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As Cartas de Amarna e a Arqueologia Bíblica

A descoberta em 1888-1889 das agora famosas cartas de Amarna, que mencionam os ‘apiru (também chamados de habiru ou hapiru), deu início a um caloroso debate sobre possíveis vínculos com os “hebreus” da época da conquista de Canaã. Mais de 380 tábuas foram descobertas nos arquivos reais em el-Amarna, o lugar da antiga Akhetaten, situada na margem oriental do Nilo, cerca de trezentos quilômetros ao sul do Cairo. A maioria das cartas está escrita em acádico (um grupo de línguas semitas orientais que inclui o babilônio e que, no século 14 a.C., era a língua do comércio internacional e da diplomacia).

As cartas abrangem um período inferior a trinta anos, desde o final do reinado de Amenhotep III até o terceiro ano de Tutankhamon, sendo que a maioria foi enviada durante o reinado do “monoteísta” Amenhotep IV (chamado Akhenaton, c. 1352— 1336 a.C.). No conteúdo, com exceção de uns 32 textos léxicos/literários e 44 cartas trocadas entre o Egito e outras potências importantes da época,“mais de trezentas tábuas […] são correspondências entre o Egito e reinos vassalos em Canaã e no norte da Síria”. Entre as cartas provenientes de governantes de cidades-estado em Canaã, cerca de dezesseis mencionam os incômodos ‘apiru e recorrem ao Egito em busca de ajuda. Esses ‘apiru “parecem ser mercenários saqueadores que às vezes representavam ameaça para todos os Estados cananeus e que, em outras oportunidades, apareciam divididos em lados opostos nas guerras entre essas cidades-estado”.

Por várias razões, não causa surpresa que, como consequência da descoberta das cartas de Amarna, tenham ocorrido tentativas de relacioná-las aos hebreus bíblicos que invadiram Canaã. Como Nadav Na’aman explica em um estudo minucioso publicado em 1986, “a semelhança entre os nomes habiru e hebreu, a proximidade do lugar em que viviam e também a relação cronológica bastante próxima entre os habiru de Amarna e os israelitas despertaram a imaginação dos estudiosos, provocando a identificação imediata entre os dois grupos”.167 Essa empolgação, contudo, estava fadada a ter vida curta, pois logo ficou evidente que a existência dos ‘apiru era amplamente atestada em textos do Antigo Oriente Próximo, além das cartas de Amarna. Na realidade, parece que os ‘apiru, designados frequentemente em acádico com o logograma sumério SA.GAZ, estavam praticamente presentes em todo o Crescente Fértil durante boa parte do segundo milênio. Ficou igualmente claro que o termo ‘apiru não designa intrinsecamente um grupo étnico, ao contrário, parece indicar povos que não possuíam terra e que com frequência perturbavam a ordem, tendo sido “arrancados de sua estrutura original política e social e forçados a se adaptar a um novo ambiente”. Com base em dados provenientes de Mari, Na’aman elabora um argumento etimológico e contextual demonstrando que é possível entender os apiru como “migrantes”: “parece que em sociedades asiáticas ocidentais do segundo milênio é apenas o ato migratório que define a designação ‘habiru’”.

Tendo se precipitado em uma identificação insustentável dos ‘apiru com os hebreus, muitos estudiosos simplesmente abandonaram a ideia de que podia haver qualquer relação entre os hebreus da Bíblia e os apiru das cartas de Amarna. Outros, contudo, permaneceram mais cautelosos e abertos. Na’aman observa que, depois de um século de debates, “ainda não se chegou a um consenso no meio acadêmico”. E claro que está fora de questão uma identificação pura e simples dos dois termos. É impossível concluir que todos os ‘apiru eram israelitas; a distribuição geográfica e cronológica é simplesmente grande demais. Mas será que, para os adversários cananeus, os israelitas, conforme descritos nos livros de Josué, Juízes e até mesmo Samuel, não poderiam ter sido vistos como ‘apiru, não importando qual a percepção dos próprios israelitas acerca de si mesmos? Na’aman defende que “na condição de povo arrancado da terra em que vivia às margens da sociedade, os bandos descritos nos livros de Juizes e Samuel são idênticos aos habiru dos textos do Antigo Oriente Próximo”. Por isso, pode-se muito bem imaginar que, para os cananeus ameaçados pelos israelitas, estes fossem vistos como ‘apiru — uma percepção talvez reforçada pela coincidente semelhança do termo com o gentílico ‘ibri, “hebreu”, vocábulo que talvez derive de Éber, o ancestral de Abraão mencionado em Gênesis 10.21.

Recentemente, Daniel Fleming sugeriu que a palavra ‘ibrum, encontrada em documentos de Mari, que designava pastores que viviam em regiões remotas e que era particularmente popular entre o povo tribal Binu Yamina, do sudoeste da Síria pode oferecer uma etimologia melhor para o termo bíblico “hebreu”. Embora não seja tão amplamente atestada quanto os apiru, assim mesmo a designação ‘ibrum era “a categoria social dominante das comunidades pastoris nômades que percorriam o sudoeste da Síria durante o período de Mari, provavelmente em meados do século 18”. Fleming argumenta que sua hipótese sobre os ‘ibrum oferece uma etimologia melhor para os ‘ibri da Bíblia (“a forma substantiva qitl oferece uma equivalência exata”) e uma correspondência social mais clara com o termo bíblico “hebreu” do que a origem eberita ou o vínculo com o termo ‘apiru. A teoria de Fleming parece apoiar a ideia de que os antepassados de Israel foram de fato tribais e pastores.

