Quero começar falando sobre o medo de ser mal compreendido, mal interpretado nas obras e ficar queimado com o leitor. Olha só, segundo a minha experiência, eu tenho que te dizer que um dos maiores inimigos da criatividade é justamente a autocensura, esse medo de receber julgamentos negativos do leitor. Mas eu preciso ser honesto aqui com relação a isso, porque não foi à toa que eu fiz esse outro vídeo anterior falando sobre o perigo que é você escrever de uma forma só para chocar o seu leitor, esse risco que você corre de se queimar para sempre como escritor.
E é por isso que eu considero que esse medo de ser julgado é bom, é importante para você. Por quê? Para você saber que você não deve passar de certos limites, para você ter alguma noção disso. Se por um lado você tem esse limite — que eu não sei exatamente onde é, mas é óbvio que você precisa ter uma noção sobre as escolhas que faz, porque elas podem sim te queimar para sempre e estragar sua reputação —, por outro lado, você precisa entender também que muita literatura boa não seria escrita se as pessoas simplesmente ficassem pensando na sua própria reputação para escrever.
Então, existe esse dilema de como balancear essas duas coisas, mas eu já tenho vídeos aqui no canal que você pode assistir para tirar essas preocupações da sua cabeça. Isso aqui eu posso te garantir: se você assistir a esses vídeos do meu canal, você vai tirar essa preocupação da sua cabeça. Se você não assistir a essas explicações mais longas, eu não posso garantir que você simplesmente vá assistir a este vídeo, ganhar uma confiança — talvez por falta de uma compreensão melhor — e fazer uma burrada na sua carreira literária.
Então, para garantir que você compreenda essas coisas e que não fique nenhuma lacuna no seu entendimento, veja esses vídeos que eu vou descrever agora. O primeiro é justamente esse vídeo sobre não chocar o leitor com a escrita abusiva, que vai ser o primeiro link aqui embaixo. O segundo vídeo é sobre o fato de que você, como escritor, nunca é o narrador das suas histórias. Nesse vídeo eu explico essa distância entre o narrador e o autor — que é uma coisa que todo leitor deveria saber — e explico também como é que você pode construir essa distância. Mas antes de você entender como se constrói essa distância, você tem que entender realmente que você, autor, não é o narrador. Isso vai te ajudar a compreender até o conteúdo deste vídeo aqui. Talvez a melhor coisa que você possa fazer seja pausar este vídeo e começar a assistir a esses dois vídeos.
Dito isso, vamos lá para o conteúdo específico do vídeo. Se eu puder resumir a dica deste vídeo em uma frase só, é o seguinte: pare de tentar gerenciar a sua reputação dentro das suas obras. Esse tipo de coisa vai aparecer claramente no texto e qualquer leitor vai perceber. Ele vai perceber, inclusive, que você é um escritor amador.
Como que isso geralmente acontece? Bom, tem várias formas. Uma delas, por exemplo, é quando um personagem de repente começa a mudar o seu vocabulário ou, pior ainda, o seu tom com relação aos assuntos e às suas opiniões, porque o escritor está preocupado em sinalizar que aquele personagem específico representa suas ideias. Às vezes o que acontece é que de repente surge uma reflexão um pouco mais profunda por parte de um personagem que não tem motivo nenhum para aparecer ali; você vê que é só para desculpar o próprio personagem, mas, na verdade, desculpando o autor.
Uma outra forma como isso acontece é quando encontramos obras em que os personagens do lado errado — os antagonistas, os vilões — são sempre caricatos e rasos. Não digo na construção exatamente, mas no raciocínio e nos argumentos deles, porque o escritor tem medo de desenvolver realmente esse raciocínio e parecer que está advogando em prol daquele personagem, daquela ideia negativa ou imoral. Por outro lado, como é que ele faz o protagonista, o homem bom? O protagonista, como evidentemente carrega os ideais e os valores do autor, é sempre muito lúcido, muito virtuoso e moralmente infalível. Até os temas da obra sinalizam que o escritor está do lado certo, e isso é o mais puro suco do amadorismo.
Tudo isso vai criar uma presença muito incômoda dentro do texto. Você, que é o escritor, talvez não perceba, porque a necessidade que fez você escrever desse jeito vai te atrapalhar a perceber. Mas, para o leitor, a sensação é a de que ele está assistindo a um filme e de repente consegue visualizar o microfone na cena; a partir dali, a verossimilhança acaba e a ilusão narrativa desaparece. Ele pode ter aquela sensação ruim também de que o texto foi escrito só para ensinar alguma coisa para ele. Ou pior e mais constrangedor ainda: ele pode achar que o texto foi escrito só para elogiar e vangloriar o autor, e ninguém quer ler um treco desse.
