Quando a literatura nacional explora os bastidores do esporte sob uma ótica crua e desglamourizada, o resultado costuma ser surpreendente, como aponta esta análise da obra de Milton Gustavo. O livro nos convida a mergulhar na trajetória agridoce de um atleta talentoso cujo destino parece inevitavelmente marcado pela frustração.
Vamos falar de mais um livro, dessa vez uma obra nacional. Estou com ele aqui na versão do Kindle, infelizmente não tenho a versão física, mas o que importa é o nome: *O Deus Oculto no Canto do Córner*, escrito por Milton Gustavo. É um livro muito bom, excelente, gostei pra caramba. A história se passa em torno do que poderia ser uma narrativa de superação, mas não é. É a história de um lutador de boxe, um cara extremamente talentoso, que nasceu para aquilo de acordo com o próprio narrador (que é seu treinador), mas que nunca chega lá. Ele nunca chega a desenvolver seu potencial total por diversos motivos, o que deixa margem para a interpretação de quem lê. Ele tinha tudo para ser o melhor de todos, mas nunca chega lá.
Por que você deveria ler este livro? É disso que se trata este canal: tentar mostrar por que você gostaria de ler uma obra, sem necessariamente esgotar todas as suas potências, embora a gente acabe falando um pouco disso também. *O Deus Oculto no Canto do Córner* exige um certo estado de espírito para ser bem lido, ou pelo menos para ser apreciado, porque é um livro muito ácido, rancoroso e cruel. É a história de um potencial perdido, o que traz um aspecto trágico muito forte. O narrador é extremamente irônico e sagaz, então a gente curte os comentários dele, apesar de toda a crueza.
A forma como ele descreve o personagem principal foge do estereótipo. A gente imagina que um boxeador seja um cara gigante, alto, forte, uma espécie de Hércules do mundo moderno. E ele até é tudo isso, mas é um homem muito feio, tosco, um brutamontes, um ogro. E é isso que torna o tom meio cruel em muitos momentos, tratados com uma ironia mordaz e muito pesada. Por exemplo, quando eles vão para as Olimpíadas, a forma como o narrador trata o evento — cheio de pompa, de nove horas, que todo o mundo respeita — é totalmente desconstruída por ele. Claro, existem algumas nuances e as observações são específicas, mas não é muito diferente da realidade narrada.
Fora esse ponto de vista pesado, ao final do livro fica-se com o entendimento de que a vida é isso mesmo, não há o que fazer em relação a isso. E o pior é que há também certas observações e ideias sobre o Brasil. A história se passa no país, em São Paulo. O narrador é um paulista nascido na Mooca, torcedor do Juventus — raridade, mas algo que deve ser respeitado. Toda essa ironia e crueldade se relacionam profundamente com o Brasil. A trama central se passa nos anos 90 e início dos anos 2000, mas o narrador conta tudo de um ponto de vista muito mais próximo de nós. No primeiro capítulo, há uma apresentação que vai lá atrás, nos anos 60 e 70, formando um arco de tempo gigantesco. Há uma relação muito forte conosco, brasileiros.
Por que é preciso estar em um certo estado de espírito? Porque o livro é meio cruel e deveria nos atingir de forma pesada, considerando a filosofia que está por baixo da narrativa. No entanto, o que chama muita atenção é que, apesar de tudo isso, o livro é muito divertido. Essa ironia sagaz e meio cruel do narrador é ótima, muito engraçada, e me arrancou gargalhadas fortes. Deixando de lado as questões mais duras que nos tocam como brasileiros, é uma obra extremamente divertida e muito bem escrita.
Li em alguma entrevista do Milton Gustavo que ele levou alguns anos escrevendo este livro — não lembro se chega a ser dez anos ou mais, mas o fato é que demandou bastante tempo. E o resultado desse trabalho todo é muito visível. É um livro com uma concisão impressionante. Ele é curto; na edição do Kindle dá mais ou menos duas horas de leitura. Os capítulos são curtos, há muitas divisões em poucas páginas, mas com muito conteúdo dentro. O primeiro capítulo é apenas a apresentação do narrador contando sobre sua vida e quem ele é. Em poucas páginas, cobrindo aquele arco gigantesco desde os anos 60, entendemos perfeitamente quem é esse personagem.
As descrições são excelentes. Não existem longos períodos maçantes ou fichas técnicas detalhando altura, peso e cor de cabelo. As coisas são descritas de formas diferentes; fulano chega com seu "jeito paquidérmico de andar", por exemplo. É isso que importa: observar a forma como as coisas são escritas e descritas. Tudo vai se conectando e sendo guiado sem barrigas, sem aquela gordura que atrapalha a leitura. É tudo muito bem concatenado, uma coisa se segue à outra de forma natural. Quando você percebe, já passaram duas horas, o livro está terminando e você atravessou décadas na vida daqueles personagens, tendo uma ideia perfeita de quem eles realmente são.
Milton Gustavo, você está de parabéns. Eu chamaria esta obra de um clássico moderno, porque é muito boa mesmo. Tem essa questão filosófica por trás que daria para discutir com mais paciência e preparo, mas não caberia neste vídeo. É um livro que deixa um gosto meio amargo na boca. Quando o li, por sorte, eu estava em um período meio abalado da minha vida, então estava propício para ler algo mais cruel, mais forte. Casou perfeitamente com a imagem de um livro sobre boxe. É isso: *O Deus Oculto no Canto do Córner*, leiam porque vale muito a pena. Forte abraço e até mais!