Diante dessas várias possibilidades, talvez o termo “hebreu” seja usado com vários sentidos nas páginas da Bíblia. N a maioria das vezes, o termo é aplicado aos israelitas por aqueles que queriam difamá-los (e.g., a esposa de Potifar ao se referir depreciativamente a José quando ele rejeitou seus avanços em G n 39.14,17; a filha do faraó quando menciona Moisés em Ex 2.6; e os filisteus quando se referem aos israelitas em geral em ISm 4.6,9). Às vezes parece que até os próprios narradores bíblicos distinguem entre hebreus e israelitas, como em ISam uel 14.21: “Os hebreus que antes estavam com os filisteus e haviam subido com eles ao acampamento também se ajuntaram aos israelitas que estavam com Saul e Jônatas”.

Chegando a uma conclusão provisória, parece que, assim como a tentativa de fazer uma identificação simples e direta entre os hebreus e os ‘apiru se baseou em uma ideia errada, o mesmo ocorre com a negação de qualquer relação possível entre os dois grupos. Ê claro que a possível natureza da relação depende da época que se atribua à chegada de Israel em Canaã: no século 15 ou 13. Caso se aceite esta última possibilidade, então os ‘apiru podem, na melhor das hipóteses, ser os precursores de Israel. Caso, porém, se aceite a primeira possibilidade, a relação apiru/hebr&us pode ser mais próxima. De forma clara, é impossível que todo ‘apiru fosse um israelita, mas é bem provável que, durante o período de conquista, os vizinhos cananeus considerassem alguns israelitas — “migrantes” perturbadores — como ‘apiru. Em outras palavras, como um “termo genérico injurioso aplicado a párias sociais […] é possível que, no contexto cananeu, [o termo] se refira a israelitas, mesmo que isso não ocorra em outros lugares”. A nova hipótese etimológica de Fleming talvez seja uma explicação melhor para a designação “hebreu”, uma explicação que se harmoniza com a descrição bíblica do Israel primitivo como “pastores de regiões rurais remotas”.

Considerações geográficas podem oferecer apoio adicional a essa ideia. De acordo com Finkelstein, “as únicas entidades políticas da região montanhosa citadas nas cartas de Amarna do século 14 a.C. (um período de grande decadência na região montanhosa) são Siquém e Jerusalém”, e mesmo a identificação de Siquém tem sido contestada. Isso está bem de acordo com o fato de que, entre os séculos 15 e 12, a presença egípcia na Palestina parece ter sido mais sentida “nas terras baixas, que eram estratégica e economicamente importantes, do que na região montanhosa, que tinha menos relevância”. Também está em harmonia com o quadro bíblico que situa a maior parte da população israelita durante o período da conquista na região montanhosa. Em suma, de acordo com Chavalas e Adamthwaite:

O quadro que surge da Canaã de Amarna é o de reis de áreas pequenas governando justam ente as cidades que o texto bíblico diz que os israelitas, sob a liderança de Josué, não conquistaram . Ao mesmo tempo, nesse contexto é possível que os hapiru, que outros reis consideravam inimigo comum, fossem identificados com os israelitas. E m bora continuem existindo algumas exceções, como é o caso de Laquis (La-ki-su), precisamos observar que, por causa das várias opressões e ocupações ocorridas durante o período dos juízes, alguns territórios e cidades foram perdidos para os inimigos. Em ISamuel 7.14, é dito que os israelitas recuperaram territórios que haviam anteriormente perdido para os filisteus. O que se aplicava aos filisteus provavelmente também se aplicava aos conquistadores que os antecederam.

Cumulativamente, no que diz respeito aos ‘apiru, a natureza da evidência não apoia o dogmatismo a favor desta ou daquela posição, mas um cenário possível é que tanto o Israel de Merneptá quanto os apiru das cartas de Amarna nos oferecem indicações de uma presença (pastoril) israelita em Canaã bem antes do florescimento de aldeias na região montanhosa durante a Idade do Ferro I.

ANÁLISE DOS VESTÍGIOS MATERIAIS

Até aqui nosso foco esteve na leitura de textos — bíblicos e extrabíblicos. Agora nos voltamos para vestígios materiais não textuais que a arqueologia trouxe à luz. Esses vestígios também exigem uma “leitura” cuidadosa. Se o procedimento nas seções anteriores foi praticamente equivalente a ouvir testemunhas durante um julgamento (embora com a diferença de que não é possível interrogar diretamente essas testemunhas e, por isso, é preciso ouvi-las para obter qualquer informação que possam apresentar quanto às questões em pauta), o procedimento nas seções seguintes é semelhante à tentativa de, em um julgamento, avaliar a importância das provas materiais. Raramente pode-se esperar reconstruir o passado apenas com base em dados materiais não verbais, mas esses dados podem ser muito úteis ao menos em três aspectos: 1) verificação da possibilidade do testemunho verbal ser real; 2) verificação da plausibilidade de determinada reconstrução teórica; 3) acréscimo de “carne” ao “esqueleto” de um enredo histórico baseado em testemunhos.

Conforme observamos em nossa análise da teoria da conquista, uma leitura cuidadosa do livro de Josué descobre que, ao contrário da opinião popular (e às vezes da acadêmica), é possível que os danos reais causados nas propriedades conquistadas tenham sido bem pequenos, de modo que a chegada de Israel pode não ter deixado nenhum ou quase nenhum vestígio arqueológico. O fato de que Israel não se envolveu em destruição desnecessária de propriedades é indicado em Josué 24.13, que descreve os israelitas morando em cidades que não haviam construído e desfrutando de vinhas e olivais que não haviam plantado, uma situação prevista em Deuteronômio 6.10-12:

Quando o Senhor , teu Deus, te estabelecer na terra que prometeu te dar, em juramento feito a teus pais, Abraão, Isaque e Jacó, com grandes e boas cidades, que não edificaste, com casas cheias de tudo o que é bom , as quais não encheste, e poços que não cavaste, vinhas e olivais que não plantaste, e quando comeres e te fartares, cuidado para não te esqueceres do Senhor , que te tirou da terra do Egito, da casa da escravidão.

