(Um Desastre Pseudo-Poético Ocasionado pelo Recente Período de Frio.)
Ó rajadas invernais, que em meu caixilho uivais,
E amontoais a pálida neve demônia em covas e ais;
Ó geadas cruéis, que entorpeceis com hálito peçonhento
Um mundo em sofrimento, servindo à morte a contento:
Como eu bem poderia (se a Sorte assim o quisesse)
Vencer vossos terrores, zombando de vossa messe!
Concedei-me, ó deuses, uma cúpula de vidro e cristal,
Cuja vastidão supere dez vezes o Panteão e seu portal,
Em cuja superfície o sol e as estrelas possam arder,
Enquanto a salvo, raios artificiais venham me aquecer:
Que isso confine meu jardim e minha cabana ao abrigo,
Livres do ar gélido e do sopro maligno e antigo;
Aqui eu habitaria, cantando em pleno dezembro enfim
Em meio a zéfiros brandos de uma primavera sem fim!
Que delícias caras, que doce graça arcádia,
Um tal recanto conteria em sua própria nádia!
Por prados musgosos um córrego límpido correria,
Com suas vagas reluzindo à luz do meio-dia;
Seu curso reduzido a trechos de puro encanto
Por pequenas cascatas, de artifício e pranto;
E ágeis trutas nas ondas a brincar no fosso,
Enquanto o verde rolante ostenta um corte de gozo,
Bancos maleáveis balançando à margem do rio,
E aves incontáveis alegrando o ar bravio;
Aos seus notes suaves, uma fonte a destilar
Acordes eufônicos enquanto os bosques vão ceder e orar.
Em lagos azulados, onde a maré mansa se move,
cisnes penugentos planam na majestade que chove;
Lírios abundantes enfeitam cada pequeno mar,
E ervas cheirosas brotam na planície a meditar.
Em gramados em terraço, que sobem com ordem e esmero,
Flores raras enchem os vasos postos no outeiro;
Recantos solitários convidam o pastor cansado,
E caramanchões curiosos deixam entrar um verde amado.
Um coreto de veraneio, à moda helênica moldado,
Bem poderia ofertar uma sombra de mármore e agrado;
Colunas coríntias sustentam o teto alado e puro,
Igualando o acanto que brota do solo escuro.
Aqui a mente estudiosa em paz se abriria,
Sem sentir as dores que afligem a terra fria;
Aqui a Musa, a salvo da tormenta que ruge,
Em perpétua primavera dísticos melodiosos produz;
Graças e Ninfas, uma bela comitiva etérea,
Com Faunos e Sátiros brincam na campina séria;
Enquanto o Pã de junco, e a corte das Náiades atenta,
Em fontes sombrias e riachos se apresenta.
Endimião aqui sonharia em plena beatitude
Sob o brilho da lua amada, de cândida atitude;
E Melibeu suas tenras cabras cuidaria,
Ou soaria a flauta rústica com mais doce harmonia;
Tírsiso e Dâmon, o abençoado Coridon,
Poderiam repetir seus cantos com mais forte dom;
E Estréfon, para o cabelo dourado de sua Clóe,
Prepararia uma grinalda de flores que o campo adoe.
Damotas, grisalho pelos anos, sua juventude outra vez
Num reino de primavera reaveria com altivez;
Nem mortal algum, ninfa, fauno ou divindade,
Resistiria aos encantos desta bendita claridade.
Mas eis que — ai de mim — o belo quadro desvanece —
E campos de gelo tomam o lugar da rama que floresce!
A cena idílica, deixada para trás tão veloz,
Não passa de um fantasma fugaz que ecoa após;
Contudo, quando a vida recompensa ou traz prazer
Com coisas mais reais que visões como este ver?
Nossos anos de luta têm pouca ventura e luz
Se à alegria genuína se restringem a cruz;
Cabe à Fantasia ampliar o alento e a folia,
E encher nossos dias de devaneios de magia;
Com o canto dórico banir o mal mais pungente,
E levar-nos ao bosque donde brota a fonte:
Embora estações mudem sobre o prado e o vento,
A primavera reina perpétua no alegre firmamento!