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O Último Dia de um Condenado – Análise Profunda do Livro

O Último Dia de um Condenado - Análise Profunda do Livro

O clássico "O Último Dia de um Condenado", de Victor Hugo, é uma obra contundente que explora os horrores psicológicos da pena de morte através da perspectiva de um prisioneiro. Nesta análise profunda do livro, os apresentadores discutem as nuances da narrativa, as estratégias literárias do autor francês e os debates em torno da justiça e da moralidade trazidos à tona pela obra.

Para dar um resumo prático para as pessoas sobre este livro, que é mais um dos que estamos trazendo aqui e cuja premissa está literalmente na capa — quer dizer, não exatamente na capa, porque a história demora seis semanas, mas enfim —, ele é condenado logo no começo. Não há nenhuma dúvida de que ele é um criminoso; é um livro narrado pelo próprio criminoso, e ele dá vários indícios de que não apenas é culpado, mas de que cometeu algo grave, como um assassinato. E ele não está arrependido. Ele até esboça algum arrependimento depois, mas entre os cristãos encontraríamos outra palavra para isso: remorço. Há uma diferenciação teológica, por exemplo, feita por protestantes entre arrependimento e remorço. No primeiro caso, você realmente fica infeliz com o que fez porque considera a ação ruim em si mesma. No segundo caso, o remorço ocorre quando você gostaria de não ter feito a ação, não porque a acha ruim, mas porque as consequências para você não são boas. Parece que este é o caso dele.

A primeira coisa que acontece no livro é o autor apresentando sua própria situação. Vale notar que Victor Hugo fez uma primeira publicação anônima desta obra. Eu fiz uma leitura inicial focada apenas no miolo do livro, pois conheço o estilo de Victor Hugo e sabia que, se lesse o contexto e os prefácios antes, seria muito influenciado e talvez não formasse uma opinião pura sobre o texto. Depois, em uma segunda leitura, li os prefácios — que somam cerca de 20 páginas na edição que peguei — e descobri algo curioso. Victor Hugo usou estratégias para fazer o texto parecer composto realmente por um condenado. Na primeira publicação, ele deixou em aberto se o manuscrito havia sido escrito por um escritor, um filósofo, um poeta ou por um condenado de verdade, e não assinou a autoria. Isso gerou um enorme rebuliço, com muitos críticos detonando a obra sem sequer tê-la lida. Na segunda edição, ele finalmente assinou o livro e desceu a lenha nesses críticos, simulando inclusive uma conversa muito interessante entre os opositores que falavam mal da obra sem conhecê-la. O material de introdução e pós-fácil era tão longo que equivalia a um terço do livro.

Entrando propriamente no enredo, a primeira coisa que o protagonista faz é falar sobre si mesmo. Ele começa se lamentando e diz que perdeu a liberdade, explicando do jeito dele que perdeu a liberdade na mente, não apenas de forma física; ele só consegue pensar na própria pena. Tive a impressão de que ele está contando aquilo em retrospecto, narrando como uma tortura psicológica terrível, o fato de não conseguir pensar em mais nada. Como ele ainda não havia sido condenado à morte no exato momento inicial, imagino que ele estivesse recapitulando o processo. Na minha primeira leitura, não tive essa sensação; achei apenas que o aprisionamento em si já era a tortura. No entanto, após ler os prefácios, percebi que Victor Hugo estruturou a narrativa dessa forma propositalmente. Ele relata primeiro essa tortura extrema da espera pela pena de morte e depois retorna para contar os fatos em ordem cronológica. Afinal, Victor Hugo não era necessariamente contra o sistema prisional em si, mas era vehementemente contra a pena de morte. Em seus textos e nos comentários do prefácio, ele descreve o período de espera do condenado à morte como uma verdadeira tortura psicológica, conceito que ele inclusive toma emprestado de Cesare Beccaria, a quem cita logo no início do livro.