Portanto, com base na perspectiva do testemunho bíblico, não há motivo algum para esperar encontrar evidências arqueológicas que confirmem, como resultado de uma conquista israelita, destruições generalizadas de cidades. Os moradores das cidades foram propositalmente aniquilados ou expulsos, mas cidades e terras foram, em sua maioria, deixadas intactas. A esta altura já estamos bem familiarizados com o fato de que os textos bíblicos mencionam o incêndio de apenas três lugares durante as campanhas de Josué: Jericó (Js 6.24), Ai (8.28) e Hazor (11.13). A essas três podemos acrescentar a cidade de Laís, no extremo norte, que foi conquistada e incendiada algum tempo depois por danitas que migraram para o norte e que mudaram o nome da cidade para Dã (Jz 18.27; cf. Js 19.47). Ao menos no caso desses quatro lugares, talvez haja boas razões para procurar vestígios arqueológicos, mas mesmo assim, devemos ter em mente a natureza casual da existência e da descoberta de vestígios arqueológicos. Primeiro examinaremos esses quatro locais, então consideraremos vários outros de particular relevância para o testemunho de Josué-Juízes. Por fim, focalizaremos os resultados de pesquisas de superfície realizadas em décadas recentes.

Descobertas arqueológicas de Jericó, Ai, Hazor e Laís

Jericó

D e acordo com os relatos bíblicos, Jericó foi a primeira cidade conquistada após a entrada de Israel em Canaã e, geralmente, é a primeira a ser mencionada em debates sobre a “conquista”.186 Aliás, Jericó é frequentemente citada como um “exemplo evidente” de como a arqueologia tem demonstrado que a Bíblia não é historicamente confiável. O motivo alegado é que supostamente a cidade de Jericó não foi sequer ocupada durante o período atribuído a Josué, pressupondo-se tanto uma conquista recuada quanto recente. Isso não quer dizer que, em muitos pontos importantes, a arqueologia da cidade não esteja associada ao relato bíblico. Há evidência de que as muralhas da cidade ruíram. Existem vestígios de incêndio, bem como indícios até mesmo da época do ano em que esse incêndio pode ter acontecido — provavelmente na primavera, logo após a colheita, visto que os escavadores recuperaram uma quantidade significativa de cereal na cidade incendiada. A presença de cereal também sugere que a cidade caiu rapidamente e não como resultado de um cerco prolongado, pois, nesse caso, esses suprimentos com certeza teriam se esgotado.

Se pressupusermos que a destruição da cidade não foi fruto de catástrofe natural, mas de conquista, então o fato de que, ao invés de ser levado pelos conquistadores, o cereal foi deixado ali e destruído também é um detalhe sugestivo. Diante disso, essas descobertas arqueológicas parecem se relacionar com a descrição bíblica dos acontecimentos e das condições que envolveram a conquista de Jericó. A todos esses dados pode-se acrescentar uma evidência interessante e acidental encontrada no relato de Josué antes da tomada de Jericó: a observação em Josué 3.16 de que, a fim de que os israelitas atravessassem o rio Jordão para entrar em Canaã,

as águas que desciam pararam e ficaram amontoadas, muito longe, à altura de A dã, cidade que está junto a Zaretã; e as águas que desciam ao mar da Arabá, que é o mar Salgado, foram de todo interrompidas. Então o povo passou bem em frente de Jericó.

Visto que interrupções no fluxo do Jordão na vizinhança de Adã têm sido confirmadas várias vezes ao longo de séculos de registros históricos geológicos,188 esse comentário incidental no texto bíblico atesta um conhecimento geográfico/geológico preciso da área e fornece uma explicação plausível de como pode ter ocorrido a interrupção mencionada no livro de Josué.

Reunidos, todos esses fatores parecem reforçar a confiança na compatibilidade dos dados arqueológicos e textuais referentes à queda de Jericó. O problema de Jericó não se relaciona tanto com as descobertas materiais, mas com as datas atribuídas a essas descobertas. Entretanto, a datação das ruínas de Jericó tem mudado várias vezes durante a história da escavação do sítio. Em tempos modernos, a mais antiga escavação do sítio arqueológico, feita por uma expedição austro-germânica dirigida por Ernst Sellin e Carl Watzinger, entre 1907 e 1911, encontrou provas de uma notável estrutura de muros que eles dataram da Idade do Bronze Média (que, de acordo com cronologias-padrão, terminou c. 1550 a.C.). N a década de 30, o arqueólogo britânico John Garstang retomou as escavações no sítio e encontrou indícios de muros caídos feitos de tijolos de barro, os quais datou em cerca de 1400 a.C. e associou à conquista liderada por Josué. Não é de surpreender que a afirmação de Garstang tenha causado bastante agitação. A pedido de Garstang, a arqueóloga britânica Kathleen Kenyon conduziu, entre 1952 e 1958, as próprias escavações em Jericó. Ela também encontrou “tijolos vermelhos caídos”, os quais aparentemente haviam pertencido à complexa estrutura de muros, bem como vestígios de incêndio e outros mais. No entanto, ela atribuiu novamente à cidade destruída a data da Idade do Bronze Médio, deixando a Jericó da Idade do Bronze Recente (o período de Josué), na melhor das hipóteses, com uma ocupação mínima e, com certeza, sem muro algum. Kenyon apresentou um relatório de suas conclusões em várias publicações populares e a questão permaneceu assim; para muitos, continua assim até hoje.

