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O Conde de Monte Cristo • @rayhanchamoun

O Conde de Monte Cristo e a Natureza Humana | Rayhan Chamoun

A jornada de Édmond Dantès em *O Conde de Monte Cristo* serve de reflexão sobre a natureza humana, a moralidade, o sofrimento e a complexidade de fazer o bem em um mundo repleto de egoísmo e injustiças.

É difícil ser bom. Quero dizer, é difícil fazer o bem, não porque seja complexo discernir o bem do mal, pois, quando se trata da sociedade moderna, a maior parte de nós tem uma base fundamental de valores que a sociedade solidificou de um modo ou de outro. No que diz respeito a ser bom, família, pai, mãe, avós, tios, irmãos mais velhos, professores, chefes, vizinhos, vendedores, todos estão entrelaçados num convívio que recorrente e cotidianamente parece testar nossa integridade. É por isso que acredito que, para muitos, o que é difícil é aceitar que aquele que faz o bem está fadado, a um momento ou outro, a entender que fazer o mal, para muitos, não passa de um simples *status quo*. Ser mal é fácil. Com certeza, você que está assistindo a este vídeo agora já deve ter passado por uma situação assim, seja com você ou com alguém que conhece: uma fofoca suja, um esquema para colar nas provas e passar de ano, uma mentirinha para conseguir ir àquele lugar especial com aquela pessoa mais especial ainda. Parte do crescimento pessoal é aceitar que essa parte de você existe e lutar para que essa parte de você que não é necessariamente ruim não tome o lugar das partes necessariamente boas.

Mas e quando já não é uma mentirinha, quer dizer, uma fofoca? E quando tratamos de uma traição, um esquema de corrupção, um testemunho comprado, um estratagema que, de um modo ou de outro, pode pôr em risco até mesmo a vida de outra pessoa? Já não é tão divertido, não é? Essa parte ainda existe dentro de nós e, apesar do peso das ações não ser o mesmo, elas seguem o mesmo princípio: o egoísmo. Mas e quando tudo isso ocorre de uma vez? E quando tudo com o que você não compactua parece se unir justamente contra você? O que fazer?

Bom, não é sempre que eu posso citar o livro favorito da minha vida, *O Conde de Monte Cristo*, publicado em 1844 e escrito pelo gênio Alexandre Dumas. Nele há, ao meu ver, o melhor exemplo de superação de um protagonista, e acompanhar sua jornada pode nos ajudar a entender muito sobre nós mesmos. Existe essa falácia, muitas das vezes perpetrada por pessoas já de idade que normalmente não conseguiram superar seus conflitos ao longo da vida, de que hoje somos menos felizes do que ontem. Os problemas de hoje são muito piores, eles dizem, pois a perspectiva deles já deixou aquela parte que comentei agora há pouco — a parte das coisas não necessariamente ruins — consumir a parte das coisas necessariamente boas. Na verdade, *O Conde de Monte Cristo* é uma prova de que os problemas de hoje são os mesmos de ontem, e deixar-se levar por essa maré pessimista não é somente perigoso do ponto de vista moral — pois eu não me importo com o hoje, visto que o hoje é triste, e como eu me preocuparei com o amanhã? É aí que entra de fato o protagonista de nossa história. Ele é você, ele sou eu, ele representa uma parte de cada um de nós em nossa juventude: um rapaz trabalhador, guerreiro de fé, cuja labuta árdua no navio comerciante do excelentíssimo senhor Morel não somente representa o ápice de sua liberdade, como sua completude. Homem simples, cuida do pai, Louis Dantès, cujo orgulho de si não é maior somente por conta de seus problemas de saúde, que o impedem de se bancar, além de preparar o casamento com a mulher de sua vida, Mercedes, para viver o melhor que Marselha poderia oferecer a um casal de apaixonados. Um homem de propósito.

Mas, como tudo nessa vida, sempre há aqueles cujo propósito se resume a ganância, inveja, poder e ciúmes, e o homem que é bom de coração nada mais é para os maldosos do que um instrumento. Danglars não é um dos primeiros antagonistas à toa. Danglars é aquele tipo de pessoa que não tem necessariamente uma vida ruim, mas o vazio dentro de si, a ausência de um propósito, é preenchido pela ganância. Um homem extremamente competente, mas que, pelo simples fato de correr sequer o risco de perder um cargo em detrimento de um jovem inexperiente, não resiste à ideia de tramar contra ele, pois é assim que o invejoso age.

