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A acusação brutal na tragédia de Sófocles

A Brutal Acusação em Édipo Rei, de Sófocles

Na tragédia *Édipo Rei*, Sófocles opta por realizar um recorte bastante específico da mitologia tebana, deixando de fora os acontecimentos prévios e posteriores que envolvem o protagonista. A peça foca diretamente na crise que assola Tebas e na investigação sobre o assassinato do antigo monarca, o rei Laio. É a partir dessa busca obstinada pela verdade que se constrói um dos confrontos mais intensos e brutais de todo o teatro grego.

Assim como ocorre em *Prometeu Acorrentado*, de Ésquilo — em que a ausência de determinados antecedentes míticos quase dá a impressão de estarmos diante de uma versão inventada —, Sófocles também seleciona rigorosamente o que põe em cena. Ele não narra toda a trajetória de Édipo, embora a história se desdobre naquilo que se convencionou chamar de trilogia tebana, composta por *Édipo Rei*, *Édipo em Colono* e *Antígona*, esta última nomeada em homenagem à filha do protagonista.

Em *Édipo Rei*, o espectador recebe apenas a informação pontual de que o protagonista herdou o trono e a viúva de Laio após a morte misteriosa do rei, tornando-se ele próprio o soberano da cidade. É por outras fontes da tradição clássica que conhecemos os eventos intermediários: após a morte de Laio, surgiu a Esfinge — uma criatura alada, com corpo de leoa —, que, instruída pelas Musas, postou-se às portas de Tebas. Ela propunha enigmas aos viajantes e devorava qualquer um incapaz de decifrá-los. Diante da mortandade e do desespero, Creonte, irmão da rainha viúva, prometeu o governo da pólis e a mão de sua irmã àquele que livrasse a cidade do monstro. Ao passar errante por Tebas, Édipo decifrou o enigma e assumiu a coroa. Nada desse episódio, contudo, é detalhado no texto de Sófocles, onde a Esfinge figura apenas em menções passageiras.

Para pôr fim à peste que agora recai sobre Tebas, Édipo precisa descobrir o autor do regicídio de Laio. A conselho de Creonte, manda chamar Tirésias, o mais célebre dos adivinhos gregos, famoso por sua cegueira física e clarividência profética. Assim que entra no palácio, desenrola-se uma cena singular: a primeira atitude do profeta é suplicar que o rei o mande de volta para casa, advertindo que manter o silêncio seria a melhor escolha. Ele afirma que revelar a identidade do assassino acarretará a ruína tanto de Édipo quanto a dele próprio.

O rei insiste com veemência, mas Tirésias mantém-se inabalável em sua recusa, desafiando a cólera real e as ameaças de punição. Diante da postura inflexível do adivinho, Édipo perde a paciência e conclui que o profeta só pode ter participado da trama do crime: se recusa a denunciar o culpado, é porque agiu no mínimo como cúmplice, se não como o próprio mandante da morte de Laio.

Provocado e jurado de castigo, Tirésias perde a contenção e dispara a acusação de forma direta: exige que Édipo cumpra as sentenças que prometera aplicar ao homicida, pois o assassino que ele procura é ele mesmo. Trata-se de uma revelação demolidora, reminiscente do confronto bíblico entre o profeta Natã e o rei Davi, quando o homem santo aponta o dedo ao soberano e declara a sua culpa inescusável.

Diante do choque, Édipo enfurece-se e desqualifica a revelação como parte de uma conspiração urdida entre Tirésias e Creonte — afinal, fora Creonte quem sugerira consultar o profeta e encarregara-se de conduzi-lo até o palácio. Para Édipo, trata-se de um golpe destinado a usurpar-lhe a coroa. O adivinho sustenta a afirmação, insistindo que a maldição na qual o rei se enredou é infinitamente pior do que ele imagina. Enquanto Édipo multiplica insultos contra a sua condição de cego, Tirésias responde com questionamentos que delineiam a tragédia iminente: ironiza que o soberano, embora desfrute da luz dos olhos, não enxerga a própria desgraça. Pergunta-lhe se tem real conhecimento de quem é, com quem divide o leito, quem foram seus pais e se compreende que se tornou o pior inimigo dos seus. Conclui profetizando que ele será banido de Tebas pela maldição conjunta de seu pai e de sua mãe.

Tomado pela indignação, Édipo o expulsa, tachando-o de louco e tolo. Antes de partir, contudo, Tirésias deixa um último enigma no ar: afirma que os progenitores de Édipo não o julgavam tolo. A menção atordoa o rei, que pergunta a quem ele se refere quando fala de seus pais. Em vez de responder de forma direta, o adivinho pronuncia um oráculo terrível sobre o destino do regicida: o homem procurado vive entre os tebanos sob a aparência de um estrangeiro, mas logo se comprovará cidadão nato da cidade. Descobrirá ser pai e irmão de seus próprios filhos, filho e marido da mesma mulher, e o violador do leito do próprio pai, a quem ele mesmo assassinou. Proferidas essas palavras sombrias, Tirésias retira-se.

Na sequência dramática, Creonte aparece diante do povo, indignado após tomar conhecimento de que o cunhado o acusara publicamente de traição e conluio com o profeta para tomar o poder. Édipo sai do palácio para confrontá-lo, e os dois iniciam uma discussão ríspida sobre o sentido das palavras de Tirésias. Enquanto o rei age movido pela cólera desmedida, Creonte responde de forma ponderada e altiva.

O diálogo atinge seu ápice em uma questão de filosofia política que antecipa o conceito de desobediência civil — o dever de resistir a ordens ilegítimas emanadas pelo Estado. Quando Édipo exige submissão absoluta e declara que, seja como for, ele deve ser obedecido, Creonte retruca de imediato: "Não se ordenares o que não for justo". A tragédia grega expressa aqui uma dimensão cívica marcante, bem mais incisiva do que a encontrada na poesia de Hesíodo ou nos épicos de Homero, expondo os limites morais do poder antes que a contenda seja interrompida pela chegada da rainha Jocasta.