vezes ao ano, nas calendas de maio e novembro. O calendário do horror é conhecido porque o povo ouve uivos e vê fogueiras nos picos das cordilheiras. Antes dessas datas, aldeões desaparecem, e as cabanas de palha são encontradas vazias à meia‑noite, sempre nas mesmas noites, sempre com os mesmos horrores. A ira do povo antigo gera uma vingança iminente que pressiona as autoridades romanas a agir. Três comerciantes são mortos em uma briga de mercado, e um desaparecimento suspeito no outono indica uma ameaça maior. Relatos da população descrevem um tamborilar vindo das colinas, simbolizando a batalha entre a razão romana e o horror primordial.
Um dos oficiais declara: “Eu estudei profundamente o saber negro e proibido. O povo muito antigo é capaz de visitar qualquer destino inominável sobre a cidade”. Assim, decide‑se agir antes que eles adquiram a capacidade de invocar algo que caia sobre Roma, pois, do ponto de vista militar, seria o fim de tudo. Uma expedição noturna é organizada, guiada por um habitante relutante da região. A lua crescente ilumina o caminho, e as autoridades acreditam que, ao perceber o medo dos nativos, o povo deixaria de realizar os rituais. Para surpresa deles, os nativos permanecem indiferentes e continuam os rituais.
À medida que a corte avança, o som dos tambores cresce, criando a sensação de ser engolido por algo que vai além da imaginação. Quando se aproximam, os cavalos não relincham, mas gritam de terror. Um dos guias, em estado de pânico, comete suicídio, cortando‑se com uma das cimitarras das autoridades. O silêncio se instala, e então ocorre o clímax cósmico: as tochas se apagam, a Via Láctea aparece brevemente e todas as estrelas conhecidas são obliteradas, restando apenas chamas infernais nos altares de Dened, Vega, Altair e Fomarol, substituídas por sombras. Cada homem é envolto por formas loucas, saltitantes e colossais de bestas inomináveis, tão antigas que nenhum sacerdote jamais poderia descrevê‑las.
O vento gelado parece inteligente, enroscando‑se em cada soldado, enquanto a corte luta contra algo nas trevas ou corre em busca de salvação, simbolizando o destino de Lactonte e seus filhos. Finalmente, o sonho termina e o narrador desperta, percebendo que não há registro histórico do destino da corte; apenas Pompelo sobreviveu, e Pamplona existe até hoje. A sensação de que algo real naquele sonho rastejou junto com o horror inominável permanece.
O conto revela vários temas: horror transistórico, onde forças eternas anteriores à humanidade se unem para evidenciar a futilidade da razão civilizacional; memória racial e ancestral que demonstra que dívidas antigas sempre serão cobradas; e a arrogância civilizacional, que se mostra inútil diante de forças demasiado antigas para serem compreendidas. Em suma, “The Very Old Folk” traz o horror cósmico para a antiguidade, mostrando que o inominável permanece inominável e que a pretensão humana é fútil.
Espero que tenham gostado desta análise. Recomendo a leitura do conto, que pode ser encontrada nas traduções disponíveis nos arquivos do H. P. Lovecraft Archive. Lá vocês encontrarão muito material interessante. Até o próximo vídeo.