Aí você pode perguntar: "Tá, mas então eu não posso ter um ponto de vista como autor dentro da minha obra, um ponto de vista para aquele tema que eu escolhi?" Claro que pode, só que você tem que fazer isso do jeito certo. Eu vou explicar muito isso aqui no canal ainda, então vou falar só brevemente: um dos grandes autores dos manuais de roteiro que temos é o Robert McKee, e ele ensina que a narrativa precisa selecionar e organizar os eventos justamente para expressar um ponto de vista. Como exatamente fazemos isso é o que vou desenvolver em outros vídeos.
Contudo, a última coisa que você deve fazer como escritor é tentar explicar esse ponto de vista em sermões no texto. Sabe quando você fica com a sensação de que o personagem está dando uma explicação moral, uma resposta moral só para guiar o leitor na interpretação do texto e explicar o que o autor advoga naquele tema? Por um lado, você não tem que fazer isso; por outro, nem precisa, porque ninguém vai pegar um texto de ficção seu para tentar saber qual é a sua opinião moral sobre um assunto. A única coisa que a pessoa quer quando pega um livro de ficção é uma boa história, não a sua performance moral virtuosa ali dentro. O leitor quer uma história boa de ler, interessante, cativante e com personagens bem construídos. É nisso que você deve focar.
Se você quiser fazer uma leitura rápida sobre esse tipo de construção de que estou falando, pode ler o texto chamado *A Filosofia da Composição*, do Edgar Allan Poe, que é bem curtinho — qualquer hora eu trago aqui para o canal mastigadinho também. É lá que ele começa a nos mostrar que a escrita é basicamente uma engenharia de efeitos. O Edgar Allan Poe não ficava esperando pela inspiração; o que ele fazia era planejar o efeito emocional que queria provocar no leitor com a sua escrita, e ele explica exatamente como fazer isso nesse texto. Recomendo a leitura caso você não queira esperar aparecer aqui no canal.
Uma coisa curiosa que pensei agora é como isso que o Edgar Allan Poe ensina a fazer em *A Filosofia da Composição* é o contrário do que o autor narcisista faz. O Poe te ensina a construir um efeito emocional na sua história com o qual você quer atingir o leitor; o autor narcisista, por sua vez, tenta planejar a impressão que o leitor vai ter sobre o autor, sendo a história só uma consequência disso. O resultado será um texto que serve ao ego do autor e, portanto, não serve ao leitor, não tendo nada a oferecer a ele.
Uma das maneiras como isso pode acontecer é quando o autor escreve demais com base nas suas próprias experiências. Veja, não tem problema fazer isso — eu tenho um vídeo inteiro no canal sobre isso, com pesquisa científica e tudo. É o melhor vídeo sobre escrita terapêutica que você vai encontrar no YouTube, e vou deixar o link aqui embaixo também. Nesse vídeo, falo sobre o que chamo de "depuração dramática", que é basicamente unir o útil ao agradável: pegar suas experiências traumáticas e depurar as informações para, ao mesmo tempo, se livrar delas psicologicamente e emocionalmente, e também construir boas histórias impactantes para o leitor. Eu não sou contra isso; sou muito a favor.
O problema é que isso também pode gerar outro tipo de escrita narcisista. Você tem que tomar bastante cuidado, porque talvez até aqui tudo o que falei não pareça se encaixar com você. Você pode não ter sentido que é um escritor narcisista por não fazer o que mencionei antes ou nos outros vídeos — como ficar rebuscando a terminologia e as palavras para parecer mais inteligente, ou esclarecendo a moralidade da obra para parecer virtuoso. Muito pelo contrário: você está tentando ser o mais honesto possível escrevendo sobre suas próprias experiências, seus traumas e coisas que viveu.
Então, como é que isso pode ser narcisismo? É bem fácil de explicar, ainda que seja o tipo mais difícil de identificar, porque vem embalado como vulnerabilidade e tem um apelo mais sentimental. Mais uma vez, para ficar claro: eu apoio que você escreva com base nas suas dores, pois essa é uma das maneiras de colocar um peso real na sua obra. Tem um autor importante, o Kurt Vonnegut, que disse que as pessoas continuam escrevendo porque descobrem no processo que estão, de fato, tratando suas próprias neuroses.
Eu mostrei nesse vídeo sobre escrita terapêutica e depuração dramática que a escrita pode realmente fazer muita diferença na sua vida. Mas, no mesmo vídeo, explico que existe uma diferença crucial entre literatura e um desabafo puro e simples. O problema começa quando o escritor passa a usar seus traumas para se apresentar como um grande herói, uma pessoa injustiçada, a vítima perfeita ou aquele personagem supervirtuoso que nunca erra de verdade. Ele pode até cometer alguns deslizes, mas mesmo os deslizes são com boas intenções. Ele sempre tem muito mais sabedoria do que os outros e, quando falta sabedoria, foi só ingênuo, puro de coração. É sempre o mais sensível, o mais ferido, o mais incompreendido da história. O sentimento dele é sempre nobre; o dos outros, não. Ele é a vítima perfeita. Nenhum problema vem de dilemas dele, todos vêm de fora. As forças externas que vêm para destruir a vida dele são sempre maiores do que ele e sempre injustas. Nunca foi ele mesmo quem contribuiu para o seu próprio desastre, porque admitir a realidade exigiria um tipo de honestidade que o autor não está disposto a ter.
