O segundo conto começa com uma transição mostrando Geralt terminando seu tratamento em Ellander, precisamente no Templo de Melitele. É nesse prefácio que são mencionados pela primeira vez os nomes de Yennefer e Jaskier. Para quem não os conhece, são dois personagens muito importantes em toda a saga. Outro personagem importante é Nenneke, a sacerdotisa responsável pelo templo, que ajuda no tratamento de Geralt e toca em um tema recorrente — senão principal — em todo o enredo de *The Witcher*: o destino.
Ao que tudo indica, Geralt tem também um interesse romântico por uma jovem chamada Iola, que secretamente o visitava nas noites passadas no templo. Iola é uma garota que fez voto de silêncio para aprimorar seus dons de premonição. Nenneke quer usar os dons dela para prescrutar o destino de Geralt, que reluta por não acreditar muito nesses dons e tampouco nessa conversa de destino. Não sabemos exatamente o que acontece nessa sessão de transe e premonição, pois, logo depois disso, Geralt encontra-se caminhando na estrada.
Ele nota sinais de problemas ao perceber que aves carniceiras sobrevoam um local à frente. Sua égua, PLOTKA, está tão incomodada que ele precisa controlá-la com o sinal Aard — e esse é um detalhe importantíssimo, então preste atenção. Decidem pegar um atalho para investigar sorrateiramente pela mata adentro e acabam encontrando um suposto casal assassinado. Geralt nota que uma das pessoas teve parte da cabeça arrancada por uma mordida, mas o mais estranho é que os corpos foram deixados intactos para os lobos e abutres, algo que um predador comum não teria feito. Outro detalhe importante é que, junto com a mulher morta, Geralt encontra uma rosa azul, e com o homem morto, uma carta de crédito.
Desconfiado de que aquilo seja obra de um ser perigoso, um monstro, ele continua seguindo pistas até se deparar com um muro no meio da floresta. Repara que a vegetação tomou conta da estrutura, misturando-a à mata ao redor, num sinal de aparente abandono. Repentinamente, suspeita que está sendo observado e, quando se vira, vê algo assustador: uma mulher de branco no meio da floresta.
Geralt é corajoso e já viu muita coisa assustadora ao vivo, então tenta ir atrás dela, mas a criatura foge. A égua fica novamente incontrolável, fazendo com que o bruxo continue entoando o sinal Aard para mantê-la calmo. Geralt acaba parando no portão de um palacete. Ele entra, vê um pátio murado e nota algo peculiar: rosas azulzinhas, iguais à que encontrou com a moça. Quando vai cheirar a rosa, um monstro sai da casa e o ataca.
Com a habilidade de um ninja, ele saca a espada rapidamente e faz com que a criatura recue. Para surpresa do bruxo, a fera estava com trajes finos, apesar de gastos, e sabia falar. Geralt conta que apareceu ali por engano, e o bicho insiste para que ele vá embora, mas o bruxo é curioso e pede para poder comer e beber, afinal, ele e sua égua estão necessitados pela viagem. A criatura se espanta por Geralt não esboçar medo e aceita o convite, mas o alerta de que a casa o serve e que, a qualquer sinal de traição, o mataria.
Dentro da casa, Geralt percebe que não há mais ninguém trabalhando, o que é confirmado pela criatura, que se apresenta como Nivellen. Ele fica curioso quanto ao medalhão que Geralt usa e diz que é a insígnia de sua corporação. A conversa, em suma, resume-se a provocações e revelações. Geralt é sutil e preciso nas palavras; o interessante é que ele não esconde que é um bruxo que caça monstros, mas, para surpresa de Nivellen, o bruxo não o considera um monstro, o que alivia as suspeitas da fera de que alguém o havia contratado para dar fim ao monstro do palacete.
Nivellen fala dos bruxos pela primeira vez, mencionando que eles submetem crianças a experimentos químicos com injeções de ervas e poções para torná-las mutantes. Geralt retruca dizendo que muita coisa disso é balela. Como bem sabemos — ou não, se você caiu de gaiato nesse vídeo —, as únicas mentiras que Nivellen conta é que os bruxos raptam crianças e que existem muitos bruxos por aí; do resto, é tudo verdade.
