Nesta discussão sobre os diálogos platônicos, um grupo de leitores analisa as concepções de arte e beleza debatidas pelos filósofos gregos, refletindo sobre as origens históricas da estética e a validade dos argumentos utilitaristas encontrados nos textos.
Você acha que seus discursos são belos, mas nem sabe dizer o que é o belo, né? Aí acaba com a patada do Sócrates na cara dele. Mas para finalizar com chave de ouro, tem uma coisa de que dei muita risada, que é a última definição de belo. Ele fala que o belo é você vencer a argumentação no tribunal e safar os seus amigos. O belo é você articular um argumento bem e belamente no tribunal e, logrando persuasão, sair levando não os menores, mas os seus maiores prêmios: a própria segurança, bem como a de seus bens e amigos. O belo é livrar seus amigos da cadeia.
Tudo começa com o Sócrates respondendo admiravelmente, e eles acham tudo muito inteligente. Aí o Sócrates faz um testão. Acho que isso daí foi um bom gatilho para se produzir um conceito melhor do que temos atualmente do que é o belo e do que é a arte. Hoje em dia nós temos um conceito melhor do que arte, e eu acho que partiu de coisas da Grécia mesmo, desse diálogo de Sócrates com Hípias e vários outros filósofos. Vejo isso como uma coisa positiva no sentido da continuidade histórica, entende? O que essa discussão trouxe de benéfico para a história do mundo foi produzir novas formas de compreender o que é o belo, na tentativa de buscar os melhores métodos para se compreender verdadeiramente o que é o belo e o que é a arte. Vejo isso como um ponto positivo em toda essa discussão, por mais que existam sofismas durante todo esse processo.
Eu achava isso também, inclusive isso fortalece a minha ideia de que é mais fácil começar a ler filosofia do início. As ideias no começo não são tão complexas nem perto de como são hoje; você vai vendo como as coisas vão se construindo em cima e vão virando esse monstro.
Bom, gente, e quais são as considerações finais de vocês? Eu achei uma discussão interessante, cara, por mais que tenha discordâncias e erros. Achei interessante ler porque fico raciocinando comigo mesmo sobre como resolver essas questões, ou se a forma — porque eles focam muito na eficiência, né, no que é útil — é por aí. E aí eu penso: será que é por essas vias que se deve seguir? Acho que eles estão indo por uma via que não é a da arte ou do belo, na verdade. Acho que as vias são outras.
E o que você diz aí, Antônio? Pô, eu gostei, velho. Achei muito engraçado e achei muito estranha a forma com que o Hípias foi retratado; me bateu muita curiosidade de saber quem era o verdadeiro Hípias. Mas achei muito massa parar para pensar na época e ver essas discussões surgindo lá atrás, com o pessoal fazendo análise literária e prosseguindo o assunto a partir disso, mesmo que a gente não concorde com as coisas.
É porque era mais ou menos isso que o Hípias estava fazendo com os personagens da Ilíada e da Odisseia, né? Começa uma discussão ali dizendo que a Ilíada era superior à Odisseia em termos de nobreza, por causa da forma como esses personagens eram retratados. Isso estava no discurso do Hípias de alguma forma. Então eles estão falando ali sobre construção de personagem, estão falando sobre estética, sobre as impressões que esse tipo de construção de personagem causa no leitor, inclusive discordando disso, o que é bem interessante.
Lembrando que, nas lives passadas em que pegamos o Aristófanes, ele era um baita crítico do Sócrates, chamando-o de sofista. Então não era como se o Sócrates tivesse vindo para detonar os sofistas como se ninguém entendesse que eles eram um bando de… Não, cara, o Aristófanes critica o Sócrates chamando-o de sofista. E eu tive essa exata sensação lendo o primeiro diálogo aqui, que é o *Hípias Menor*. Claro que ele está ali na dialética, mas existe uma retórica ali, e uma retórica meio idiota. Eu não consegui engolir aquele papo do Sócrates de jeito nenhum; ele está cometendo algumas falácias meio infantis.
Claro, muito disso pode ser um tanto anacrônico, dependendo da proposta do Platão, como a gente vê nesse diálogo sobre o belo. Claro que o Platão tinha mais a oferecer do que isso, então alguém podia dizer que o texto é introdutório. Tudo bem, e até pela questão de ser um dos primeiros textos, talvez o Platão estivesse ainda no começo da carreira dele. Vamos nos próximos diálogos se a gente vai ter essa mesma sensação. Eu não senti isso lendo *O Banquete*, que eu gostei de ler, e a *Apologia de Sócrates* é bem interessante também, com uma construção literária muito boa. Eu esperava um pouco mais, embora a construção literária desses dois diálogos também seja muito boa. Platão era um bom escritor e sabia fazer a parada, só as ideias que estão meio difíceis ali. Mas tá bom, muito obrigado.