A habilidade única de Machado de Assis na construção de metáforas revela a genialidade de sua prosa, embora a obrigatoriedade curricular de seus livros nas escolas brasileiras muitas vezes acabe afastando os leitores. A qualidade de uma obra literária não depende do aproveitamento escolar, e a conexão com a leitura genuína é o que atrai leitores apaixonados. Contudo, a erudição clássica de Machado de Assis pode gerar uma dificuldade inicial de assimilação. A verdadeira beleza dessa erudição não está no uso de palavras complexas, mas sim no efeito arrebatador que causam. Enquanto bons autores fazem o leitor pensar, os geniais fazem com que o leitor reflita sem nem perceber, graças à extrema nuance dos tópicos abordados.
*Memórias Póstumas de Brás Cubas* é uma das grandes obras da literatura mundial justamente por dispensar um conflito concreto — afinal, o narrador é um defunto autor. É na ausência desse enredo tradicional que até os símbolos mais singelos ganham força e profundidade. A metáfora na literatura funciona como um choque anestesiante de significados, abrindo um leque imenso de possibilidades tanto para a ficção quanto para quem a consome. O Capítulo 31, intitulado "A borboleta preta", exemplifica perfeitamente essa maestria, surgindo em um momento de aparente inércia narrativa.
O capítulo inicia da seguinte forma: *"No dia seguinte, como eu estivesse a preparar-me para descer, entrou no meu quarto uma borboleta tão negra como a outra e muito maior do que ela"*. A construção sintática é peculiar, utilizando o adjunto adverbial de tempo e uma oração subordinada que geram uma expectativa quase mística, como se a consciência do narrador aguardasse por algo. O pronome possessivo "meu" em "no meu quarto" aproxima o evento do personagem, dando o tom de que aquilo lhe estava destinado. A borboleta carrega o predicativo "tão negra como a outra e muito maior do que ela", quebrando a oração e acumulando características para algo tão ínfimo.
O sentido metafórico da borboleta preta remete tradicionalmente a um presságio espiritual ou à morte, enquanto a cor preta evoca o luto. As linhas seguintes mostram que o inseto desperta lembranças em Brás Cubas, agindo como um microcosmos que reforça o tom da narrativa. A borboleta invade o espaço e logo pousa na testa do protagonista. Embora pareça um detalhe menor, a escolha de pousar justamente na mente do personagem cria uma contradição interessante entre o desconforto causado e a naturalidade com que o elemento se aproxima.
Após ser espantada com uma toalha, a borboleta vai parar na vidraça — uma tentativa frustrada de escapar de algo inafastável, como a própria morte. Em seguida, o inseto pousa sobre um retrato do pai de Brás Cubas. O autor intercala períodos longos com a frase "Era negra como a noite", reforçando um atributo já mencionado para conferir-lhe um novo sentido. O protagonista passa a enxergar no gesto brando da borboleta movendo as asas um "ar escarninho", como se o inseto estivesse zombando dele. A reação típica diante de um símbolo da mortalidade é a ignorância, mas Brás Cubas, ao retornar ao quarto e encontrar a borboleta ainda ali, cede ao incômodo e decide se livrar dela.
O texto prossegue: *"Não caiu morta ainda; torci o corpo e movi as farpinhas; apiedei-me, tomei-a na palma da mão e fui depô-la no peitoril da janela. Era tarde; a infeliz expirou dentro de alguns segundos. Fiquei um pouco aborrecido, incomodado"*. A incapacidade de matar o inseto no primeiro golpe já denota a mediania do personagem, mas o que se segue revela o reconhecimento do sofrimento alheio. Embora seja apenas uma borboleta, a essência humana reside justamente em ser capaz de tomar a dor do outro para si. Ao observá-la morrer, o aborrecimento de Brás Cubas se transforma em reflexão: *"Por que diabo não era ela azul?"*.
Essa reflexão introduz um discurso direto carregado de ironia. Se a borboleta fosse azul, o símbolo não seria mais o da mortalidade, e a reflexão serviria justamente para dissipar o aborrecimento do personagem e reconciliá-lo consigo mesmo. Brás Cubas subverte o significado do inseto ao inventar uma história em que a borboleta o enxerga como o "inventor das borboletas", dotado de uma estatura colossal, a quem deve beijar a testa por temor e reverência. O protagonista destaca o céu azul como sendo "sempre azul para todas as asas", o que evidencia o relativismo social e o preconceito de sua classe aristocrática, além de demonstrar a insignificância do universo diante das coisas da vida.
O desfecho do capítulo sela a aventura com um golpe de toalha: *"Não lhe valeu a imensidão azul, nem a alegria das flores, nem a pompa das folhas verdes; contra uma toalha de rosto, dois palmos de linho cru, vejam como é bom ser superior às borboletas"*. A mediocridade de Brás Cubas se reafirma no momento em que ele se gaba de poder causar a morte do inseto e se sente superior a ele. Se a borboleta fosse de uma cor mais aprazível, ele provavelmente a espetaria com um alfinete para o recesso dos olhos; como era preta, deu-lhe um piparote e a deixou para as formigas.
A beleza suprema do capítulo reside na ironia final: ao ver a borboleta no chão prestes a ser cercada pelas formigas, Brás Cubas projeta nela a sua própria condição e enxerga, ainda que tardiamente, a sua própria mediocridade, percebendo que vivos ou mortos, homem e borboleta não são tão diferentes assim. É com essa realização que o capítulo se encerra sabiamente: *"Não volta à primeira ideia; creio que para ela era melhor ter nascido azul"*.