Augusto não dorme e tampouco acorda; seus pés o arrastam pela casa. A inquietude tomou seus pensamentos nos últimos dias, levando-o a ocupar poucos cômodos desta: cozinha, banheiro e sala. Não trocava as roupas; alimentava-se aquém do que seu corpo exigia, o qual manifestava um formato cadavérico. Estava só: teto, chão e paredes.
Ele, no entanto, não era assim nos tempos pretéritos; tinha a vida ordenada, praticava diversas atividades, soltava o sorriso fácil. Mudou a postura quando recebeu o testamento de Sávio, seu irmão, com o qual não falava há anos. Era esquisito, tinha – conforme os parentes falavam – uma postura fora das convenções sociais. A título de exemplo, quando jovem, pegou três lagartixas de três espécies diferentes (Hemidactylus mabouia, Tropidurus torquatus e Phyllopezus pollicaris ) e as colocou em seu viveiro de vidro. Ele não queria tê-las como animais de estimação, mas observar a sua sociedade com o propósito de estudar, bem como replicar, o seu funcionamento. Foi, ao longo da vida, uma pessoa excêntrica; não poderia, para fins de paralelismo, deixar de ser na morte. A última bizarrice dele estava descrita no testamento, que Augusto lia e relia.
“Querido e único irmão, estou morto agora, mas minhas palavras falam por mim após a minha passagem. Sinto por ficarmos separados no espaço quando tínhamos a oportunidade de ocupá-lo juntos; saibas que eu não queria isso. Quero, e sei que você irá cumprir, que monte meu velório de acordo com as seguintes instruções: compre um caixão branco, grife as minhas iniciais na sua tampa, olhe a previsão do tempo e me vele e me enterre em um dia nublado; quero ser enterrado sob chuva – não se esqueça; deve usar as cadeiras, para os convidados, que estão guardadas no porão da Ana Flávia; informe-a sobre a minha morte – ela saberá o que fazer, pois a orientei. Confirme a numeração de cada uma das cadeiras, que está na perna traseira esquerda; ordena-as em cinco filas de seis no salão do necrotério. Siga, por favor, essas instruções, estás serão um marco para os vivos.”
Augusto desconhecia a causa da morte do seu irmão; desconfiava, pelo teor do testamento, que a loucura o levou. Não tinha como, é verdade, comprovar sua hipótese. Ainda que pretendesse prová-la, não conseguiria. Remoía-se com a ideia de cumprir essa loucura, como também não queria deixar de atender ao pedido de um falecido ao qual tinha apreço. A dialeticidade dos pensamentos pesava o homem; bifurcava a sua decisão quanto ao que fazer. A inatividade somente cessou quando a curiosidade cresceu, sufocando a angústia; começou, a partir disso, concretizar os desejos do irmão. Os dizeres deste ganharam potência no mundo. Resolveu, assim, levar a má nova à Ana Flávia.
Pegou o celular, deu-lhe a carga necessária para fazer a ligação; Ana Flávia lhe prestou condolências e informou seu endereço, bem como pediu-lhe para que viesse a sua residência. Não trocaram, durante a conversa, outras palavras além dessas. As pausas intermediaram o teor das mensagens. A ligação, com isso, durou 35 minutos: muito tempo; porém pouca fala para preenchê-los.
Augusto, ao achegar na casa de Ana, viu-a de longe, sentada no segundo degrau – de baixo para cima; seu rosto mostrava choro recente e o peso de ficar em casa. Ele se aproximou dela e trocou o cumprimento pelo gesto de apresentar-lhe o testamento; ela chorou e o abraçou.
Quando entrou na casa, viu retrato de Sávio por todos os lados. Em algumas fotos, estava sozinho; em outras, acompanhado de Ana. Viu as recordações do irmão e do casal. Uma, porém, chamou-lhe a atenção pelo modo como a qual foi tirada, seu irmão estava agachado ao lado de uma cadeira e apontava o indicador para a perna traseira esquerda desta. Além dessa postura bizarra, existia uma lagartixa, muito grande e com uma fitinha roxa na pata, trepada na referida perna da cadeira.
– As cadeiras estão nesse cômodo; o caminhão, que irá levá-las ao necrotério, chegara em instantes.
Augusto balançou a cabeça para Ana e se dirigiu ao cômodo. Acendeu a luz, começou a examinar a perna traseira esquerda de cada cadeira. Parou quando o pessoal do caminhão chegou.
No necrotério, posicionou todas as cadeiras de acordo com a numeração que constava na perna traseira esquerda; colocou-as na formação que o irmão exigiu. Eram numeradas de um a trinta. Sentou-se em uma daquelas para aguardar o caixão.
O funcionário da funerária, ao terminar os preparativos para o velório, entregou um bilhete ao Augusto, que o leu sob a fraca luz do sol que as nuvens encobria.
“Como estou feliz em saber que você não ignorou as minhas solicitações, meu irmão. Deixo o acesso da minha conta do instagram contigo. Para acessá-la, digite o nome de usuário, que são minhas iniciais grafadas no caixão, e a senha, que são os números das três primeiras cadeiras da primeira fila, bem como o número das duas cadeiras do meio da terceira fila e o número da última cadeira da penúltima fila. Veja o vídeo que postei.”
Augusto ficou confuso, mas continuou com o objetivo de atender às solicitações do irmão. Pegou, para isso, o seu celular e acessou a conta, a qual tinha apenas um vídeo postado há um mês e um seguidor apenas, era um tal de Eduardo. Clicou no vídeo.
“Ah! Nossa! Que coisa incrível! Nosso mundo mudou por causa da Doroteia; filma ela, Eduardo – Sávio aproximou a Lagartixa no celular; ela é da espécie Hemidactylus mabouia. Toda casa tem uma, não sei se todas são iguais à Doroteia, porque esta me ajudou na seguinte descoberta: as medidas não existem no mundo. Ela sempre me contava sobre isso, principalmente quando caçava, mas eu nunca observava. Veja bem, veja bem… o conhecimento ESTÁ OCULTO PARA QUEM NÃO OBSERVA! Estávamos eu e o Eduardo olhando para as paredes; Doroteia, de repente, apareceu. Ela estava, de maneira lenta – dava dois passos e parava -, atrás de uma varejeira; não fazia cálculo, porém sabia quantos passos são necessários para dar o bote. Preferiria, a correr atrás, ficar à espreita. ISSO É INCRÍVEL! NÉ, EDUARDO? Doroteia não estudou matemática, mas sabe distância – será em que medida? Medida não é distância, viu Eduardo; são coisas diferentes. Eduardo, vamos tirar uma foto; pegue, por gentiliza, uma das cadeiras que estão no sótão da Ana Flávia. Para que? – perguntou Eduardo. Vou colocar a Doroteia trepada na perna traseira esquerda de uma delas. Tire a foto logo, Eduardo; minha vó dizia que, quando aparece uma lagartixa, é sinal que vai chover.
Augusto foi o primeiro a curtir o vídeo; desligou, depois, o celular, sentou-se ao lado de Ana, que estava na quinta cadeira da terceira fileira. Trocaram olhares apenas; esta iniciou o choro, ao passo que aquele suspirou fundo. Somente os dois no necrotério: teto, chão e caixão. No entanto, alguém estava do lado de fora, parada, caminhando lentamente atrás de uma grande varejeira.
O funcionário da funerária se aproximou dos dois; avisou-lhes que a chuva começara e perguntou-lhes se havia um discurso. Ana balançou a face para os lados; Augusto, olhando para fora, disse-lhe: siga as lagartixas.
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