Na segunda etapa da série que revisita cronologicamente a obra de H. P. Lovecraft, o vídeo analisa um dos primeiros textos do autor: um poema de 88 linhas escrito em 1897, quando ele tinha apenas seis ou sete anos. Intitulado “Ulisses ou a Odisseia”, o poema representa a tentativa do jovem escritor de condensar o épico homérico em uma forma breve e acessível ao público juvenil. Essa empreitada, embora rudimentar, revela duas facetas essenciais que permeariam toda a carreira de Lovecraft: a obsessão pela economia de texto e o fascínio pelos mitos antigos, que mais tarde se transformariam na base do horror cósmico.
A primeira observação do autor do vídeo destaca o desafio técnico que o menino impôs a si mesmo ao transformar a complexa narrativa da Odisseia em apenas 88 versos. O prólogo do poema promete “condensar toda a obra” em ordem cronológica, o que implica um exercício de síntese que já se aproximava da prática defendida por Ernest Hemingway, que recomendava cortar tudo o que não fosse absolutamente essencial. Lovecraft, ainda criança, já experimentava essa “corte de gordura” de forma exagerada, reduzindo a trama a uma sequência de ações sem qualquer exploração psicológica ou descritiva dos personagens. Essa característica, apontada como falha estética, já se manifestava no primeiro conto em prosa analisado na série, “The Little Glass Bottle”.
Apesar da falta de profundidade, o poema demonstra que o jovem Lovecraft compreendia a importância de uma narrativa linear. Enquanto a Odisseia de Homero inicia‑se com Ulisses preso na ilha de Calipso e recorre a flashbacks para relatar as aventuras anteriores, o poema de Lovecraft apresenta os episódios em ordem cronológica, atendendo ao seu objetivo declarado de tornar o épico “mais acessível à juventude”. Essa escolha revela, ainda que de forma incipiente, a mentalidade de contista que marcaria toda a obra do autor: cada cena deveria avançar a trama ou, ao menos, cumprir uma função narrativa clara.
Ao analisar a estrutura do poema, o vídeo identifica a presença de funções arquetípicas que correspondem à “jornada do herói”. Mesmo que o texto seja essencialmente um resumo, ele inclui os momentos fundamentais que transformam Ulisses em herói: o chamado para o retorno, as provações (lotófagos, ciclopes, Circe, sereias, Scylla e Charybdis), os aliados (Éolo, o rei dos ventos) e o retorno triunfal. Essa seleção demonstra que, mesmo imitando Homero, Lovecraft já reconhecia os elementos estruturais que sustentam uma narrativa épica. O crítico Harold Bloom chamaria esse fenômeno de “angústia da influência”, pois o jovem autor ainda não havia desenvolvido uma voz própria, mas já mostrava ansiedade criativa ao tentar dominar o modelo clássico.
A partir desse ponto, o vídeo traça um paralelo entre os monstros da Odisseia e as divindades lovecraftianas. Os lotófagos, que induzem ao esquecimento da identidade, antecipam o horror psicológico da perda do eu; o ciclopes que devora dois gregos por dia remete ao terror de criaturas implacáveis; Circe, ao transformar homens em porcos, oferece um exemplo precoce de “body horror”; as sereias, cujo canto fatal atrai à morte, prefiguram o fascínio lovecraftiano por conhecimentos proibidos que conduzem à insanidade. Assim, o poema funciona como um reservatório de imagens que, décadas depois, seriam refinadas em contos como “The Call of Cthulhu”, “The Colour Out of Space” e “The Shadow over Innsmouth”. A indiferença dos deuses olímpicos – exemplificada por Poseidon que destrói o navio de Ulisses por puro rancor – encontra eco na incompreensível e apática presença de Cthulhu, que nem percebe a existência da humanidade.
Outro aspecto destacado é a importância da bagagem literária. Lovecraft foi educado em casa por sua avó e sua mãe, que lhe transmitiram os clássicos greco‑romanos. Em carta de 1926, quase trinta anos após o poema, ele confessou que ainda na infância acreditava nos deuses gregos e nos espíritos da natureza. Essa imersão precoce explica como os arquétipos mitológicos foram transmutados, ao longo da vida, em entidades cósmicas ainda mais antigas e indiferentes. O vídeo enfatiza que ler fora do próprio gênero é crucial para escritores: a combinação de repertórios variados gera vozes originais e alimenta a criatividade.
A análise também aborda a “mentalidade empreendedora” do jovem Lovecraft. Não bastou escrever o poema; ele fundou a fictícia “Providence Publishing”, produziu cópias e as vendeu por centavos, já pensando em público‑alvo, objetivo pedagógico e estratégia de divulgação. Essa atitude precoce ilustra que o processo de escrita inclui planejamento, definição de mercado e promoção, aspectos que o vídeo recomenda aos autores contemporâneos.
Por fim, o vídeo sintetiza a trajetória de Lovecraft como uma evolução da heroína épica para o anti‑herói do horror cósmico. Enquanto o poema celebra a vitória de Ulisses, nas obras maduras de Lovecraft o protagonista raramente triunfa; a sobrevivência costuma ser frágil e a sanidade, irrevogavelmente abalada. Essa inversão decorre da compreensão profunda que o autor desenvolveu sobre a estrutura da jornada do herói, permitindo-lhe subvertê‑la e criar uma narrativa onde o cosmos é indiferente e as forças antigas são incompreensíveis.
Em resumo, o poema “Ulisses ou a Odisseia” não é uma obra literária de destaque, mas funciona como documento revelador da formação de H. P. Lovecraft: um exercício de concisão, uma imitação consciente dos clássicos, um primeiro contato com monstros que se tornariam símbolos do horror cósmico e um exemplo precoce de empreendedorismo literário. Para escritores, o estudo desse texto demonstra que a prática constante, a leitura diversificada e o domínio das estruturas narrativas são passos indispensáveis para a construção de uma voz própria.
💡 Sugestões e Dicas
- Pratique a concisão cortando tudo que não seja essencial, seguindo o exemplo de Hemingway e do jovem Lovecraft.
- Estude a estrutura da “jornada do herói” e identifique suas funções arquetípicas antes de tentar subvertê‑las.
- Leia obras fora do seu gênero favorito para ampliar seu repertório e gerar combinações inesperadas.
- Use a imitação de autores consagrados como primeiro passo para aprender técnicas narrativas.
- Planeje seus projetos literários definindo público‑alvo, objetivo e estratégia de divulgação, como fez Lovecraft com a Providence Publishing.
- Considere o processo de escrita como um produto a ser desenvolvido, incluindo etapas de produção e distribuição.
- Aceite fracassos como parte do caminho; escreva poema após poema, conto após conto, refinando sua voz.
- Pratique resumir narrativas épicas para desenvolver a habilidade de síntese e economia de texto.