Nivellen nem sempre foi uma fera; ele era um homem comum, mas, há 12 anos, foi enfeitiçado. Seria esse o segundo caso de desenfeitiço seguido? O primeiro foi o da estige (se você não viu, depois assista ao primeiro conto; aliás, aproveite e se inscreva para acompanhar toda a saga). Para surpresa de Geralt, ao oferecer tentar o desenfeitiço, Nivellen recusa. A criatura também é esperta e nota que Geralt tem habilidades sobre-humanas, como enxergar com pouca luminosidade. O monstro transita entre desconfiança e credulidade em relação a Geralt, até que aceita que dá para confiar nele e conta-lhe sua história.
Ele relata que a região é inóspita não por acaso: por muito tempo, seu avô viveu saqueando os arredores e juntando riquezas. Depois, seu pai continuou o legado, cobrando tributos e incendiando aqueles que se atrasavam ou faltavam com a prestação de vassalagem. O avô de Nivellen tomou uma pancada forte na cabeça e ficou zureta; já o pai morreu partido por um montante — um espadão de duas mãos —, e Nivellen assumiu a chefia da maldade. Ele era jovem e foi logo engabelado por uma gangue que o levou a saquear um templo.
Mas o pior não foi isso. Nivellen, que era virgem na época, foi influenciado a violentar uma jovem sacerdotisa de lá. O fato é que a moça, enquanto vitimada por aquele ato tétrico, proferiu insultos e uma maldição, tirou um punhal escondido e se matou. Atente-se às palavras da moça, segundo Nivellen: ele era um monstro em pele humana e seria um monstro na pele de um monstro, algo sobre amor e sangue.
Certo é que, depois de alguns dias, ele amanheceu todo peludo, com dentes enormes. Todo mundo no casarão, inclusive a gangue, entrou em desespero: uns queriam matá-lo, outros fugiram de imediato. Os que se aventuraram a feri-lo foram mortos. Nivellen descobriu que estava poderoso; os sobreviventes fugiram depois de ver a fera em ação, principalmente com a ajuda sobrenatural da casa, que fechava portas e janelas e arremessava pratos.
Assim, ele ficou abandonado, e ninguém nunca mais voltou. No início ele estava triste, mas depois se acostumou e queria ter a chance de explicar que ainda era ele mesmo por baixo da aparência assustadora. No entanto, não parecia que aquela seria a ocasião, pois ele era amedrontador e acabou se isolando, afastando quem por acaso se aventurasse na propriedade.
Porém, um dia, deparou-se com um gordão — são as palavras do livro, ok? — colhendo as famosas rosas azuis. Nivellen partiu para cima para afastá-lo, mas o homem ficou firme e, depois de recuperar a cor, disse que queria pegar flores para sua filhinha. Só que Nivellen se lembrava das histórias de contos de fada sobre o desencanto de uma maldição pelo beijo de uma donzela, e pensou se havia um grão de veracidade nisso. Com isso em mente, urrou uma ameaça contra a vida da filha, mas logo descobriu que a menina só tinha oito anos. Percebendo a cagada que fez, convidou o homem para tomar café no palacete e, para aliviar sua culpa, ainda lhe deu uma sacola de moedas e pedras preciosas antes de deixá-lo partir.
Isso deve ter virado uma lenda, e não demorou para aparecer outro comerciante oferecendo a filha em troca de riquezas. Ficou combinado dela passar um ano com a fera. Nivellen abasteceu o homem com riquezas que para ele não tinham nenhuma utilidade. A menina, de início, quase morria só de ver aquela belezura, mas depois se acostumou; eles passeavam e conversavam, e não passou disso mesmo, porque Nivellen revela que nunca soube conversar com mulheres — era o típico nerdão que trava perto de uma garota, ainda mais com a aparência zoada que adquirira. Confiança zero. Passou um ano, a moça foi embora, e Nivellen finalmente sentiu a solidão. Que tristeza.
Depois veio outra garota, e essa já não tinha medo de Nivellen, sendo bem faladeira para compensar o panguão que ele era. Com essa, o trem foi ttainha, vinho e muito sexo. Só que, quando acabou, ele ficou todo esperançoso, achando que tinha sido desenfeitiçado, mas nada aconteceu. A menina, que se chamava Fenne, o consolou; ela era super alegre e divertida, e eles brincavam de assustar os outros — ela subia nua em suas costas e eles partiam para apavorar transeuntes. Mas, depois do tempo estipulado, Fenne foi embora cheia da grana e seguiu sua vida, casando-se com outro homem.