Fernand Mondego é outro tipo de pessoa muito comum: uma pessoa simples, mas cuja luta não é para si. Diferentemente de Dantès, que faz o bem por se sentir bem, que luta para melhorar a vida do outro, Fernand luta pela aceitação. Um simples pescador, trabalhador honesto, mas que, quando encontra um amor não correspondido, um amor não compartilhado, não sabe lidar com as próprias frustrações a não ser causando sofrimento àqueles que julga culpados por elas terem sequer começado. Fernand ama Mercedes, mas não consegue em hipótese alguma vislumbrar uma vida sem ela. Chantagem emocional, ameaças, tudo parece em vão. E quando não assumimos a culpa de nossos próprios problemas, tendemos a ser como eles: rasos, desinteressantes — não porque não queremos fazer o certo, pois fazer o certo também é árduo, mas porque parte do crescimento pessoal vem do reconhecimento das partes de nós que são pequenas. Fernand entende isso, mas de uma maneira deturpada, pois, diferentemente de Dantès, o homem de propósito — e a pessoa com propósito atrai vida —, ele não tem nada, ele não luta por nada.

O livro dedica boas páginas a essa maracutaia ardilosa acontecendo bem debaixo do nariz de Dantès. Um tirano recém-exilado faz com que a monarquia francesa julgue como gravíssimo qualquer indivíduo acusado de bonapartismo, ou seja, qualquer trama relacionada à possibilidade da volta de Napoleão Bonaparte ao poder. Dantès nada mais é do que uma vítima que se vê no meio de um estratagema tão laborioso que somente um gênio poderia desvendar. Danglars então forja uma acusação digna de nota, usando de persuasão e perspicácia como nenhum outro. Mas, para que isso se concretizasse, a sorte também tende a testar o homem bom. O promotor que julga o caso de Dantès é nosso último tipo de pessoa e o caso mais triste: Gérard de Villefort é a lei. Ele representa a luta de um homem pelo que é certo, na busca de transformar o passado errático de sua família em um futuro nobre, um homem cujo propósito é claro. Mas, quando fazer o certo põe em risco a honra de seu nome e de suas regalias, Villefort vê que, para provar a inocência de Dantès, deveria assumir a culpa que seu pai teve nesta última trama bonapartista.

Dantès então tem o dia mais feliz de sua vida interrompido quando, no meio de seu casamento, é preso e conduzido a julgamento. Seu julgamento ocorre de tal modo que palavras não são suficientes para descrever tamanha injustiça: pena de prisão perpétua. Condenado injustamente a passar o resto da vida no Château d'If, Dantès atinge o fundo do poço. Ele espera com fé que algo seja feito, que algum cidadão de bem ou até mesmo o senhor Morel pudesse ajudá-lo a arranjar um julgamento justo, mas o destino parece implacável para ele. Dantès perde o pai, que adoece após saber de sua prisão e morre tendo que aceitar seu filho como criminoso; e Mercedes, a mulher de sua vida, cai num luto tamanho que simplesmente desiste de amar, entregando-se àquele que tanto a desejara. Dantès decide que viver não vale mais a pena. No seu pior momento, pergunta-se por quê, e a única forma de acabar com a dor acaba sendo por uma greve de fome.

Mas, quando tudo parece perdido, um barulho perturba uma parede ao lado de sua cela. Ali está, ao meu ver, o melhor mentor da literatura mundial, ou melhor, da ficção mundial — sim, melhor que Obi-Wan, Gandalf, Kakashi, entre muitas outras figuras emblemáticas que nas narrativas atuam como mestres para ajudar os protagonistas a evoluir: o Abade Faria. Faria é um padre cujas ideias foram fogosas demais para a igreja aceitar, mas cuja fé permanece inabalável e cuja inteligência é digna de um gênio. Faria não somente estava forjando, através de um túnel, uma saída para fora dali, como dependeria de Dantès para conseguir escapar da ilha, visto que as águas ao redor do castelo eram turbulentas demais para um senhor de idade. Dantès compartilha sua história, e o padre revela habilmente, por meio de dedução, o que lhe aconteceu. Dantès não vê como poderia agradecer ao padre e pede para que ele lhe ensine tudo o que sabe, e o padre o faz: línguas, matemática, história, filosofia. Dantès aprende tudo o que pode, e juntos eles se tornam amigos — mais que amigos, pai e filho.

O Abade Faria compartilha com Dantès um tesouro escondido capaz de mudar completamente suas vidas, mas não espera poder aproveitar o dinheiro, pois uma doença terrível ameaça tomar sua vida. É aí que a bondade inabalável do padre vem à tona: o túnel que estavam cavando dava saída justamente para um lugar em que havia um guarda, e o padre desiste de anos de trabalho simplesmente por se recusar a tirar a vida de um homem. Mas tudo acontece rápido demais. Em um dos últimos ataques de sua doença, pupilo e mestre se despedem, mas Dantès enxerga ali uma oportunidade mortal, pois, para se ver livre, ele precisa se fingir de morto. Remove o corpo de Faria de sua cela escondendo-o, preenche com feno o próprio cobertor para que pensem que está dormindo e aguarda dentro da saca mortuária.

