Nesta análise do diálogo *Hipias Menor*, de Platão, discute-se a complexa argumentação de Sócrates sobre justiça, capacidade e moralidade, levantando questões sobre se o filósofo estava apenas usando de ironia ou defendendo teses genuínas.
Nós temos registros históricos, por exemplo, de que nas guerras que ocorriam durante toda a história — seja guerras entre os gregos e persas, entre os árabes, na Idade Média, na Idade Antiga, o que for —, nós temos registros de alguns casos em que acontecem crimes durante os conflitos, por exemplo, sequestro de mulheres e crianças, matar mulheres e crianças, às vezes ocorrem. E esses guerreiros, esses soldados, quando eles voltavam para a sua nação, eles eram comemorados porque eles ganharam a guerra. Mas vamos aos méritos: tudo bem, eles ganharam a guerra, mas a prática dele, o que eles fizeram, ela é 100% correta? Ele é um herói? Ele é reconhecido como herói da nação, mas suas práticas foram verdadeiramente boas ou não? Eu faço esse paralelo porque a Grécia foi absorvida por Roma, toda a cultura grega foi absorvida por Roma. Mas as práticas que no futuro eram vistas como algo mau pela própria igreja, elas eram descartadas; as igrejas condenavam certas práticas. Então, não necessariamente aquilo que era reconhecido pela Grécia, aquilo que era reconhecido como algo eficiente, como um exemplo para a sociedade, era algo necessariamente bom, entende?
Mas essa é a confusão mesmo, porque é inclusive nessa hora também que isso acontece, porque é como se quem faz bem uma coisa — quer dizer, só de você fazer bem uma coisa, essa coisa se tornasse boa. E tudo aquilo que ele falou sobre mentira, ele vai falar agora aqui sobre o bem. Por exemplo, quem conhece o bem tem maior poder de ação, porque pode agir em qualquer direção, pro bem e pro mal, da mesma forma que aquele que conhece a verdade é capaz de mentir. É isso que ele fala.
Mas calma, é que antes ele falou sobre verdade. Nesse ponto da discussão, ele fala tudo de novo, só que agora é o bem, não é mais a verdade: aquele que faz o mal de propósito só pode ser aquele que sabe o que é o bem. Quem sabe o que é o bem só pode ser superior ao que não sabe. Ou seja, parece realmente que o Sócrates aqui está misturando habilidade com moralidade. E eu só não consegui entender aqui se ele estava dizendo isso porque está fazendo uma redução ao absurdo, querendo provar um ponto, ou se ele está fazendo isso só para contrariar o Hípias, porque ele faz isso em todos os diálogos que eu li, ou se ele realmente está achando isso aqui neste ponto. Porque o Sócrates também tem um pouco disso: mesmo quando ele fala "ah, mas eu também não sei", ele é cínico, né? A gente não pode esquecer que, o tempo inteiro, Sócrates é o cara mais cínico de todos ali. Então a gente nunca vai saber ao certo se ele está falando a verdade, se ele realmente está com dúvida, porque o tempo inteiro ele age assim.
Eu acho que essa questão da justiça, ele achar isso é algo que ele acredita que é verdade, mesmo sem querer que seja verdade, porque o Hípias e ele concordaram no termo do que é justiça. Parece que é algo consentido, e dessa visão consensual de justiça todas as outras coisas são geradas. O justo é o que é capaz de fazer; a capacidade é a justiça. Então, se a capacidade é a justiça, não há moralidade.
Aí, a próxima argumentação do Sócrates é mais ou menos assim: se uma pessoa despreparada faz algo não muito bem, ela faz mal feito não porque quer, mas porque não consegue fazer direito; então essa pessoa, como é refém de sua incapacidade, é inferior àquela pessoa que, mesmo sabendo fazer o bem, escolhe fazer o mal. Essa é a próxima discussão.
Esta parte aqui, cara, ela só me chamou a atenção na segunda leitura que eu fiz. E a minha conclusão temporária já foi outra nessa hora, porque eu pensei o seguinte: são mais perigosas ou inferiores aquelas pessoas que fazem o mal pensando que estão fazendo o bem? Foi isso que eu concluí na segunda leitura, porque aí me chamou a atenção essa parte. O Hípias, nesse ponto, vai discordar da conclusão do Sócrates de que a pessoa preparada para fazer o bem que escolhe fazer o mal é superior. O Hípias discorda, e o Sócrates novamente parece desconfortável, mas acha que a conclusão tem que ser essa a partir de tudo o que eles falaram até aí.
E aí volta inclusive a discussão da justiça com essa associação entre justiça e capacidade. Se a justiça é um tipo de capacidade ou um tipo de conhecimento, então a alma capaz ou com maior conhecimento seria mais justa também. Ou seja, me parece que aqui o Sócrates está sugerindo que o sábio — que é a palavra que ele sempre usa — seria mais justo, ainda que ele esteja falando sobre capacidade e conhecimento, que são coisas muito diferentes, mas ele faz essa associação no texto.