Pergunte à maioria dos arqueólogos e também dos historiadores da Bíblia envolvidos em seu trabalho se a arqueologia de Jericó inspira confiança nos relatos bíblicos e verá que a maioria responderá com um simples “não”. Neste caso, porém, uma resposta simples talvez não seja apropriada. Em 1990, B. G. Wood retomou de modo efetivo a discussão da questão. M unido de seu conhecimento especializado em cerâmica da Palestina antiga e com acesso aos relatórios finais de escavação publicados após o falecimento de Kenyon, Wood fez uma defesa notável em favor da reconsideração da data dos vestígios de Jericó. O ponto central do raciocínio de Wood é sua observação de que aparentemente a data da Idade do Bronze Média atribuída por Kenyon à destruição de Jericó (estrato IV da cidade) se baseia no fato de ela não haver encontrado ali um tipo de cerâmica associado ao período do Bronze Recente. Argumentos com base no que não foi encontrado nunca chegam a ser particularmente convincentes, em especial quando se considera que só uma porcentagem bem pequena da área total da maioria dos sítios arqueológicos é de fato escavada. Jericó não é exceção. Além do mais, não parece razoável que se espere encontrar o tipo de cerâmica que Kenyon procurava (i.e., cerâmica bicolorida importada de Chipre) nas áreas por ela escavadas, pois elas teriam sido as mais pobres da cidade. Kenyon descreve, aliás, a própria cidade como “um lugar um pouco atrasado, longe do contato com regiões mais ricas servidas pela estrada litorânea”, de modo que é possível que nesse caso não seja significativa a ausência de um tipo específico de cerâmica importada que, em outros lugares, serve de indicador da Idade do Bronze Recente. Todavia, Wood descobriu, em relatórios publicados sobre a escavação de Garstang, que havia alguma amostra de cerâmica que, a princípio, parecia do tipo que Kenyon estava procurando. Testes subsequentes das amostras de cerâmica bicolorida obtidas por Garstang revelaram que eram de fabricação local, mas ainda assim elas podem atestar familiaridade com o “objeto verdadeiro” do qual são uma imitação.

Deixando de lado a questão da cerâmica bicolorida importada, Wood insiste que “o método básico de datação deve ser uma análise minuciosa da cerâmica local’, o que “nunca foi feito”. Com sua formação em cerâmica cananeia da Idade do Bronze Recente, Wood se dedica a essa análise (embora seu estudo detalhado ainda não tenha sido publicado). Numa tréplica a P. Bienkowski, que procura refutar a tese de Wood, este apresenta uma avaliação sucinta de “uma seleção de formas do Bronze Recente I encontrada na escavação feita por Kenyon”. Ele ressalta oito tipos diferentes de cerâmica que se pode hoje — mas não na época de Kenyon — demonstrar que são característicos do período do Bronze Recente. Ao argumento baseado na cerâmica, Wood acrescenta outros que dizem respeito à estratigrafia, à evidência de escaravelhos e à datação por radiocarbono. Vistos isoladamente, nenhum destes três últimos dados é “suficiente para levar a uma revisão da data de Kenyon. Mas, em conjunto, constituem uma argumentação muito forte a favor da redução da data proposta por Kenyon”, fazendo com que a última grande destruição de Jericó (estrato IV da cidade) esteja mais em conformidade com a avaliação original de Garstang.

Depois do impacto inicial, o questionamento feito por Wood não conseguiu grande aceitação no meio acadêmico, embora muitos observadores reconheçam a força de sua contestação. É possível que não tenha tido grande sucesso devido, em parte, ao adiamento da publicação de seu estudo acadêmico mais detalhado. Entretanto, é comum os estudiosos receberem hesitantemente teorias novas, em particular quando a aceitação parece exigir bastante reconsideração e revisão das teorias existentes. Alguns também podem ter certa reserva em abrir mão de um dos “exemplos evidentes” de que a arqueologia aparentemente se choca com o quadro bíblico.

A esta altura, conclusões seguras são prematuras, de modo que a melhor abordagem é permanecer aberto e atento. Não seria sábio supor que cada detalhe dos argumentos de Wood em favor de uma correspondência entre a arqueologia de Jericó e a descrição bíblica da conquista da cidade subsistirá a uma análise minuciosa, mas é uma atitude obscurantista simplesmente ignorar seus argumentos. Ademais, até que os argumentos de Wood sejam plenamente divulgados e avaliados, é irresponsável os estudiosos continuarem citando Jericó como exemplo óbvio de como a arqueologia demonstra que a Bíblia não é historicamente confiável. Em um livro lançado no mesmo ano que o estudo de Wood (portanto, ele não considerou esse estudo), Amihai Mazar resumiu a situação de Jericó da seguinte maneira:

Em Jericó não foram encontradas quaisquer fortificações do período do Bronze Recente; isso foi interpretado como prova contra o valor histórico da narrativa do livro de Josué. No entanto, as descobertas de Jericó mostram que ali houve uma povoação durante a Idade do Bronze Recente, embora a maior parte de suas ruínas tenha sofrido erosão ou sido removida pela ação humana. Talvez, como acontece em outros sítios arqueológicos, as enormes fortificações do período do Bronze Médio tenham sido reutilizadas na Idade do Bronze Recente. Após haver existido ali uma povoação no período do Bronze Recente, durante a Idade do Ferro I houve uma lacuna na ocupação de Jericó. Dessa maneira, no caso de Jericó, os dados arqueológicos não podem servir de prova decisiva para negar que, no que diz respeito à conquista dessa cidade, haja um núcleo histórico no livro de Josué.

Ai

A maioria dos estudiosos atuais acompanham Albright na identificação da antiga Ai com a moderna Khirbet et-Tell — identificação que depende da suposição de Albright de que Beitin é o lugar da Betei bíblica. Supondo por um instante que as duas cidades bíblicas foram identificadas corretamente, no caso de Ai encontramos uma lacuna de ocupação ainda mais problemática do que aquela que, para muitos estudiosos, tom a confusa a questão de Jericó:

Ai, que em um consenso razoavelmente amplo está situada nas ruínas de et-Tell, localizadas perto de Beitin (que muitos acreditam ser a cidade que substituiu a Betei bíblica), apresentou outro problema, pois o local esteve desocupado entre aproximadamente 2400 a.C . (quando a cidade foi conquistada na Idade do Bronze Antiga) e a fundação da aldeia de curta existência no século 12 a.C . Até agora as tentativas de encontrar um lugar alternativo que mostre um registro arqueológico m ais satisfatório não estão tendo sucesso.

