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Por que você deveria ser um escritor? (+ dicas para escritores iniciantes)

Por que você deveria ser um escritor?  (+ dicas para escritores iniciantes)

Bom, a ideia de fazer esse vídeo é veio depois de uma sessão que eu fiz de escrita. Umas das minhas inúmeras sessões de escrita em que eu me perguntei, né? Como e porquê escrever? Eu acho que se a gente escreve, principalmente, uma literatura que a gente considera como aquela literatura de gênero, né? Ou seja, fantasia, horror e ficção científica, muitas das vezes — e eu acredito que isso vale para qualquer tipo de literatura, mas muitas das vezes — existe aquele, como eu posso dizer, aquela pergunta, né, que diz respeito a: por que você escreve? Você escreve para fama, para dinheiro, para enfim? Qual é o objetivo na literatura?

E é engraçado, porque no meu caso, por exemplo, a escrita ela é muito antes do que um, sei lá, uma carreira; ela é muito mais um processo terapêutico através do qual eu descubro muito de mim mesmo. E é lógico que a minha admiração e o que me levou a escrever literatura é o fato de que eu experienciei, né? Eu li muitos autores e que eu ficava fascinado com o trabalho deles, e eu lembro quando eu comecei As Crônicas de Gelo e Fogo pela primeira vez e eu fiquei simplesmente fascinado pelo George Martin. Eu assisti à série televisiva à época, eu não era muito de ler livros, eu tinha lido o meu primeiro livro — inclusive foi o Robin Hood do Howard Pyle, que eu gosto muito e um dia eu vou comentar sobre, com certeza —, mas eu não tinha lido muita coisa. Quando eu vi a série televisiva da HBO, eu fiquei fascinado. Eu pensei assim: cara, não é possível que alguém consiga fazer isso num livro, e não só era possível, como fizeram. E desde então eu criei esse fascínio de uau, eu quero tentar fazer a mesma coisa, sabe? Eu quero… Não, eu não diria replicar isso, mas eu queria fazer algo parecido, eu queria ter o meu mundo, sabe? Os meus personagens.

Mas quando a gente tá falando de escrita, todos os personagens que você cria são essencialmente projeções de si mesmo. Por mais que eles tenham inspiração, às vezes na sua experiência de vida, às vezes num familiar, às vezes num namorado, numa namorada, num filho, numa mãe, num pai, num amigo, essencialmente quando você estiver escrevendo aquela ficção, essas pessoas vão ser, como eu posso dizer, levadas ao seu âmago e você vai projetar esses personagens como parte de si mesmo, por mais que eles não sejam literalmente você, né?

Então, fazer isso para mim acabou se tornando um processo muito terapêutico no sentido de que eu precisava de tempo para me descobrir enquanto eu lia, e na escrita eu me descubro, digamos assim, várias vezes, sabe? Então, quando a gente tá lendo um livro, por exemplo, a gente pega um personagem interessante, o que que acontece geralmente quando o personagem é interessante? Ele tem múltiplas camadas, né? Ou seja, ele não é um personagem superficial; muitas das vezes são personagens que enfrentam dilemas, muitas das vezes são personagens que enfrentam algum tipo de sofrimento, algum tipo de conflito, seja psicológico, seja físico, seja, sei lá, enfrentar os dragões, levar o anel até Mordor para, sabe, destruí-lo para salvar a Terra Média, ou simplesmente "quero cuidar da minha fazendinha aqui", sabe?

Eu acho que independentemente do conflito, o personagem bem feito ele acaba criando esses dilemas, né? O certo, o errado, o que eu devo fazer? Ele vai ser encurralado muitas das vezes. E assim, quando eu sujeito os meus personagens a essas situações, essencialmente eu tô sujeitando parte de mim mesmo a essas situações, e consequentemente eu preciso pensar, parar e pensar. E quando eu digo pensar, não digo no sentido tipo assim: ah, parar para pensar no que vai ser em seguida; não, parar para pensar no porquê de eu estar fazendo as coisas que eu estou fazendo enquanto aquele personagem.

Então, acho que tem muitas discordâncias no sentido de que, às vezes, a gente tá consumindo material, a gente tá lendo, assistindo a série, que a gente não entende o porquê do personagem fazer aquilo. Eu acho que isso demonstra — pode demonstrar também — a ignorância do próprio leitor, da própria pessoa que tá consumindo aquele material, mas muitas das vezes isso também é uma discrepância na produção, no sentido de que o diretor, o roteirista, o escritor fez algo que às vezes vai contra aquilo que o personagem se propôs a fazer. Mas eu também acho que você pode sim apresentar transformações desde que elas sejam justificadas através de uma boa construção de personagem. E como você faz isso? Com uma boa percepção dos personagens, e a melhor maneira de você ter uma boa percepção dos personagens é quando você torna esses personagens parte de si mesmo.

