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O “Jesus” freestyle do TOLSTOI

O Jesus Freestyle de Tolstói: A Visão Radical do Escritor

Quando pensamos em Lev Tolstói, é comum imaginarmos uma figura que pregava um estilo de vida bondoso, simples e focado em aproveitar a vida de maneira tranquila, mas a realidade de seu pensamento era bem mais complexa e radical. Tolstói não era um cristão ortodoxo; na verdade, ele desenvolveu uma forma de ascetismo muito própria, acreditando que a graça divina só se manifesta na alma humana através da busca incessante por essa conexão com o divino. Para ele, os ritos e as crenças dogmáticas não importavam; o que realmente interessava era esse *religare*, essa reconexão pura, tendo a figura de Jesus como o grande exemplo a ser seguido. No entanto, o Jesus de Tolstói é uma criação particular, um ideal pacífico e ascético que difere drasticamente do Jesus histórico encontrado na Bíblia.

O Jesus bíblico não é um pacifista incondicional, tampouco um mestre que distribui todos os bens e abdica de tudo nos moldes que Tolstói imaginava. O pensador russo acabou moldando um Jesus sob medida para a sua própria visão de mundo, criando algo que se assemelha muito mais a um Buda cristão — um Buda com Deus, em que a busca espiritual resulta em uma conexão cósmica, mas mantendo a figura do Criador. Esse "Jesus freestyle" passou a dominar os últimos quarenta anos da vida de Tolstói, especialmente após sua grande reviravolta mística na década de 1870, quando ele decidiu que usaria toda a sua obra escrita exclusivamente como veículo para a sua própria doutrina.

Essa visão transparece em suas análises literárias e filosóficas, como na forma de encarar a morte e a trivialidade da vida humana. Ao retratar personagens comuns ou em situações esdrúxulas, como em *A Morte de Ivan Ilitch*, Tolstói não está apenas descrevendo uma existência sem graça; ele usa a trivialidade da vida comum para forçar o leitor a refletir sobre o seu próprio propósito. Contudo, é justamente aí que reside o grande ponto de discordância com a teologia cristã tradicional. Enquanto Tolstói propõe que a salvação e o sentido da vida vêm desse esforço ascético de reconexão pessoal, a própria Bíblia — incluindo profecias como as de Isaías — aponta para uma direção completamente oposta, afirmando que os nossos melhores atos de justiça não passam de trapos de imundice diante da santidade divina. Tolstói constrói sua filosofia sobre uma premissa que desconsidera a revelação bíblica histórica, criando um sistema ético fascinante na literatura, mas fundamentado em um Jesus que só existe na sua própria imaginação.