Conforme observado por Isserlin, parece que et-Tell não foi ocupada durante o período aproximado de 2400 e 1200 a.C. Sem dúvida isso cria bastante dificuldade para a narrativa bíblica acerca da captura e destruição de Ai, a menos que haja algo além do que é sugerido no relato bíblico em uma primeira leitura. Observamos, por exemplo, que, em um determinado ponto da descrição da batalha, os homens de Betei se juntam aos de A para lutar contra Israel (Js 8.17). Além dessa menção a Betei, a descrição não faz nenhuma outra, embora em Josué 12 o rei de Betei esteja com o de A na lista de reis cananeus vencidos (v. 9,16). W. F. Albright levantou a hipótese de que a luta tenha sido contra Betei, mas por motivos etiológicos — a saber, explicar as proeminentes “ruínas” (um dos vários e possíveis sentidos do termo “Ai” e também de “et-Tell”) — a narrativa mudou seu foco para Ai.206 Concordando ou não com a “forçada” teoria etiológica de Albright, o fato de o relato mencionar A de passagem talvez aponte para uma situação mais complexa do que somente o conflito Israel versus A. Ainda assim, qualquer que seja a data atribuída à conquista liderada por Josué, a aparente não ocupação de A nesse período cria dificuldades. Alguns estudiosos tentaram solucionar o problema pressupondo que os procurados vestígios de ocupação do lugar sofreram erosão durante o longo período em que a cidade permaneceu em ruínas (cf. Js 8.28, “até o dia de hoje”) ou então meramente continuam soterrados nos vários hectares que nunca foram escavados no sítio. Outros estudiosos pressupõem que o relato bíblico simplesmente esteja errado. Aliás, para J. A. Callaway o conflito é tão sério a ponto de ser necessário “uma revisão da avaliação que fazemos da Bíblia”.

Entretanto, antes que se justifique essa “revisão”, devemos investigar se et-TeU e Beitin são mesmo a localização correta de Ai e Betei, pois não há uma segurança muito grande nessas identificações, o que se depreende das expressões cuidadosas utilizadas por Isserlin e citadas anteriormente (“consenso razoavelmente amplo” e “muitos acreditam que”). A et-Tell de Albright não é a única et-Tell na Síria- -Palestina, o que enfraquece muito a defesa de Albright da identificação de Ai e et-Tell com base apenas no fato de que ambos os nomes parecem significar algo semelhante a “ruína”. O fato é que nunca foi muito grande a confiança na identificação dos sítios arqueológicos de Ai e Betei. Por exemplo, por diversos motivos e com diversas sugestões alternativas, Grintz, Kitchen, Luria, Livingston, Bimson e outros questionam essa identificação. Até o momento, nenhuma das sugestões alternativas para Ai conquistou muitos seguidores, mas não se pode ignorar a tese de Livingston de que Betei deve ser identificada com a moderna Bireh e não com Beitin. Se Livingston estiver certo, então está reaberta a busca pela Ai bíblica, sendo possível considerar outros sítios. Aliás, várias escavações de possíveis sítios foram ou estão sendo realizadas.

Considerando os dados disponíveis sobre Ai, surgem, a princípio, várias possibilidades: pode ter ocorrido uma identificação errada do sítio arqueológico; se et-Tell é a identificação correta, as descobertas arqueológicas podem não ser representativas das áreas ainda não escavadas do sítio; pode ter havido até agora uma leitura errônea dos relatos bíblicos; ou os relatos bíblicos podem estar simplesmente errados. Essa situação de incerteza está longe de recomendar conclusões apressadas. Ao contrário, é um convite à cautela e a uma suspensão do veredito até que mais dados venham a lume. Refletindo sobre a diversidade de opiniões vigentes, J. M. Miller faz uma sábia advertência contra a tendência de se basear demasiadamente em dados arqueológicos escassos: “O fato de todas essas ideias tão distintas sobre a origem israelita afirmarem ter o apoio da arqueologia mostra, em minha opinião, que os dados arqueológicos sobre esse assunto são ambíguos ou basicamente neutros”. Em termos mais gerais, Miller também lembra que, embora a arqueologia “seja uma boa fonte para esclarecer a cultura material do passado, dados de artefatos são fontes bem ineficientes de informação sobre pessoas e acontecimentos específicos”.

Hazor

Enquanto a correta identificação do sítio da antiga Ai continua sendo um tema em aberto, hoje a identificação de Hazor com Tell el-Qedah, proposta pela primeira vez em 1875 por J. R. Porter, é considerada praticamente inquestionável. Com área total de aproximadamente 85 hectares (850 mil m2), compreendendo uma cidade alta com cerca de 12 hectares e uma cidade baixa com cerca de 73 hectares, é bem possível que, na sua época, Hazor tenha sido a maior cidade da Síria-Palestina, o que está em conformidade com a descrição feita na Bíblia de que “Hazor havia sido a capital de todos esses reinos” (Js 11.10) e também com sua frequente menção em textos extrabíblicos. Estimativas sobre a população do local durante a Idade do Bronze Recente indicam um número de pelo menos vinte mil pessoas. Portanto, há uma compatibilidade geral entre os dados arqueológicos e a descrição bíblica da importância de Hazor. Mas o que dizer dos detalhes? Hazor, junto com Ai e Jericó, integra a lista de cidades que o texto bíblico afirma explicitamente que Josué incendiou (Js 11.11,13). Enquanto os outros dois sítios arqueológicos continuam controversos, o de Hazor é um pouco menos problemático, pois não há nenhuma dúvida de que um grande incêndio a destruiu na Idade do Bronze Recente — na verdade, ela foi destruída várias vezes por incêndios, inclusive antes desse período, na Idade do Bronze Médio. Contudo, parece que a destruição derradeira da cidade, durante o Bronze Recente, foi particularmente impressionante. Nas palavras do atual diretor de escavações, Amnon Ben-Tor:

