A relação entre a obra *A Poética*, de Aristóteles, e o primeiro nível da teoria dos quatro discursos — o nível poético — é um tema central para compreender como se estruturam as formas de expressão e o pensamento humano segundo essa formulação. Respondendo à pergunta sobre essa relação, o livro *A Poética* funciona exatamente como o manual que explica como construir o melhor tipo de discurso poético. Para Aristóteles, o ápice desse discurso é a tragédia, considerada por ele superior à epopeia e à comédia, embora todas tenham seus méritos. A tragédia ocupa essa posição superior por um motivo muito específico, ligado a um objetivo que é essencialmente ético, conectado à sua obra *Ética a Nicômaco*.
Para alcançar esse objetivo, Aristóteles demonstra que existe um método estruturado. Embora ele admita que possa surgir um gênio — como Eurípedes, que era considerado genial e conseguia emocionar o público e obter reconhecimento de maneiras próprias —, o método ideal e mais bem-sucedido baseia-se na obra de Sófocles. Sófocles foi o tragediógrafo mais premiado da Grécia Antiga: escreveu 96 peças e obteve o primeiro lugar em festivais cerca de 30 vezes, mesmo tendo hoje apenas sete tragédias integralmente conservadas. Em comparação, Eurípedes escreveu mais de cem peças, mas alcançou o primeiro lugar poucas vezes, embora também conseguisse o favor do público e lágrimas da plateia.
Portanto, resumindo a relação entre a obra e o conceito, o livro *A Poética* vai explicar o método e a melhor maneira de obter sucesso no discurso poético. Da mesma maneira, os livros da retórica de Aristóteles explicam como ser bem-sucedido no discurso retórico, focando especificamente nessa modalidade sem detalhar as outras. O mesmo ocorre com a dialética e com a lógica, que encontram seu devido lugar no *Organon*. Em suma, *A Poética* é a ferramenta teórica e prática dedicada exclusivamente a fundamentar, orientar e aperfeiçoar o primeiro nível da teoria dos discursos: o discurso do possível, que é o poético.