Bom, a ideia de fazer esse vídeo surge de uma pergunta, né, que eu tive quando eu jogava muito tempo RPG, que era: o RPG ele ajuda na criação de uma boa literatura? Será que o RPG de fato ele nos ajuda a entender melhor a narrativa e, consequentemente, nos ajuda enquanto escritores a administrar melhor o que está acontecendo, o conflito? Enfim, com a ideia desse vídeo, justamente, que eu decidi — com a ideia dessa pergunta, né? — eu decidi gravar esse vídeo, porque, bom, eu acho que o RPG enquanto ferramenta criativa, ele tem um potencial enorme para criar histórias, para criar histórias que são convincentes e que são naturalmente, eu acho, que elas acabam atraindo os leitores. Por que que eu digo isso? Diferentemente das outras formas de contar histórias, o RPG ele é um jogo por si só, e então um personagem — um jogador, no caso — ele vai assumir o personagem, o papel de mestre, ou seja, o mestre tem como objetivo apresentar o mundo, digamos assim, apresentar os mecanismos, e os jogadores são o quê? São as peças que fazem o mecanismo girar. Consequentemente, para o mecanismo girar, as peças elas precisam ser bem encaixadas, então o RPG ele é colaborativo no sentido de que tanto jogador quanto mestre vão tentar encontrar uma sincronia para que a narrativa avance. Eu já narrei diversas mesas por diversos períodos de tempo, assim: mesas curtas, mesas longas, mesas de fantasia, mesas de terror, mas sempre tem essa constante de que há uma — é quase como se houvesse uma dança, né? Um ritmo que tanto o mestre quanto os jogadores aprendem a seguir para que aquela narrativa tenha efeito, digamos assim. E às vezes demora a engajar, às vezes demora, digamos assim, as coisas a começarem a acontecer, mas eventualmente elas acontecem, e existe um equilíbrio entre o narrador e o personagem, né? Entre o narrador e o mestre do jogo, e o jogador e os outros jogadores, em que a narrativa, as coisas começam a avançar.
Mas o RPG enquanto ferramenta, ou seja, o RPG enquanto uma ferramenta criativa para testar suas ideias, ele pode ser uma faca de dois legumes, eu diria, porque ao mesmo tempo que ele vai ser excelente para testar a reação dos jogadores, a reação das pessoas que vão encarar aquele problema, aquela problemática, aquele tema, enfim, a sua ideia de uma forma bem genuína, bem viva, ao mesmo tempo, quando você transporta ela para a literatura formal, você tem que ter ciência de que não vai ser da mesma maneira, não vai ser a mesma coisa. Então é muito comum que uma história funcione muito bem para o RPG, mas ao ser transportada para a literatura formal sem adaptação, sem muitas adaptações, ou seja, sem muitas interpretações, sem muitos cortes, ela acaba não funcionando tanto. Eu acho que é por isso que a gente tem essa distinção da literatura que a gente costuma dizer como literatura formal, né? E a gente tem a literatura de RPG. Eu não vejo essa diferenciação e de categorias como sendo algo necessariamente negativo, pelo contrário, eu acho que a literatura de RPG ela ganha cada vez mais espaço na nossa literatura mainstream, digamos assim, mas ela exige por parte de quem a faz, né, esse tipo de literatura, um entendimento diferente da narrativa.
Aqui, nesse vídeo, a gente está discuto mais a ideia de alguém que quer usar as ideias do RPG, mas não quer necessariamente fazer uma literatura de RPG. Ou seja, eu quero, sei lá, eu tenho um mundinho de fantasia medieval e eu quero testar as ideias para o meu romance de fantasia medieval, mas esse romance de fantasia medieval não é necessariamente uma história de RPG, ele não lida com mecânicas, ele não lida com habilidades, com progressão de nível, é uma forma romântica do conflito que a gente viu de uma maneira mecanizada, às vezes, na sessão de RPG, na campanha, enfim. E é por isso que eu acho que quando a gente está narrando RPG, principalmente a gente que é mestre, nós temos que ter ciência de que o RPG enquanto ferramenta colaborativa, ele é, acima de tudo, um campo de ideias, mas acima de tudo uma ferramenta colaborativa. Ou seja, se você apresentar algo e o jogador te fornecer uma reação, essa reação ela faz parte da narrativa e ela é diretamente relacionada à qualidade da sua mesa, da sua narrativa, porque eu vejo muitos mestres fazendo isso também: eles parecem resistentes às ideias que os jogadores propõem, sendo que, na verdade, não é bem isso. O RPG, o mestre ele apresenta os problemas, mas ele não tem domínio dos problemas — quer dizer, pelo menos eu enquanto mestre, eu não me proponho a ter o domínio dos problemas, eu me proponho a ter o domínio das apresentações dos problemas e aí sim, junto com os jogadores, em cooperação, nós tentamos resolver aquilo, ou então complicar de uma maneira que seja divertida, de uma maneira que todos possam interagir com o cenário, que todos possam apresentar as suas dinâmicas dentro de uma sessão de jogo.