Um violento incêndio marcou o fim da Hazor cananeia. Por todo o sítio um a espessa camada de cinzas e madeira parcialmente queimada — em alguns lugares com cerca de 90 cm de espessura — confirma a intensidade das chamas na cidade do norte da Galileia. Dentro dos muros do palácio de Hazor, o fogo foi especialmente intenso. A quantidade incomum de madeira usada na construção do prédio e a grande quantidade de óleo armazenado em imensos pithoi (jarros de armazenamento) espalhados por todo o palácio formaram um a combinação fatal — criando um calor extremo com temperaturas superiores a 1288 °C. Sob esse calor intenso, as paredes de tijolo de barro vitrificaram, as placas de basalto trincaram e os utensílios de argila derreteram . Quem quer que tenha incendiado a cidade também destruiu deliberadamente as estátuas do palácio. No meio das cinzas, entre as estátuas cananeias com forma humana, descobrimos a maior já encontrada em Israel. Esculpida num bloco de basalto que deve ter pesado mais de um a tonelada, a estátua de cerca de 90 cm de altura foi despedaçada em aproximadamente cem fragmentos espalhados em um raio de cerca de 1,8 m. A cabeça e as mãos dessa estátua e de várias outras estavam faltando, tendo sido aparentem ente decepadas pelos conquistadores da cidade. Quem mutilou as estátuas de Hazor? Quem incendiou o palácio? Quem destruiu essa rica cidade cananeia?

Quem, de fato, fez isso? Yigael Yadin, que entre 1955 e 1958 e entre 1968 e 1972 dirigiu a única outra escavação de grande porte no local, estava convencido de que a destruição colossal que deu fim a Hazor do período do Bronze Recente foi obra de Josué e dos israelitas invasores e, em consonância com sua aceitação de uma conquista no século 13, ele atribuiu à destruição a data aproximada de 1230 a.C. Para Ben-Tor, atual diretor de escavações, à luz dos dados disponíveis, a datação feita por Yadin revela “confiança excessiva”; ele se dispõe a afirmar apenas que a destruição deve ter ocorrido no século 14 ou 13 a.C. Prevê, contudo, que estudos adicionais podem confirmar a data do século 13. Ben-Tor também tende a atribuir a destruição aos israelitas, embora manifeste uma opinião mais cautelosa do que a de Yadin. As estátuas cananeias e egípcias mutiladas descobertas em meio aos destroços da destruição final de Hazor são especialmente significativas. Quem poderia ter sido responsável por essas mutilações e pela destruição final da Hazor do Bronze Recente? O raciocínio de Ben-Tor é o seguinte:

Na época só quatro grupos poderiam ter destruído Hazor: 1) um dos povos do mar, como os filisteus, 2) um a cidade cananeia rival, 3) os egípcios; 4) os israelitas. Conforme observado anteriormente, as estátuas mutiladas eram egípcias e cananeias. E muito improvável que saqueadores egípcios e cananeus destruíssem estátuas que representavam os próprios reis e deuses. Além disso, quanto à possibilidade de outra cidade cananeia haver destruído Hazor, a Bíblia nos diz que esta era “a capital de todos esses reinos”, e a arqueologia corrobora a afirmação indicando que a cidade era simplesmente rica e poderosa demais para ser derrotada por um a cidade cananeia rival de menor importância. Assim , a possibilidade de ter sido os egípcios e os cananeus é descartada. No que diz respeito aos povos do mar, Hazor está localizada muito no interior para ser de algum interesse para os comerciantes marítimos. A demais, entre as centenas de cacos de recipientes de barro recuperados em Hazor, não existe um único sequer que possa ser atribuído à conhecida coleção de recipientes usados pelos povos do mar. Isso nos deixa som ente com os israelitas.

Ben-Tor evita mencionar Josué, preferindo citar “o ‘Israel’ da Esteia de Merneptá” como “o candidato mais provável para a destruição violenta da Hazor cananeia”. Pressupondo uma data no século 13 para a chegada de Israel ao local, talvez seja razoável associar essa destruição a Josué. Mas aqui nos deparamos com uma dificuldade, ainda que, talvez, não seja insuperável. Ao que parece, com base nos resultados de escavações feitas até agora, depois da destruição derradeira ocorrida na Idade do Bronze Recente (século 13?), o local não passou por uma reconstrução significativa até os dias de Salomão (décimo século). O que fazer então com a afirmação de Juiíes 4.2,3 de que, antes de ser libertado por Débora e Baraque, Israel sofreu durante vinte anos nas mãos de “Jabim, rei de Canaã, que reinava em Hazor”? Como essa opressão foi possível se, após a destruição de Hazor por Josué e até a época de Salomão, a cidade não passou por uma reconstrução significativa?

A resposta dos estudiosos diante dessa tensão é variada. Yadin simplesmente põe Juizes 4-5 de lado, dizendo que não merece crédito. Aharoni inverte a ordem dos acontecimentos, posicionando a vitória de Baraque antes da de Josué. Block levanta a possibilidade de que talvez “pessoas da dinastia de Hazor” tenham escapado de Josué e voltado ao lugar em ruínas, restabelecendo algum nível de controle, embora de natureza tão curta que não deixou nenhum vestígio arqueológico. Hess observa que, ao que parece, depois da principal destruição ocorrida no Bronze Recente (estrato 13), o nível seguinte de ocupação (estrato 12) chegou a cobrir “todo o sítio arqueológico”, embora “sem os muros da cidade e sem grandes prédios públicos”. Assim, apesar de não haver passado por uma reconstrução e fortificação significativa, o lugar foi de algum modo reocupado. Além do mais, os textos bíblicos não fazem, na verdade, qualquer referência a Baraque ter destruído ou incendiado Hazor. Lemos apenas que Israel foi ficando cada vez mais forte contra Jabim, rei de Canaã, até que ele foi destruído (Jz 4.24). Como ocorre na lista de Josué 12 que relaciona os reis das Cidades-Estado derrotados, é possível que no caso de Jabim o texto não indique a destruição da cidade, mas apenas de seu representante. Assim, a arqueologia de Hazor parece ser razoavelmente compatível com uma conquista no século 13.

