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Laranja Mecânica é puro suco de distopia ••• Rayhan Chamoun

Laranja Mecânica é puro suco de distopia • Rayhan Chamoun

Apesar de ser amplamente conhecido por suas análises detalhadas da obra de H. P. Lovecraft, o autor do canal explora neste vídeo um gênero literário diferente ao debater um dos maiores clássicos da ficção científica e da distopia. A partir de uma leitura recente e genuína, ele examina as particularidades, os temas profundos e as polêmicas de *Laranja Mecânica*, comparando o livro à famosa adaptação cinematográfica de Stanley Kubrick.

No vídeo de hoje, trago uma temática um pouco diferente daquela que costumo abordar. Para quem não me conhece, sou o Rayhan, mas sou mais conhecido aqui justamente pela minha playlist onde analiso todos os pontos da obra de Lovecraft por ordem de apreço pessoal. No entanto, decidi fugir um pouco dessa temática porque não consumo somente Lovecraft; como vocês podem ver aqui atrás da minha estante, eu consumo outras formas, outros livros, outros gêneros. Mais especificamente, as minhas áreas de consumo maior — o gênero que consumo mais — são a fantasia, o horror e a ficção científica. Consequentemente, acabo deixando de lado algumas obras sobre as quais eu poderia fazer vídeo, e acabo perdendo essa oportunidade de comentar com vocês. Acho que algumas obras valem muito a pena, então este vídeo é mais experimental. Espero que vocês gostem e também tragam sugestões sobre se devo continuar com esse tipo de conteúdo ou não. Enquanto faço a playlist de Lovecraft, acabo consumindo outros conteúdos justamente pela minha vida como leitor, pois procuro sempre diversificar o consumo das obras justamente para sair da minha zona de conforto e um pouco daquilo a que estamos acostumados, apesar de me manter nesses três gêneros principais.

Eu já li alguns livros de ficção científica e gosto muito da temática de distopia, onde geralmente temos um futuro que, apesar de avançado do ponto de vista tecnológico, é muito desigual do ponto de vista social, ou então conseguimos enxergar outros problemas que são abordados dependendo do tipo de obra. Eu já tinha lido *Fahrenheit 451*, de Ray Bradbury, *Admirável Mundo Novo*, de Aldous Huxley, e *Nós*, de Evgeny Zamyatin. Ainda me falta ler *1984*, de George Orwell, que seria minha próxima leitura, porém este livro aqui, *Laranja Mecânica*, de Anthony Burgess, entrou na frente. O modo como leio é muito genuíno; não fico fazendo listas TBR, não sou desse tipo de leitor, sigo a minha própria vibe. Eu já tinha assistido ao filme homônimo de Stanley Kubrick, que é um filmaço por sinal, mas fazia muito tempo e eu queria saber como o Stanley Kubrick adaptou a obra. A melhor maneira de conferir a adaptação é consumir o trabalho original.

O que é interessante em *Laranja Mecânica* — antes de entrar propriamente na história —, para quem não sabe, é que eu li na edição da Aleph, uma edição muito bem traduzida por sinal, com tradução do Fábio Fernandes. O que me fez ler este livro é que *Laranja Mecânica* é um livro de distopia que foi adaptado pelo Stanley Kubrick, só que na edição americana publicada originalmente — ou melhor, quando fizeram a edição americana de *Laranja Mecânica* —, eles suprimiram o último capítulo. Por isso, o filme de Stanley Kubrick também não tem a adaptação do último capítulo, já que o diretor não leu a versão com o conteúdo integral do autor, o que gerou um tom diferente para a obra. No filme, a gente tem uma pegada mais pessimista, com um desfecho mais pessimista, enquanto no livro nós temos uma discussão filosófica um pouco mais interessante e otimista para o final do texto.

Sobre o que se trata este livro? Acompanhamos a história de Alex, um adolescente que faz parte de uma gangue. Eles mesmos se chamam de *droogs*, e o autor utiliza diversos termos que ele mesmo criou para simular um pensamento tribal, uma espécie de jargão para identificar pessoas da mesma tribo. Temos uma série de termos que são uma junção do inglês com o russo — e, consequentemente, estamos inseridos em uma sociedade socialista aqui. Qual que é o lance da história? O livro tem três partes divididas em sete capítulos. Na primeira parte, vamos ver Alex junto com seu grupo de amigos, sendo eles os personagens mais odiosos que você pode imaginar. Eles cometem diversos crimes, desde espancamento e roubo até estupro, enfim, tudo o que há de pior. O líder, Alex, é o mais sádico do grupo todo, apesar de ser um personagem muito inteligente e, ironicamente, muito sensível. Ele tem um tato muito bom para a arte; a paixão dele, por exemplo, são as músicas clássicas, o que é algo do próprio Anthony Burgess, que também tem um histórico forte com a música clássica e transportou isso para o texto dele.