O capítulo 20 de *O Conde de Monte Cristo*, intitulado "A Caverna", é também para mim o melhor capítulo da literatura mundial. Fingindo-se de morto numa saca frágil, carregado por guardas numa noite tempestuosa para ser arremessado em mar aberto nas encostas pedregosas de um castelo tenebroso, sem saber se vai sobreviver, finalmente seu grito de desespero ecoa à medida que mergulha para a escuridão. Dantès nada à procura da liberdade e se vê numa ilhota à espera de um navio para ajudá-lo. Pessoano, capitão de um navio de comércio, o resgata, e ali ele inicia sua empreitada na busca do tesouro perdido. Dantès é um homem mudado: safo, malicioso, mas acima de tudo meticuloso. Ele encontra o tesouro do amigo, e sua primeira ação é justamente auxiliar a família de seu querido antigo empregador, que se encontra na miséria por conta da chacota que sofreram por terem participado de um escândalo como aquele.

Dantès está fisicamente irreconhecível — magro, pálido, fortuito, mas quase que vampiresco. Ele age na surdina para ajudar a família quando descobre por si mesmo como foram os dias em que estava preso, quitando a dívida daquela gente. Como um auxiliar de um suposto Conde de Monte Cristo, Dantès age no último ato de bondade. O restante de sua jornada é puramente voltada para a vingança. Como homem rico, compra uma escrava que um dia fora uma princesa e faz seu próprio legado através dos filhos de seus antagonistas — que não são necessariamente pessoas ruins, mas com quem Dantès se aproxima daqueles que causaram sua tragédia.

O livro é gigante, e não cabe a mim descrever a maneira como a vingança decorre; por isso, fica a recomendação para que vocês leiam a obra por si mesmos, vale a pena. Agora, continuando, a questão é que, por mais poderosos que fossem — cada um mais poderoso que o outro —, eles ainda assim, os antagonistas, não conseguem equiparar sua sabedoria à do conde. E Dantès usa isso a seu favor, embrenhando-se na alta sociedade para revelar sadicamente quem ele era, no momento em que seus adversários, sem propósito, que nunca mudaram e que continuavam mesquinhos, encontravam a si mesmos no fundo do poço. Dantès tinha tudo para se tornar um vilão, uma pessoa tão mesquinha quanto eles próprios; em determinado momento, chega-se perto disso, mas o princípio sempre está lá. E quando aquele que o humilhara e julgara injustamente é ele próprio humilhado em público com a verdade, e quando o nome de Dantès e sua dignidade são restabelecidos, ele se vê arrependido com seu último ato de vingança, que gera loucura no homem que se vê perdido, insano, atormentado por fantasmas do passado.

Aqui o livro traz uma última e valorosa lição: esse estratagema acaba arrastando para um jogo ardiloso e mortal Maximilian, filho de seu antigo empregador, um homem que se assemelha muito a Dantès. A mulher de sua vida, que também o ama, não somente é prometida a outro contra a vontade, como acaba por ser supostamente envenenada de maneira mortal. Dantès, safo e sagaz, descobre uma maneira de livrar o casal de seus deveres para com famílias mesquinhas e interesseiras, mas precisa que Maximilian confie nele para que, através de uma suposta cerimônia fúnebre, transporte a menina para um lugar distante, fazendo com que ela e seu amado possam ter a vida que tanto sonharam. Maximilian se entrega de corpo e alma a Dantès, que o presenteia com a presença de sua amada no momento em que justamente decidira tirar sua vida.

Apesar de a narrativa ser exagerada e de certa forma romantizar o sofrimento do personagem, ela faz algo muito importante: a história não invalida o sofrimento deles. Dantès entende que ser bom não evita o sofrimento, pois isso seria uma tarefa impossível, e nós não deveríamos levar isso para as nossas vidas. Contudo, ser bom não é invalidar o sofrimento, mas sim usá-lo como exercício de empatia — o mesmo exercício que lhe permite agora fazer o bem. Dantès finalmente retoma o controle de sua vida, de sua felicidade, quando entende — e faz Maximilian entender — que a busca por coisas mesquinhas torna a vida pequena. Ele poderia simplesmente ter contado a Maximilian que sua amada estava bem, mas ele compreende que o sofrimento também é uma fonte de sabedoria, e que é no sofrimento que aquele que faz o bem, aquele que é bom, faz-se valer. Dantès, diferentemente dos vilões da narrativa, não força isso de maneira ativa para com os outros; ele não busca causar o sofrimento naquela ocasião, mas entende que só é quem é porque um dia precisou olhar para si mesmo num momento de fragilidade, refletir sobre quem era, encarar a si mesmo e o valor de ser feliz.

Nos últimos parágrafos, Maximilian então lê o adeus de Dantès para ele mesmo, para o casal e para nós mesmos, numa passagem emblemática que torna esse momento memorável: "É preciso ter querido morrer, Maximilian, para saber como é bom viver".