E eu acho que o RPG ele tem esse potencial quando a gente transporta ele para a literatura formal e a gente pensa assim: "Tá, como é que eu vou utilizar isso ao meu favor?". O que eu gosto de fazer é projetar a mim mesmo de uma maneira genuína e eu uso a vivência dos personagens do jogo, ou seja, um exemplo típico: uma pessoa, um aventureiro que não quer entrar numa caverna, por exemplo, porque ele sabe que ela é perigosa. Tá, vamos colocar um personagem dentro da narrativa que seja referente a esse, digamos assim, a esse arquétipo, e a partir disso, através do contraste entre esses personagens, pelo fato de que você já viu mais ou menos qual é a reação mais comum, digamos assim, a essas problemáticas que são apresentadas, a esses conflitos que são apresentados, você vai trabalhando isso na sua literatura formal, digamos assim, de modo que você mesmo consegue se projetar no lugar do jogador, sabe? E a partir disso você começa a criar uma camada em que você sabe que o problema que está sendo apresentado, você sabe como ele vai ser resolvido, mas você sabe também como cada personagem vai reagir ante aquele problema e como eles vão se colaborar entre si.
E às vezes, isso é muito comum, às vezes a mesa ela fica tão entrosada que os personagens resolvem um conflito muito rapidamente. É comum disso acontecer também, ou seja, aquilo que você planejou que seria esse problema gigantesco para os personagens é resolvido em questão de poucos minutos, de poucas sessões, e o personagem do mestre pode, através desses conflitos, trazer maneiras mais inteligentes de, como eu posso dizer, de complicar as coisas sem soar forçada. Por exemplo, você pode prender os personagens na narrativa, mas não de modo físico, por exemplo; é muito comum que, para forçar os personagens a ir num caminho específico, o mestre use de um artifício para prendê-los fisicamente no mesmo lugar, é o famoso "você entrou na caverna e as portas atrás de si se fecharam magicamente, sabe?". Existe uma maneira mais inteligente de prender o personagem, consequentemente prender o leitor naquela narrativa, fazer o leitor acreditar que o personagem tem um bom motivo para continuar, então é aí que você tem que perseguir, digamos assim, o seu objetivo.
Então eu acho que o RPG enquanto ferramenta criativa, ele é excelente se você souber adaptar esses aspectos, agora se você tenta transportar diretamente o que aconteceu na mesa para o que vai acontecer no seu livro, você começa a ter impasses e, a não ser que você queira fazer uma literatura de RPG, você vai ter problemas de ritmo, principalmente. Mas eu acho assim que é um… Eu pretendo fazer vários vídeos sobre, mas eu acho que o tema desse vídeo é que eu posso sumarizar assim, sabe? Resumir é que o RPG, ele é um excelente artifício, ele é um excelente campo de treinamento para se tornar um bom escritor, mas o escritor deve ter ciência de que o RPG e a literatura são diferentes, eles partem do mesmo princípio muitas das vezes, mas um não é diretamente relacionado ao outro, eles funcionam de maneira diferente. Então, se você tiver ciência disso enquanto você está escrevendo, eu acho que você tem bom pano pra manga, digamos assim, você tem boas oportunidades para melhorar a sua escrita.
Mas enfim, eu vou ficando por aqui, eu espero que vocês tenham gostado desse tipo de narrativa e me contem aí como é que vocês encaram também o RPG para vocês mesmos, né? Se vocês usam como uma ferramenta de escrita, como uma ferramenta para testar suas ideias, ou se vocês têm uma perspectiva diferente. Enfim, eu vejo vocês no próximo vídeo e até mais.