Depois dela foi Prímula, a filha de um endividado e horroroso cavaleiro errante. Essa era chegada na ação; em duas semanas já eram bem íntimos e ela também não tinha medo de Nivellen. Ele ainda olhava no espelho para ver se voltaria ao normal, mas a ideia de voltar ao normal foi ficando cada vez menos tentativa se comparada ao que ele era antes: um moleque rechonchudo, doente e com dente podre. Agora ele estava bem melhor.
Cansado de falar, Nivellen decide resumir, contando que depois tiveram mais duas meninas, vivendo sempre o mesmo ciclo: medo inicial, um pouco de intimidade, safadeza e despedida. Ele já havia abandonado a ideia de voltar ao normal, e nem queria mais. Estava decidido a permanecer assim mesmo, até porque não conseguiria se defender dos inimigos de seus ascendentes e porque, notavelmente, sua fortuna estava se dilapidando.
Mas Geralt questiona essa segurança de Nivellen, essa ideia de que estava tudo bem. Será que ele não tinha feito algum mal a esses pais ou namorados das meninas que ficavam com ele? Óbvio que temos que lembrar das pessoas que ele encontrou na estrada no início deste conto. Nivellen contesta com veemência: afinal, os pais ficavam extremamente alegres com a fortuna que adquiriam, e as filhas, que tinham vidas sofridas, passavam a viver como princesas, além das façanhas íntimas que ele agora era capaz de desempenhar. Ele garante que não forçou nenhuma das mulheres e insiste no fato de não ter causado mal algum.
Contudo, o sagaz Geralt questiona: então por que a fera suspeitou que alguém tivesse contratado o bruxo para matá-lo? A resposta é simples e óbvia: não era mais segredo que existiam riquezas no subsolo, e nem todo pai estava disposto a prostituir a filha para se enriquecer — tampouco todo mundo tinha filhas. Portanto, muita gente poderia ter contratado o bruxo. Geralt então arrisca mais um pouco e pergunta se estão sozinhos. Sabendo da resposta, Nivellen percebe que o bruxo já entendeu tudo, afinal, reparou que ele escrutava cada canto, as janelas e as portas, procurando alguém.
Nivellen se irrita e confirma que não está sozinho. A moça que Geralt viu parecendo uma assombração era a companhia da fera, e a razão pela qual os comerciantes e suas filhas saíam de mãos abanando — como aquele suposto casal do início, que agora provavelmente sabemos que era um pai e sua filha. Mas Nivellen não quer mais conversa a esse respeito, e Geralt nota isso, prontificando-se a ir embora. Nivellen apoia a ideia e adverte sobre o perigo dos bosques durante a noite, sugerindo que ele se apresse para chegar à estrada.
Geralt ainda insiste em oferecer ajuda, mas Nivellen pensa que ele está falando sobre o desenfeitiço e desdenha das habilidades do bruxo. Se fosse o caso, o bruxo nem tenta esconder que isso está além de suas capacidades e revela a razão: o templo que eles atacaram era de Corram Atta Læth, a aranha com cabeça de leão, e eram necessárias habilidades especiais que ele não possuía.
Nivellen mostra-se curioso sobre essa possibilidade, o que desperta uma nova desconfiança em Geralt — afinal, ele não está satisfeito sendo um monstrão suspeito. Nivellen está pensativo e aparentemente temeroso, mas a curiosidade de Geralt irrita o monstro, que exige uma resposta direta se realmente tem motivos para temer. Geralt faz algumas perguntas e afirma friamente que Nivellen tem sim razão para temer: o monstro andava tendo pesadelos terríveis, e isso acontecia por um motivo. Como Nivellen exige uma resposta rápida, Geralt diz simplesmente que não há o que fazer, e então Nivellen decide acompanhá-lo até o portão.
Ao afivelar Plotka para seguir viagem, o bruxo vê que a égua foi gentil ao aceitar o carinho do monstro. Ao revelar que tem boas relações com animais, Nivellen acaba deixando escapar que Vereena também gosta de animais, mas de aves. Então esse é o nome de sua companheira? Geralt questiona se ele sabe se tratar de uma ondina. Nivellen diz que sempre desconfiou: ela não fala a língua dele, não come nada, some por dias e gosta muito pouco da companhia de humanos. Ondinas são uma espécie de belas fadas aquáticas extremamente pálidas, e Vereena se encaixava na descrição. Nivellen, que agora se considerava um homem maduro no amor, parece estar apaixonado por essa criatura, e não há mais o que fazer.