Acaso uma conquista no final do século 15 também seria possível da perspectiva arqueológica? Alguns diriam que sim ou que essa data seria até mesmo melhor. Bimson, por exemplo, oferece um cuidadoso resumo da situação da arqueologia de Hazor em 1978 e observa que “a partir do final do período do Bronze Médio II C até o fim da Idade do Bronze Recente, Hazor foi destruída nada menos do que quatro vezes”. A única questão é se alguma dessas destruições pode ser atribuída a Josué e aos israelitas e, em caso positivo, qual delas. Embora Yadin tenha optado pela última, Bimson suspeita que “uma suposta data tardia do Êxodo tenha influenciado subjetivamente” nessa escolha.226 Conforme sua tentativa mais ampla de aproximar essa data do final da Idade do Bronze Médio em Canaã, Bimson prefere indicar algum momento no fim do século 15 para a violenta conflagração que destruiu a Hazor do Bronze Médio II C e creditar essa destruição a Josué. Ele observa que, em 1957, o próprio Yadin levantou a possibilidade de a destruição da Hazor do Bronze Médio ter ocorrido nas mãos de Tutmósis III ou Amenhotep II, o que estabeleceria essa destruição na última metade do século 15. Na verdade, um ano depois, Yadin estabeleceu o fim da cidade do Bronze Médio em aproximadamente 1400 a.C. No entanto, logo depois mudou de ideia e adiantou a data para o século 16 por motivos que Bimson considerou inadequados. Bimson faz o seguinte resumo da própria posição: “A cidade atacada e destruída pelas forças de Josué foi na verdade a cidade da fase final da Idade do Bronze Média. Depois disso Hazor foi reconstruída (talvez após um período de abandono […]) e, embora tendo menos importância do que na Idade do Bronze Média […], continuou florescendo até o século 13, quando finalmente caiu diante da pressão israelita que se seguiu à derrota das tropas de Sísera”. Em apoio a essa conclusão, Bimson defende que notas cronológicas em passagens como Juizes 2.10; 3.8,11,14,30 dão a entender que talvez cinco ou seis gerações ou um período menor do que dois séculos se passaram entre a derrota de Hazor infligida por Josué e a batalha liderada por Débora e Baraque. Se a vitória de Josué ocorreu nas décadas finais do século 15, é de se esperar que a data de Débora e Baraque tenha sido a segunda metade do século 13, ligando, desse modo, aquela vitória à destruição da cidade do Bronze Médio e permitindo uma leitura simples e direta da nota existente em Juizes 4.24, segundo a qual “o poder dos israelitas sobre Jabim, rei de Canaã, tornou-se cada vez maior, até que eles o destruíram”.

Nossa análise de Hazor poderia se estender um pouco mais, mas já vimos talvez o suficiente para concluir que é possível defender razoavelmente vários cenários, embora nenhum deles esteja totalmente resolvido. Por exemplo, será que, em uma primeira análise, a presença de estátuas cananeias e egípcias na Hazor do século 13 e sua mutilação aparentemente feita por israelitas não geram problemas para a concepção de que os israelitas comandados por Josué haviam anteriormente conquistado e destruído a cidade? A resposta elementar a tal questionamento é que os ventos e os compromissos políticos oscilam, especialmente no transcorrer de longos períodos. Por exemplo, depois de um período cada vez menor de controle egípcio, é possível que Seti I (c. 1294-1279 a.C.) tenha conseguido restabelecer a soberania sobre Hazor (o que talvez tenha possibilitado uma ótima oportunidade para reerguer estátuas egípcias ali).

As peças do quebra-cabeça podem ser encaixadas de várias maneiras e no momento nenhuma é obviamente a correta. A esta altura o melhor é não ser demasiadamente detalhista ou dogmático quanto a qualquer reconstrução específica. Podemos esperar que outras escavações e interpretações esclareçam de forma mais completa a potencial relação entre texto e artefato, mas, no presente, tudo o que podemos dizer é que a arqueologia de Hazor não oferece uma confirmação óbvia do quadro bíblico, tampouco o contradiz.

Laís/Dã

De acordo com Juizes 18, o povo “despreocupado e tranquilo” de Laís (v. 7) caiu nas mãos israelitas não no transcorrer da conquista, mas algum tempo depois, quando um contingente de danitas se dirigiu rumo ao norte em busca de uma alternativa para o território que lhes havia sido designado, o qual consideravam difícil de ocupar. Espremidos entre Efraim, ao norte, e Judá, ao sul, e limitados por Benjamim a leste e o mar Mediterrâneo a oeste (cf. Js 19.40-46), os danitas descobriram que não conseguiriam derrotar os amorreus (e talvez os filisteus) na planície (Js 19.47). Depois de serem confinados à região montanhosa (Jz 1.34), enviaram por fim um grupo de reconhecimento para o norte em busca de melhores pastagens (Jz 18.2). Os espiões foram acompanhados por seiscentos guerreiros, que conquistaram e mataram o povo de Laís, incendiaram totalmente a cidade (18.27) e depois a reconstruíram, mudando seu nome para D ã e passando a habitar nela (18.28,29).