Ou seja, na verdade, o autor está só se protegendo dentro do texto. Olha, talvez isso não funcione nem como terapia, tanto como escritor quanto como pessoa. Você tem que parar de pensar sobre si mesmo além do que convém. Você tem que admitir certas coisas sobre você se quiser se libertar dos traumas e aprender alguma coisa. E se quiser que outras pessoas leiam esse texto, mais ainda.
O texto não precisa parecer que é sobre você. Eu expliquei como fazer isso no vídeo sobre depuração dramática. Na ficção, a empatia só funciona com personagens que sofrem de verdade e, mais do que isso, que pagam o preço por suas escolhas e seus erros. Um personagem que nunca é mesquinho, que nunca age de um jeito que envergonharia o autor e que nunca tem aqueles impulsos baixos que todos os humanos têm simplesmente não é uma pessoa de verdade, e o leitor não vai se conectar com ele.
Tem uma frase interessante de um autor famoso, o Oscar Wilde, que vai nos ajudar a entender: "Dê uma máscara ao homem e ele dirá a verdade." Pense um pouco nessa frase: "Dê uma máscara a um homem e ele dirá a verdade." Essa é uma das informações mais úteis que você pode guardar dentro desse assunto que estamos discutindo.
Quando você se esconde atrás de um personagem — um personagem que, por ser ficcional, já não é você —, mesmo que vocês sejam muito parecidos, ele tem falhas que não são as suas, ou falhas que você tem mas não gostaria de admitir pessoalmente. Ele faz escolhas que você nunca faria, ou que fez mas jamais diria a alguém. Ele tem uma visão de mundo de que você discorda, ou uma visão idêntica à sua que você tem vergonha de dizer aos outros que possui. Seja como for, quando você se esconde atrás de um personagem, ganha um superpoder: a liberdade de explorar verdades que a sua pose de pessoa virtuosa na frente dos outros jamais permitiria.
O impasse é justamente esse: escrever sobre você mesmo com honestidade exige que você se exponha de um jeito que a sua imagem pública não gostaria. Exige mostrar, por exemplo, aqueles momentos em que você foi o vilão da sua própria história, os momentos em que sabia o que fazer mas fez o contrário, ou em que o seu sofrimento, pelo menos em parte, foi culpa de uma escolha sua. Se você fica se esquivando dessa exposição — que é uma exposição literária e ficcional —, a sua história vai parecer simplesmente uma propaganda pessoal. O seu texto pode ter palavras bonitas, frases bem construídas e muita qualidade técnica, mas vai faltar a ele aquilo que importa para uma história boa: a sensação de que uma pessoa real esteve ali.
Todos esses casos que vimos hoje têm a mesma raiz: é sempre o autor que não consegue sair do caminho da sua própria história. No primeiro caso, ele aparece tentando ser admirado, seja pela inteligência, pela erudição ou pela postura moral. No segundo, aparece tentando ser protegido pela versão de si que escolhe mostrar, através de situações escolhidas a dedo para passar ao leitor uma versão muito específica sobre si mesmo.
A solução para as duas coisas é a mesma, e não vou negar que é muito difícil: a solução é a honestidade. Não aquela honestidade performática de quem está confessando pecados só para parecer humilde — escolhendo errinhos menores e insignificantes —, mas a honestidade que dói, aquela que mostra o personagem e, por extensão, o autor como ele realmente é, com tudo o que isso implica.
É claro que, como se trata de uma ficção, você não está contando ao leitor quem você é, a não ser que escreva isso no prefácio do livro, mas aí é opção sua. Para ter certeza de tudo isso que estou falando, assista aos outros vídeos que recomendei.
Para fechar o vídeo, preste muita atenção no que vou dizer. Para fazer você entender como isso funciona e como fazer, vou te deixar com uma frase final para refletir: mesmo que a história seja baseada nas suas experiências e nas suas dores mais profundas, quando você parar de tentar proteger a sua imagem nas suas histórias, é nesse momento que você vai conseguir um texto, uma narrativa onde o autor desapareceu. É só quando o autor finalmente desaparece da obra que ela consegue respirar e ganhar vida própria.
Enfim, é isso. Se você for honesto no seu texto e se preocupar com a experiência que o leitor vai ter, não vai precisar se preocupar em ter passado do ponto, em ter sido um babaca como escritor ou com o que o leitor pensa sobre você. Mas, para ter certeza de que entendeu, veja os vídeos que recomendei na descrição. Se você gostou deste vídeo, inscreva-se no canal, deixe seu like e a gente se vê no próximo. Até mais.