Tem um ponto sobre isso ter sido escrito por Platão, que acreditava no rei filósofo. Será que isso pode ser algo de Platão, ou ele injetou algo dele mesmo nessa questão? É difícil separar os pensamentos, hein? O pessoal tenta fazer uma divisão, até onde seria o pensamento de Sócrates e onde seria o de Platão, mas eu não confio nisso não. Teoricamente, o rei filósofo seria isso, o mais justo porque é o maior conhecedor. Sim, faz sentido. Ou seja, ele nunca abandonou essas ideias, então essa divisão que o pessoal tenta fazer não funciona mesmo.
Inclusive, no próximo diálogo que a gente vai ver — estamos chegando lá no final já —, é onde ele vai introduzir também pensamentos que são bem distintivos do raciocínio platônico, que são os universais, já encontrados aqui no *Hipias Menor*. Ele vai introduzir o assunto lá com vários exemplos, mas eu separei três frases do Sócrates para entrar no final, que são as conclusões dele. Lembrando que, para todas elas, o Hípias responde positivamente.
Ele fala assim, ó: "Se a melhor alma é a mais capaz, ao cometer uma injustiça, há de fazê-lo voluntariamente, enquanto o miserável a fará involuntariamente". Olha só o que ele está falando. Enfim, aí o Sócrates vai avançar, o Hípias concorda, e ele continua: "Logo, só o homem bom comete injustiças voluntariamente, e o mau comete as involuntariamente, se realmente é o homem bom que possui uma boa alma". E o Hípias fala: "Claro, é isso mesmo". "Da onde se conclui que aquele que voluntariamente erra e comete ações deshonrosas e injustas, se é que tal homem existe, não pode ser outro senão o homem bom". Aí o Hípias: "Não posso concordar com isso aí, cara".
Essa é a conclusão dele. E no final é interessante que nenhum dos dois concorda com nada, e saem dessa dialética sem encontrar a verdade. Quando eu terminei de ler, me veio à mente aquela passagem de Paulo em Romanos sobre a revelação natural, e como os homens não conseguem alcançar a verdade só com base nela. Parece ser essa a impossibilidade em que Sócrates bateu ali. Ele enxerga que existe um padrão, alguma coisa que ele consegue correlacionar, mas ele fica patinando, provavelmente por causa da cosmovisão. Você vê a estrago que faz uma cosmovisão ruim? O Sócrates não consegue raciocinar direito porque ele tem uma cosmovisão ruim.
Eu sempre acho muito interessante como Platão se mantém ao máximo nessa simulação do diálogo, não só pelas perguntas, mas por todo o contexto que ele inventa no início — que no caso aqui é a saída de Hípias de um showzinho —, e por todos esses detalhes da personalidade dos personagens, de coisas anteriores sobre quem é Hípias e o que aconteceu antes, e das coisas que vão acontecendo no próprio enredo. Ele sempre vai retomando coisas que ele colocou no próprio texto. Ou seja, é realmente uma peça ficcional, uma peça artística, ele está pensando no *storytelling*. Tem começo, meio e fim, apesar de as conclusões não finalizarem porcaria nenhuma.
Em algumas leituras que fiz antes, cheguei a achar que o Sócrates estava querendo dizer que os que sabem mais e mentem são os piores, sendo esse o caso dos sofistas. Eu fiquei tentando imaginar o que o Platão — esquece o Sócrates — estava fazendo ao colocar o mestre dele para brigar com um sofista. Por que com um sofista? Os que sabem mais e mentem são os piores porque esse é o caso dos sofistas. Só que depois eu percebi que eu não tinha como saber o que Sócrates afinal pensava dos sofistas. Será que ele achava que os sofistas sabiam a verdade e a ignoravam, ou será que eles não sabiam? Será que os sofistas falavam bobagens propositalmente ou não? Porque é isso que interessa para a nossa discussão. Só que, como o Sócrates não fala isso aqui — talvez fale em algum lugar, mas aqui não fala —, e como eu li poucas coisas, eu não sei.
Então, na última leitura que fiz, tive uma ideia em outro sentido, um pouco mais satisfatória para mim: o Sócrates estaria contra aquelas pessoas que queriam defender uma ideia independentemente de ela ser verdadeira ou não, independentemente de um compromisso com a busca pela verdade — que é o mote principal dos diálogos de Sócrates —, da verdade ou da sabedoria. Esse também seria o caso dos sofistas, daquelas pessoas que estão lá sem compromisso nenhum com a verdade, pensando apenas em ganhar dinheiro com uma retórica bonita. Mas, nesse caso, essa solução independe de eles fazerem isso de forma voluntária ou involuntária. Essa foi a última conclusão a que cheguei.
O Alfredo chegou a comentar o seguinte — não aqui nos comentários, mas ele tinha falado isso aqui, deixa eu pôr na tela: "Este diálogo mostra que quem é mais capaz de usar a lógica também é mais capaz de enganar". Isso aqui é a única coisa que se conclui com certa segurança do diálogo todo. Agora, o resto que ele vai falando ali não dá, cara, porque é só falácia mesmo, ele vai confundindo as coisas. E Platão gosta de explorar essa tensão entre a retórica e a dialética, que é exatamente a discussão inicial do outro texto de hoje.