Laureado
É fácil ser sentimental sobre o tema do “espírito americano” — o que ele é, pode ser ou deveria ser. Os defensores de várias teorias políticas e sociais inovadoras são particularmente dados a essa prática, quase sempre concluindo que o “verdadeiro americanismo” nada mais é do que uma aplicação nacional de suas respectivas doutrinas individuais.
Observadores um pouco menos superficiais chegam ao princípio abstrato da “Liberdade” como a nota tônica do americanismo, interpretando esse princípio justamente estimado como qualquer coisa, desde o bolchevismo até o direito de beber cerveja de 2,75%. “Oportunidade” é outra palavra de ordem favorita, e que certamente não carece de significado real. A sinonímia entre “América” e “oportunidade” foi inculcada em muitas mentes jovens da presente geração por Emerson, via “Leading Facts of American History” de Montgomery. Mas é digno de nota que quase todos os aspirantes a definidores do “americanismo” falham devido à sua relutância preconceituosa em rastrear tal qualidade até sua fonte europeia. Eles não conseguem conceber que a abiogênese seja tão rara no reino das ideias quanto o é no reino da vida orgânica; e, consequentemente, desperdiçam seus esforços ao tentar tratar a América como se fosse um fenômeno isolado, desprovido de ancestralidade.
O “americanismo” é o anglo-saxonismo expandido. É o espírito da Inglaterra, transplantado para um solo de vasto alcance e diversidade, e nutrido por algum tempo sob condições pioneiras calculadas para incrementar seus aspectos democráticos sem prejudicar suas virtudes fundamentais. É o espírito da verdade, da honra, da justiça, da moralidade, da moderação, do individualismo, da liberdade conservadora, da magnanimidade, da tolerância, da iniciativa, da laboriosidade e do progresso — que é a Inglaterra — acrescido do elemento de igualdade e oportunidade proporcionado pelo assentamento pioneiro. É a expressão da mais alta raça do mundo sob as mais favoráveis condições sociais, políticas e geográficas. Aqueles que se esforçam para apequenar a importância de nossa ancestralidade britânica são convidados a considerar as outras nações deste continente. Todas elas são igualmente “americanas” em todos os aspectos, diferindo apenas na linhagem racial e na herança; contudo, dentre todas, nenhuma, exceto o Canadá britânico, sequer suporta comparação conosco. Somos grandes porque fazemos parte da grande esfera cultural anglo-saxônica; uma fração desgarrada apenas após um século e meio de forte colonização e domínio inglês, que conferiu à nossa terra o selo indelével da civilização britânica.
O mais perigoso e falacioso dos vários equívocos sobre o americanismo é o do chamado “caldeirão de raças” e tradições. É verdade que este país tem recebido um vasto influxo de imigrantes não ingleses que vêm para cá desfrutar, sem agruras, das liberdades que nossos ancestrais britânicos conquistaram com suor e sangue derramado. Também é verdade que aqueles dentre eles que pertencem às raças teutônicas e célticas são capazes de assimilação ao nosso tipo inglês e de se tornarem aquisições valiosas para a população. Mas, disso não se segue que uma mistura de sangue ou ideias genuinamente alienígenas tenha realizado ou possa realizar algo além de danos. A observação da Europa nos mostra o status relativo e a capacidade das várias raças, e constatamos que a fusão de ouro inglês com latão estrangeiro dificilmente produzirá qualquer liga superior ou mesmo igual ao ouro original. A imigração talvez não possa ser totalmente cortada, mas deve ficar entendido que os estrangeiros que escolhem a América como residência devem aceitar a língua e a cultura vigentes como suas próprias; e nem tentar modificar nossas instituições, nem manter vivas as suas próprias em nosso meio. Não devemos, como declarou o maior homem de nossa era, permitir que esta nação se torne uma “pensão poliglota”.
O maior inimigo do americanismo racional é a aversão à nossa nação de origem que impera entre os ignorantes e fanáticos, mantida viva em grande parte por certos elementos da população que parecem considerar os sentimentos do sul e do oeste da Irlanda mais importantes do que os dos Estados Unidos. Apesar do fato evidente de que uma Irlanda separada enfraqueceria a civilização e ameaçaria a paz mundial ao introduzir uma cunha hostil e pouco confiável entre as duas principais partes da Saxônia, esses elementos irresponsáveis continuam a encorajas a rebelião na Ilha Esmeralda; e, ao fazê-lo, tendem a colocar esta nação em uma posição angustiantemente anômala como cúmplice de crimes e sedição contra a Pátria-Mãe. É repugnante além das palavras as honrarias públicas prestadas a criminosos políticos como Edward, alcunhado Eamonn, de Valera, cuja própria presença solta entre nós constitui um afronto à nossa dignidade e à nossa herança. Jamais poderemos apreciar ou mesmo compreender plenamente o nosso próprio lugar e missão no mundo até que consigamos banir essas nuvens de mal-entendido que flutuam entre nós e a fonte de nossa cultura.
Mas as características do americanismo peculiares a este continente não devem ser diminuídas. Na abolição de linhas de classes fixas e rígidas, dá-se um avanço sociológico distinto, permitindo um recrutamento constante e progressivo das camadas superiores a partir do corpo fresco e vigoroso do povo abaixo. Assim, oportunidades da mais alta ordem aguardam a todo e qualquer cidadão, enquanto a qualidade biológica das classes cultas é aprimorada pela cessação daquela endogamia restrita que caracteriza a aristocracia europeia.
A separação total entre os assuntos civis e religiosos, o maior avanço político e intelectual desde o Renascimento, é também um triunfo local americano — e mais particularmente de Rhode Island. Agências trabalham hoje sutilmente para minar este princípio e nos impor, por meio de influências políticas tortuosas, as correntes papais que Henrique VIII primeiro arrancou de nossos membros; correntes que não eram sentidas desde o reinado sanguinário de Maria, e infinitamente piores do que a maquinaria eclesiástica que Roger Williams rejeitou. Mas, quando a relação vital entre a liberdade intelectual e o genuíno americanismo estiver plenamente impressa no povo, é provável que tais correntes subterrâneas e sinistras diminuam.
A principal luta que aguarda o americanismo não é contra a reação, mas contra o radicalismo. Nossa era é de iconoclastia inquieta e mal orientada, e abunda em sofistas astutos que usam o nome “americanismo” para encobrir ataques à própria instituição. Termos e frases tão familiares como “democracia”, “liberdade” ou “liberdade de expressão” estão sendo distorcidos para encobrir as mais desenfreadas formas de anarquia, enquanto nossas velhas instituições representativas são atacadas como “não americanas” por imigrantes estrangeiros que são incapazes tanto de compreendê-las quanto de conceber algo melhor.
Este país se beneficiaria de uma prática mais ampla de um americanismo sólido, com o seu concomitante reconhecimento de uma origem anglo-saxônica. O americanismo implica liberdade, progresso e independência; mas não implica a rejeição do passado, nem a renúncia de tradições e experiências. Encaremos o termo em seu significado real, prático e isento de sentimentalismos.