Enquanto aragens de verão, entre as flores
Da margem tingida de Vulpes, brincam à toa,
E de prados austrais remotos, os estranhos olores
De terras desconhecidas uma exótica força ecoa,
Sobre o barranco, sob a sombra de um salgueiro,
Pensa, cada meio-dia, uma bela donzela em desveiro.
Ninfa tão justa jamais foi vista outra vez;
Vênus se oculta, a comparação evitando;
A multidão rural seus mil encantos tez,
E por cada Fauno o êxtase vai se espalhando:
As gentis Náiades de seus covis espreitam,
Para imitar suas graças enquanto adormecem e se ajeitam.
Contudo, esta santa donzela, a quem Myrrha os mortais chamam,
Uma bênção lhe falta, e pranteia com dor;
Pois o jovem pastor, a quem seu coração ama,
Mantém-se frio e distante, acanhado e com temor:
Aquela beleza que aos seus pés o devia traer,
Cega-lhe o olhar, e o faz recuar de pavor!
O próprio Narciso não guardou tal frieza
Do que o amável Strephon, o mais tenro rapaz;
Muitas Eco, sozinhas e sem firmeza,
Em vão imploram partilhar seus gozos de paz:
Mas o belo mancebo as ignora ao rezar,
E, assustado por suas preces, põe-se a correr e escapar.
Um instante ele sorriu à loura Myrrha —
Um favor a nenhuma outra donzela dado —
Como se, por tal graça incomum, se permitira
Conceder ao portador o céu num vislumbre alado;
E sem dúvida a doce Myrrha seu melhor amor merecia,
Pois ambos na beleza tanta afinidade possuía!
Mas quando a ninfa tentou detê-lo ao partir,
E falou de passeios num bosque distante,
A face do rapaz, como a Aurora a rutilir,
Mostrava sua inexperiência de amante:
Muito arisco ele era, sem desejar aprender
As dúvidas e as dores que o amor faz sofrer.
“Por que me seguras?” com alarme ele briga;
“Queres roubar meu coração por mero gracejo?
Queres acorrentar meu espírito na tua azuliga,
Para me deixar só, sem amor, sem festejo?
Temo tua bondade, ó ninfa, pois com teu orgulho e fastio
Conquistas tantos, só para os lançar no vazio!”
Em vão Myrrha jura seu amor constante,
E invoca Eros para testemunhar sua voz;
Sua prece em prantos a Strephon é desvalia e errante,
Ele que ouviu tanto de outros pastores feroz:
De Egon, de Lycidas e de Polydore,
A quem Myrrha um dia amou, mas não ama agora.
Assim Myrrha, penando pelo pastor acanhado
De cujo carinho a privam chamas do pretérito,
Fica só na planície onde o viço é florido e amado,
Fulgente de beleza, mas no amor vencido e estéril;
E enquanto suspira às Náiades na campina,
Lhes pede que trilhem a senda que a constância ensina!