Geralt então parte, mas antes de ir, Nivellen pede que, se as coisas saíssem do controle, ele voltasse para fazer o trabalho de bruxo. Geralt seguiu viagem para ir à estrada, mas não conseguiu chegar a tempo, por isso passou a noite na floresta.
Atento pela manhã, enquanto a égua bebia água, ela recuou diante de um punhado de cogumelos. Aquilo parecia fruto de algo sobrenatural, e a égua ficou incontrolável, precisando que Geralt a dominasse com o sinal Aard. É aí que cai a ficha. O livro faz supor que você entendeu e ainda explica levemente, mas eu vou facilitar ainda mais: lembra que, no início, Plotka ficou extremamente incomodada quando viu a garota na floresta? Pois bem. Geralt se lembrou de como Plotka se comportou amistosamente com Nivellen — afinal, ele não era um risco real. Se a garota fosse mesmo uma ondina, Plotka teria se comportado de maneira semelhante, mas não: a criatura era algo sobrenatural e perigoso. O bruxo decide voltar rapidão.
Quando chega à mansão, já munido da espada de prata, aquela garota com pinta de fantasma está cantando, montada numa estátua. Eu estou sentindo uma treta! Apesar do som em língua desconhecida pelo bruxo, os lábios dela permanentes cerrados. Geralt questiona o que a criatura é, já que não é mesmo uma ondina, e quando ele descobre que é uma lâmia, a porrada come solta.
A criatura o atinge com uma rajada sônica de seu repulsivo grito. Geralt tem como defesa o sinal Heliotrópico, uma espécie de contrafeitiço para amenizar os efeitos do ataque arcano da criatura. Mesmo assim, é arremessado longe, tempo suficiente para que a lâmia abandonasse a aparência inofensiva e adquirisse um aspecto mais bestial, semelhante a um grande e negro morcego. De vez em quando, ele precisa usar o sinal Quen, uma proteção contra as investidas.
Por mais que se esforçasse e fosse criativo, a criatura era muito rápida e letal. Geralt está diante de uma séria ameaça, mas finalmente consegue atingi-la, fazendo-a recuar até a estátua e metamorfoseando-se novamente na aparência feminina. Ele a provoca, e ela fala sem mover os lábios — na mente de Geralt, em língua inteligível — que o mataria. É nessa hora que Nivellen, com o colarinho ensanguentado, aparece gritando por ela.
Geralt aproveita a distração, mas é atingido por uma onda sonora que o faz desabar sem fôlego. A lâmia salta sobre ele para matá-lo, mas interrompe o ataque devido à intervenção de Nivellen, que investiu contra ela. A fera é arremessada contra um andaime de madeira, ficando soterrada por tábuas. Nisso, Geralt já havia se levantado e voltavam a digladiar. O bruxo percebe que a criatura está apresentando sinais de cansaço, mas ainda é letal.
Contudo, outro descuido e um cálculo errado de movimentos fazem a criatura atingi-lo com uma potente onda sonora, deixando-o desnorteado e à mercê de um golpe fatal. Mas o berro de Nivellen interrompe a cena, e antes que Vereena pudesse perceber, foi trespassada por uma estaca enorme.
Eles ficaram assim por um tempo, até que a criatura começa bizarramente a se arrastar pela haste em direção a Nivellen, que mantém firme a estaca. Geralt ouve em sua mente a mensagem que dá a entender que, se Nivellen não fosse dela, não seria de mais ninguém. Nivellen não resiste à investida da lâmia, mas antes que ela pudesse matá-lo, o bruxo fez o que sabe fazer de melhor: com movimentos rápidos e calculados, corta-lhe a cabeça.
O sangue dela é derramado sobre Nivellen, que desaba após o ocorrido. Quando dá conta de si, percebe que a maldição se foi. O homem fica abobalhado, sem entender, e o bruxo lembra das palavras da sacerdotisa: amor e sangue estão intimamente ligados àquela maldição. Eles vão até Plotka e pegam o alforge para se medicarem. Nivellen não mentiu: a lâmia realmente o amava, pois só o sangue do amor verdadeiro teria o efeito desenfeitiçante, mas ela também o usava para garantir seu domínio na região. E, saindo dali, encerrou-se o segundo conto da saga do bruxo Geralt de Rivia. Até a próxima!