E como consequência disso, por que que eu decidi escrever, né? Porque eu percebi que eu descobri muito sobre mim mesmo que eu provavelmente não descobriria em muitos anos de vivência, muitos anos até mesmo lendo outro tipo de literatura, consumindo outros materiais, fazendo outras coisas, outros cursos, sejam eles profissionalizantes, acadêmicos, enfim. A escrita ela tem esse potencial, por mais que a gente fale de ficção — e no meu caso ainda é uma ficção ainda mais específica, que é literatura de gênero —, ainda assim você consegue identificar através dessa forma de escrita muitos e muitos aspectos filosóficos, muitos aspectos que congregam muito a sua vida.

A segunda coisa que me leva a escrever é o fato de ser muito divertido, né? Acho que a diversão ela é essencial para quem escreve; não escreva uma história que você não gosta. Então, eu sempre escrevo aquilo que eu gosto de fazer. Lógico que muito da escrita é labuta, muito da escrita é sofrimento. Existe essa romantização do processo criativo com a qual eu não concordo, primeiro porque eu acho equivocado. Não sei se eu entendo a literatura como algo 100% criativo — pode parecer ridículo o que eu tô falando, mas eu acho que existe sim uma técnica, eu acho que existe sim uma maneira de você conseguir reproduzir uma escrita de qualidade com técnicas literárias. Mas, acima de tudo, elas têm que ser prazerosas para você; você não quer escrever sobre coisas que não te interessam.

Então, antes de começar na literatura, se você quiser começar na escrita, né? Eu recomendo que você escreva aquilo que você gosta. Quais são as histórias que você quer contar? Muitas das vezes, por exemplo, você vai contar uma história muito boa, de maneira muito competente, e às vezes aquele não é o seu tipo; no final das contas, é o que te interessa que tem que te mover. Eu já vi muito isso: às vezes a pessoa ela tem um gênero muito bom, ela tem uma escrita muito boa naquele estilo específico, mas não é aquilo que a pessoa tá querendo fazer, ela tá fazendo isso porque ela quer receber aprovação social, algum tipo de reputação.

Às vezes a pessoa escreve literatura realista também — e não sou contra literatura realista, eu acho que literatura realista continua sendo o nosso, digamos assim, o epicentro, sabe, da literatura como a gente conhece —, mas ainda assim, se você quiser, por exemplo, escrever literatura, vamos lá: se você quiser escrever um personagem que tá simplesmente fazendo feitiços para fadas no Reino Encantado, vai lá e faça, sabe? Você não precisa, você não tem, você não deve a ninguém dentro da escrita.

E a terceira coisa que eu acho muito interessante da escrita é que você meio que… Assim: na nossa vida são poucas as coisas que nós temos completo controle, a literatura é uma delas. Quando você vai para a escrita, você percebe que tá tudo ali, tudo é seu; então, as coisas que acontecem são completamente, e elas são o completo resultado daquilo que você decidiu, seja através da escolha de palavras, seja através do ritmo, seja através dos personagens, seja através das perspectivas. Então, o fato de que você está escrevendo a sua história dá agência também para você se divertir dentro da sua história, o que você quer e saber o que é que você quer explorar, né?

E aí existem os tipos de escrita, né? Existe aquela escrita que ela é mais incitada, aquela escrita da pessoa que não sabe o que está acontecendo, mas ela quer descobrir o que está acontecendo junto com os personagens; existe a escrita que é mais planejada; existe a escrita que é mais roteirizada; existe a escrita que vem através do diálogo; existe a escrita que vem mais através da narração, né? E enfim, são diversos aspectos que eu pretendo comentar em futuros vídeos, mas eu acho que esse aspecto é muito importante, né? Esse terceiro, do porquê de escrever.

Então, a primeira coisa é por que ingressar na literatura, né? A gente já comentou aqui: isso, que você tem que gostar de literatura, que você vai descobrir muito sobre si mesmo através da literatura e que, se não te der interesse, se você não tem interesse de escrever, não tem por que você insistir, certo?

