*Édipo Rei*, obra-prima do dramaturgo grego Sófocles, é considerada por Aristóteles em sua *Poética* a maior de todas as tragédias gregas. Contemporâneo de Ésquilo e o autor mais premiado nos concursos trágicos de Atenas, Sófocles constrói nesta peça uma narrativa exemplar sobre o destino, a culpa e a justiça divina, inserida no gênero que o crítico literário Northrop Frye classifica como tragédia de modo mimético alto.
A trama tem início em Tebas, cidade governada por Édipo, que se encontra assolada por uma grave crise e por uma peste enviada pelo deus Apolo. A população recorre ao soberano, lembrando que ele já havia salvado o reino anteriormente ao livrá-lo da extorsão imposta por uma esfinge. Em busca de soluções, Édipo revela que já havia enviado seu cunhado, Creonte, para consultar o oráculo de Delfos. Ao retornar, Creonte traz a resposta definitiva dos deuses: a peste só cessará quando a cidade for purificada da mancha de um crime não punido, especificamente o assassinato do antigo rei, Laios. Diante disso, Édipo assume o compromisso solene perante o povo de investigar implacavelmente o caso, declarando que o culpado será punido com a morte ou com o exílio perpétuo, e roga que a maldição recaia inclusive sobre si mesmo caso venha a abrigar o criminoso.
Para auxiliar nas investigações, convoca-se o profeta cego Tirésias. Inicialmente, o adivinho reluta em falar e pede para retornar para casa, alertando que a revelação trará desgraça tanto para Édipo quanto para ele próprio. Irritado com a recusa e com a firmeza do profeta, Édipo perde a paciência e o acusa de conspiração e cumplicidade no assassinato, sugerindo que ele e Creonte estariam tramando contra o seu trono. Pressionado pelas ofensas, Tirésias finalmente revela a verdade em um tom cortante: o próprio Édipo é o assassino que ele tanto procura.
O rei, cego pela fúria, rejeita a acusação e insulta a cegueira do profeta. Em resposta, Tirésias profetiza que Édipo, embora tenha olhos, é incapaz de enxergar a própria ruína, anunciando que ele terminará expulso da terra natal, amaldiçoado pelos próprios pais, e que será simultaneamente pai e irmão de seus filhos, além de filho e esposo da mesma mulher, tendo profanado o leito paterno após matar o próprio pai. Após essa revelação devastadora, Tirésias se retira.
Posteriormente, Creonte confronta Édipo devido às acusações públicas de conspiração, gerando um tenso debate político sobre autoridade e justiça, no qual o governante defende que a lei do Estado deve ser obedecida a qualquer custo, enquanto Creonte pondera que a obediência só é válida quando justa. A rainha Jocasta intervém para apaziguar os ânimos e pede que o marido não se assuste com profecias humanas. Para tranquilizá-lo, ela relata que Laios teria morrido em uma encruzilhada vítima de salteadores estrangeiros, e acrescenta que o único filho que tiveram juntos havia tido os pés furados e sido abandonado para morrer em uma montanha, a fim de evitar que se cumprisse um antigo oráculo que predizia que a criança mataria o pai.
As descrições de Jocasta, contudo, em vez de acalmarem o rei, despertam nele um pavor profundo. Édipo recorda-se de seu próprio passado: criado em Corinto pelo rei Pólibo, ele havia fugido da cidade após ouvir de um oráculo que mataria seu pai e se casaria com sua mãe. Em suas andanças solitárias para escapar desse destino, envolveu-se em uma briga em uma estrada e acabou matando todos os ocupantes de uma caravana, incluindo um homem cujas características físicas coincidiam com as de Laios.
O cerco começa a se fechar com a chegada de um mensageiro de Corinto, que traz a notícia da morte natural de Pólibo, o que inicialmente alivia Édipo por supor que a profecia sobre o parricídio havia falhado. Contudo, o mensageiro revela que Édipo não era filho biológico de Pólibo, tendo sido recebido das mãos de um pastor nas montanhas anos antes. Esse mesmo mensageiro confirma que a criança apresentava os pés perfurados — origem do nome Édipo, que significa "pés inchados".
O cerco se completa quando o pastor sobrevivente da comitiva de Laios é finalmente localizado e trazido à presença do rei. Sob intensa ameaça, o pastor confessa a verdade: o bebê que ele recebera para abandonar não pertencia a Corinto, mas era o filho recém-nascido de Laios e Jocasta, entregue a ele pela própria rainha para burlar o oráculo, mas salvo por compaixão e entregue ao mensageiro. Diante de tais revelações, o quebra-cabeça macabro se completa: Édipo descobre que é o filho biológico e assassino de Laios, e marido de sua própria mãe.
Dominada pelo desespero e pela culpa, Jocasta tranca-se em seu quarto e comete suicídio por enforcamento. Ao invadir o aposento e encontrar o corpo da rainha, Édipo, tomado por um horror insuportável e recusando-se a continuar testemunhando suas próprias desgraças com os olhos, arranca os próprios globos oculares com os broches do vestido de Jocasta. Cego e arruinado, ele implora para ser exilado de Tebas, pede que Creonte cuide de suas filhas e despede-se em meio aos lamentos, consolidando a tragédia como o ápice da fatalidade e da ironia dramática na literatura universal.