Na segunda parte, vamos ver as consequências das atitudes de Alex quando ele decide invadir a casa de uma senhora. Seu grupo o trai de certa forma, ele acaba sendo preso e é inserido em um sistema penitenciário muito decadente, não vendo a hora de sair de lá. Até que é oferecida a ele uma proposta: passar por um teste que chamam de Técnica Ludovico. Ele não tinha noção do que era, mas a proposta era que o criminoso nunca mais cometeria nenhum tipo de crime ao passar por esse teste. O processo — que depois descobrimos ser basicamente uma tortura — consiste em deixar o personagem preso a uma cadeira, com os olhos abertos por pinças, enquanto substâncias são colocadas sobre uma mesa e dosadas no criminoso à medida que ele assiste e ouve uma série de músicas e filmes que retratam cenas criminosas. Isso faz com que, somente ao pensar em qualquer atitude criminosa, o personagem entre em um estado de pânico, ânsia de vômito e passe muito mal. Isso afeta consequentemente qualquer atitude que ele tenha no que diz respeito a fazer mal a alguém.

A ideia do livro é discutir justamente a liberdade, porque chega uma hora que você para de odiar o Alex. Acho que todo mundo que começa a ler, apesar de o livro ter aquela carga pesada e gráfica ao mesmo tempo, percebe que ele tem um *q* de sátira muito forte. O personagem usa esses jargões de adolescente, mas também tem expressões que poderíamos chamar de shakespearianas, de literatura bem clássica mesmo. Então, ao mesmo tempo em que sentimos ódio por ele, à medida que o livro avança, não podemos deixar de sentir empatia pelo sofrimento que ele sente. Apesar de o próprio Alex tentar burlar o sistema — dizendo que aquilo é balela para ele e que não vai mudar a maneira como enxerga o mundo —, de fato a tortura tem efeito. Ele é liberado da prisão e vamos vendo as consequências disso.

Não vou dar spoiler do final do livro, pois recomendo que vocês leiam; é um livro relativamente curto, mas muito impactante. No terceiro ato, a obra vai abordar as consequências disso e discutir sobre o bem e o mal, e o quão inerentes eles são para nós enquanto humanos. O autor também discute bastante sobre a liberdade, o que é ser livre, o livre-arbítrio e o que é escolher seguir o bem ou o mal. Teremos várias discussões sobre igualdade social e diversos outros aspectos políticos que acho muito à frente do seu tempo. *Laranja Mecânica* consegue tratar de tudo isso de uma forma tragicômica, mas ao mesmo tempo brilhante, porque você consegue enxergar no Alex um pouco de si mesmo no que diz respeito à rebeldia contra um sistema que faz com que as pessoas fiquem estagnadas.

Por mais que você não goste da atitude de rebeldia dele, o sistema que nos é apresentado deixa nítido que as pessoas ao redor estão vivendo uma vida completamente medíocre, resumida a trabalhar para conseguir uma miséria de dinheiro, pagar as contas e seguir nesse ciclo monótono. Isso aflige muitos de nós que temos a percepção de pensar: "Será que minha vida vai se resumir a isso?". E quando a arte — já que a tortura incluía justamente ouvi a música de que ele tanto gostava — se torna algo que age de modo a denegrir a saúde física e mental do personagem, nós começamos a ter a noção de quão importante é a arte em nossas vidas, justamente para sairmos dessa mesmice e conseguirmos escapar dessa realidade que parece sórdida a princípio. Através de trabalhos como este, vemos que ela também reflete um pouco de nós mesmos por dentro, o que gera essa sensação de estranheza e bizarrice, mas ao mesmo tempo de admiração.

Não é um livro fácil de ser consumido, porque a narração é em primeira pessoa e o personagem utiliza termos muito complicados de pegar no início, mas pelo contexto você vai se acostumando. A narrativa segue de uma maneira muito interessante, como se fosse um adolescente narrando o texto para você, com diversos jargões e expressões que dão um tom irônico, mas abordando temas muito adultos. O final do livro é exatamente isso: acompanhamos o amadurecimento de Alex, que sai de um personagem odioso para alguém que se descobre enquanto adulto. É muito interessante.

Fica aqui a recomendação. Espero que vocês gostem desse tipo de vídeo, pois pretendo trazer mais obras de outros autores clássicos — tudo bem que já falei do H. P. Lovecraft, que é um autor clássico, mas um clássico que foge um pouco das temáticas mais usuais. Se vocês já leram *Laranja Mecânica*, por favor, deixem aí nos comentários o que acharam da obra e se já assistiram ao filme ou não. De qualquer forma, fica a recomendação para discutirmos amigavelmente sobre nossas opiniões. E se quiserem debater de forma mais aprofundada, temos o grupo do Telegram do Universo Antares; se tiverem dúvidas ou quiserem mais recomendações, posso passá-las por lá. É isso, espero que tenham gostado do vídeo e vejo vocês no próximo. Valeu!