Mas as dicas que eu dou para quem quer começar a escrever, né? Ah, bom, a dica principal que eu dou para quem quer começar na escrita é: leia, tá? Um bom escritor é essencialmente um bom leitor. Não espere ler e escrever coisas boas se você só lê porcaria. Eu sinto que muitas das vezes eu leio, por exemplo — eu gosto de ler clássicos, eu amo fantasia, amo fantasia, mas eu faço questão de ler os clássicos de vez em quando. Por quê? Porque não somente eu gosto desse tipo de literatura, como eu aprendo muito com a literatura clássica, principalmente literatura do século XIX e século XX, são literaturas de excelente qualidade. Eu diria que são a era de ouro da nossa literatura romântica. E por quê? Porque as pessoas eram muito intelectuais naquela época, as pessoas tinham muito o costume de ler e escrever durante longos períodos do dia, longos períodos de tempo, e grandes obras surgiram desse período. Consequentemente, você pode aprender com esses autores clássicos, seja através do campo de ideias, seja através do campo do ofício mesmo da prosa em si, você pode aprender muito com eles.

Eu acho que existe uma mescla de autores antigos e autores contemporâneos que você pode dar uma chance, sim, mas acima de tudo você tem que ter isso em mente: tem que ser bom, sabe? Tem que ser uma literatura boa. Eu acho que, claro, muito quando a gente discute sobre literatura, muito é subjetivo, né? Então, o que que define uma literatura de qualidade? Isso é papo para outro vídeo, mas para mim a literatura de qualidade ela tem que ser reconhecida primeiro por você enquanto leitor, ou seja: "Eu estou lendo algo que eu sinto que é bom; se eu sinto que isso é bom, eu devo continuar a explorar mais", sabe?

A segunda coisa que eu… A segunda dica que eu dou para quem quer começar a escrever é: saia da sua zona de conforto. O que que eu quero dizer com isso? Você, quando quer ser um escritor, pense o seguinte: um escritor escreve qualquer coisa; para mim, um escritor bom, ele escreve bem qualquer história. Então, às vezes acontece muito isso: eu tenho uma ideia, uma boa história, mas às vezes eu não sei contar ela muito bem. Se você sabe contar uma história muito bem, preocupe-se somente com isso. Muitas das vezes os escritores que estão começando, eles estão focados principalmente no plot, na tipo assim: "Eu tenho uma ideia desse livro que eu acho que é muito interessante, que dá um bom livro", mas cara, ideias estão aí, sabe, tipo, a todo momento, elas estão espalhadas por todo lugar, ideias interessantíssimas, e são só ideias no final das contas. Agora, o modo de contá-las, o modo de escrever é o que faz a diferença.

Então, foque no ofício de fato, foque na prosa, foque… Pesquise livros de gramática na língua que você deseja escrever, seja o português, seja o inglês, seja o francês; pesquise também diferentes parâmetros através dos quais os autores de antigamente se baseavam para escrever as suas novelas, os seus contos, as suas histórias, as suas narrativas. Porque se você sabe escrever bem histórias no geral, você vai saber escrever bem qualquer história, sabe?

Claro que a gente sempre tenta sair da zona de conforto, né? Sempre que possível. Mas é muito interessante você conhecer esses estilos e saber que você pode aplicar para diferentes tipos de história, não somente uma, sabe? Porque às vezes você… Muitas das vezes — e isso é muito comum —, você acha que você tem uma história muito boa, e às vezes ela é realmente muito boa, mas os leitores não se importam muito com aquilo; na verdade, eles vão gostar da história que você achava que tinha menos potencial. Então, não se preocupe com isso, se preocupe em escrever bem, sabe?

E quando você tiver essa preocupação e não aceitar a mediocridade — ou seja, não aceitar que você chegou num nível que não dá para melhorar —, eu acho que esse é um excelente ponto de partida, sabe?

Mas enfim, esse foi um vídeo que eu acho que o porquê de escrever e como escrever… Tem muitas e muitas coisas que eu gostaria de comentar, mas eu acho que no geral é isso, eu acho que dá pra gente discutir muito sobre. Só que eu acho também que isso que eu falei no vídeo é essencial, sabe? Eu acho que se você quer escrever e você já tem mais ou menos essas dicas aqui que eu tô dando, você vai ser capaz de escrever um material de qualidade.

Se você tem… se você também é escritor, se você também é escritora, deixa aí no campo de comentários como você escreve, como você define a literatura, por que você escreve, como você começou, e se inscreva no canal para acompanhar os próximos vídeos. Então é isso, vejo vocês em breve e até mais!