Oceanus
Às vezes pairo sobre a costa,
Onde abóbadas oceânicas despejam sua efluência,
E águas atribuladas gemem e guincham
Sobre segredos que não ousam falar.
De vales sem nome muito abaixo,
E colinas e planícies que nenhum homem pode conhecer,
As ondulações místicas e as marés soturnas
Sugerem, como taumaturgos malditos,
Mil horrores, plenos de pavor,
Que eras há muito esquecidas viram.
Ó ventos salgados, salgados, que lúgubres varrem
O profundo revolto e estéril:
Ó ondas selvagens e pálidas, que trazem à mente
O caos que a Terra deixou para trás:
De vós peço apenas uma coisa —
Deixai, deixai vossa antiga sabedoria desconhecida!
Nuvens
Ultimamente escalei uma altura solitária
E observei as nuvens traçadas pela lua em voo,
Cujas formas fantásticas cambaleavam e rodopiavam
Como gênios de um mundo espectral.
Tênues cirros velavam a cúpula prateada
E oscilavam como a espuma do oceano,
Enquanto formas de tipo mais escuro e pesado
Deslizavam velozes diante de um vento demoníaco.
Pareceu-me que os vapores revoltos assumiam
De vez em quando um aspecto temível,
Como se em meio à neblina e ao borrão
Marchassem figuras conhecidas e sinistras.
De oeste a leste as coisas avançavam —
Um cortejo zombeteiro que saltava e dançava
Como bacantes de mãos dadas
Em fila sem fim através de terras aéreas.
Murmúrios aéreos, vagamente ouvidos,
O conforto do meu espírito perturbaram
Com pensamentos hediondos, que me ordenavam ocultar
Minha visão da cena portentosa.
“Essas névoas fugazes”, diziam os murmúrios,
“São fantasmas de esperanças, negadas e mortas.”
Mãe Terra
Uma noite desviei pelas margens
De um vale profundo, silencioso e úmido,
Cujo ar estagnado possuía um miasma
And um frio que me deixavam doente e fraco.
As árvores frequentes por toda parte
Apareciam vagas como um bando de duendes macabros,
E galhos contra o céu que se estreitava
Tomavam formas que temia — eu não sabia o porquê.
Mais fundo mergulhei, e parecia tatear
Em busca de alguma coisa perdida como alegria ou esperança,
Ainda assim encontrei, apesar de todas as minhas buscas ali,
Nada além dos fantasmas do desespero.
As paredes se contraíam conforme eu avançava
Ainda mais na minha descnada louca,
Até que logo, desprovido de lua e estrelas,
Abaixei-me agachado dentro de uma fenda rochosa
Tão profunda e antiga que a pedra
Respirava coisas primordiais e desconhecidas.
Minhas mãos, tateantes, esforçavam-se para traçar
As feições da face do vale,
Quando em meio à penumbra pareciam encontrar
Um contorno aterrorizante para a minha mente.
Nenhuma forma que meus olhos estafados,
Pudessem ver, conseguiria reconhecer;
Pois o que toquei evocava um dia
Antigo demais para o domínio fugaz do homem.
Os líquens aderentes, úmidos e grisalhos
Proibiam-me de ler a história antiga;
Mas água oculta, gotejando baixa,
Sussurrava as histórias que eu não deveria saber.
“Mortal, efêmero e ousado,
Por piedade guarda o que te contei,
Ainda assim pensa às vezes no que tem sido,
E nas visões que estas rochas em ruínas viram;
De senciência antiga antes que tua fraca prole
Aparecesse em menor magnitude,
E coisas vivas que ainda sobrevivem,
Embora não ao alcance da percepção humana.
EU SOU A VOZ DA MÃE TERRA,
DE ONDE TODOS OS HORRORES TÊM SEU NASCIMENTO.”