Esse é, em resumo, o quadro bíblico de Laís (Dã) no período dos juizes. De que maneira esse quadro se harmoniza com os resultados das escavações arqueológicas? Como ocorre com vários outros sítios arqueológicos ligados à Bíblia, a identificação do local foi feita pela primeira vez em 1838 por E. Robinson e, ao contrário de algumas de suas identificações, não existe nenhum motivo para duvidar dela. Robinson situou Laís na moderna Tell el-Qadi, uma identificação que foi corroborada por vários achados arqueológicos e, o que é mais impressionante, pela descoberta de uma inscrição em grego e aramaico (provavelmente do século 2 a.C.) que diz: “Ao deus que está em Dã”. Tell el-Qadi, mais conhecida hoje como Tel Dan, está situada no extremo norte de Israel, ao pé do monte Hermom, “no norte da bacia fluvial de Huleh, uma bifurcação importante que vai da região costeira do Mediterrâneo até Damasco e Síria”, próxima de fontes perenes que constituem uma das principais nascentes do rio Jordão. A primeira menção bíblica a Laís está em Gênesis 14.14, passagem em que é chamada por seu nome posterior, Dã. Fora da Bíblia, referências a Laís (nas quais com frequência aparece junto com Hazor, situada mais ao sul) são encontradas nos textos de execração do século 18, em um dos textos de Mari e em uma lista de áreas sob a influência de Tutmósis III.

A escavação de Tel Dan começou em 1966 sob a direção de A. Biran e continua há mais de trinta anos. Descobertas notáveis têm sido feitas no sítio, uma das quais, a Inscrição de Tel Dan, é mencionada no próximo capítulo. No momento, nosso interesse está na migração danita e no suposto incêndio de Laís. D e acordo com Biran, embora em Laís/Dã boa parte da cultura material permaneceu a mesma durante a transição do Bronze Recente para a Idade do Ferro,

…um número relativamente grande de covas, algumas revestidas com pedras, presente em todas as áreas escavadas indica a existência de um novo estilo de vida. As covas ou silos lembram construções semelhantes às encontradas na região montanhosa de Judá e Benjamim, denominadas “covas de estabelecimento” e pertencentes ao período israelita.

Biran também observa que no início da Idade do Ferro surgem os jarros “de boca estreita”, o que se harmoniza bem com a conquista da cidade pelos israelitas. Há, porém, vestígios de incêndio? Embora Manor afirme que “no sítio arqueológico não se encontrou nesse horizonte de transição nenhum indício de destruição generalizada por fogo”, Biran de fato menciona que “existem em um lugar ou outro indícios visíveis de incêndio, e em alguns pontos as covas foram construídas sobre uma camada de seixos estéril”. Tendo tomado D ã como “exemplo no exame da abordagem sintética da pesquisa bíblica, histórica e arqueológica”, Biran conclui que, no que diz respeito à migração danita descrita em Juizes 18, “não há nenhum motivo para duvidar da historicidade do acontecimento ou da narrativa, ainda que a data dessa migração não esteja de modo algum determinada”. Biran não está sozinho em sua posição de que existem convergências entre a arqueologia de Dã e o relato bíblico da destruição de Laís pelos danitas (Jz 18.27). Stager resume a mesma posição da seguinte forma:

Em suas escavações de Tel Dan, Avraham Biran descobriu recentemente indícios dessa destruição [i.e., Jz 18.27], Sobre as ruínas de um a próspera cidade da Idade do Bronze Recente foi descoberto um assentamento consideravelmente mais pobre e rústico. Havia covas de armazenamento e um a variedade de jarros de boca estreita usados como recipientes, mas nenhuma ou quase nenhum a cerâmica filisteia pintada. As tradições bíblicas e os dados arqueológicos convergem tão bem que não pode haver nenhum a dúvida de que os danitas pertenciam à confederação israelita e não à dos povos do mar.

Portanto, parece que no caso de Tel Dan e da migração danita de Juizes 18 ocorre um dos “ajustes” menos problemáticos entre a arqueologia e a Bíblia. Mesmo aqui, porém, devemos ter o cuidado de não ir longe demais em nossas suposições, pois, conforme observado sabiamente por Biran, “a pesquisa arqueológica é de tal natureza que frequentemente novas descobertas exigem considerável revisão das conclusões anteriores”.

Antes de encerrarmos o estudo sobre Dã, devemos mencionar outra correspondência proposta por Biran. De acordo com o relato bíblico, os guerreiros danitas a caminho de Laís se apropriaram de um ídolo que havia sido feito para um homem chamado Mica e, em sua jornada para o norte, levaram consigo esse ídolo e também o sacerdote responsável por ele (Jz 18.17-20). Em 18.30,31, somos informados de que, depois de conquistarem Laís e lhe mudarem o nome, “os filhos de D ã levantaram para si aquela imagem de escultura, e Jônatas, filho de Gérson, o filho de Manassés, ele e seus filhos foram sacerdotes da tribo dos danitas, até ao dia do cativeiro da terra. Assim pois a imagem de escultura, que fizera Mica, estabeleceram para si, todos os dias que a casa de Deus esteve em Silo” (ARC). Apesar de uma concepção equivocada comum, o cativeiro mencionado no versículo 30 não tem qualquer relação com o cativeiro assírio do final do oitavo século.248 Antes, o versículo 31 deixa claro que a interrupção do sacerdócio em D ã coincidiu com o fim da permanência da casa de Deus em Siló. Se, conforme a Bíblia e a arqueologia sugerem,249 os filisteus destruíram Siló por volta de meados do século 11, talvez D ã tenha sofrido uma destruição semelhante na mesma época. O que as descobertas arqueológicas de Dã sugerem? Biran relata: “Em algum momento em meados do século 11 a.C., a cidade (estrato V) foi destruída por uma conflagração violenta, o que é datado pelos vestígios de cerâmica. Não temos condições de dizer quem provocou essa destruição”

—– Para muito mais conteúdo assim, veja Uma História Bíblica de Israel, de Iain Provan, V. Philips Long e Tremper Longman III.


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• A Origem das Línguas Humanas e Culturas
• A Vida Cotidiana dos Povos Antigos
 A História do Antigo Testamento Resumida
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