Com a possível exceção da gíria e do *vers libre*, o crime literário mais pernicioso desta época instável é a tentativa de destruição da ortografia padrão do inglês por parte de fanáticos autodenominados reformadores. Nos dias mais jovens da nossa linguagem, cada homem era sua própria autoridade ortográfica. Não apenas as obras de diferentes autores eram marcadas por grafias dissemelhantes, como um escritor frequentemente variava seu uso dentro dos limites de uma única frase, assinando até mesmo o próprio nome conforme o capricho do momento ditava. Os maus efeitos de tal sistema são óbvios, e basta olharmos para os primeiros documentos coloniais da Nova Inglaterra para perceber quão confuso ele era.
Mas a civilização crescente, agindo como um freio aos caprichos dos indivíduos, evoluiu gradualmente para uma ortografia aproximadamente uniforme, que se encontrava bem estabelecida pelas obras dos escritores augustanos exatos e polidos, e fixada com razoável definitividade pelo dicionário revolucionário do Dr. Johnson. Esse processo de ajuste não foi de modo algum abrupto, radical ou artificial; sendo uma mera seleção e perpetuação dos melhores modelos, com o abandono quase imperceptível das formas menos desejáveis. Dos benefícios dessa cristalização é quase desnecessário falar. O uso do inglês correto, agora tornado uniforme, espalhou-se com facilidade maravilhosa por todas as classes da sociedade, alcançando cada lar em nossas colônias norte-americanas por meio da famosa e antiga *New-England Primer*. O concurso de soletração surgiu como uma instituição ianque reconhecida, e o fazendeiro isolado atingiu um nível ortográfico igual ao de seu irmão urbano mais cultivado.
Outro lado, e menos racional, da situação, contudo, existia desde o reinado da Rainha Elizabeth. Sir Thomas Smith, Secretário de Estado daquela monarca esplêndida, apresentou um plano radical e artificial de ortografia fonética que desafiava todas as leis do conservadorismo e do crescimento natural. Parte de seu sistema exigia novos caracteres alfabéticos que não podem ser exibidos aqui, mas como espécimes os seguintes podem ser dados: priesthood, “prestud”; name, “nam”; glory, “glori”; shame, “zam”.
Depois que a Inglaterra cessou de rir dos preceitos excêntricos de Sir Thomas, surgiu um professor célebre, um certo Dr. Gill, que se tornou ainda mais ridículo em seus desvios do bom gosto. Algumas de suas poucas inovações que podem ser soletradas com letras comuns são: gracious, “grasius”; seem, “sjm”; love, “luv”; cannot, “kanot”!
Em 1634, o Sr. Charles Butler publicou um tratado sobre abelhas no qual exibia um modo caprichoso de soletrar que havia inventado, e que se aproximava, embora mal igualasse, das loucuras de Smith e Gill.
Durante o reinado de Charles I houve uma tendência fonética que irrompeu em formas como “erth” para earth, “dais” para days, e afins. Logo depois disso, o Bispo Wilkins apresentou uma ortografia “ideal”; que, contudo, ele teve o discernimento de saber que o público jamais adotaria.
Há na biblioteca do autor uma edição dos poemas de Erasmus Darwin, impressa em Nova York em 1805, e contendo um sistema novo de representação da elisão de vogais em versos. Unmark’d é aqui soletrado “unmade”; parch’d, “parcht”; touch’d, “toucht”; lock’d, “lockt”, e assim por diante. Contudo, apesar de todas essas tentativas de perturbar o desenvolvimento normal de nossa ortografia, nenhuma mudança radical foi até agora seriamente aceita ou considerada.
Mas a presente era é eminentemente de tolice e radicalismo. Os pecados métricos dos “poetas” contemporâneos são graves e múltiplos; as atrocidades coloquiais do prosador são, se é que algo, ainda mais numerosas e abomináveis. Pela primeira vez na história nossa ortografia corre o perigo de uma destruição deliberada que, se bem-sucedida, obliterará toda a uniformidade natural da ortografia e nos precipitará três séculos para trás, num estado em cujo seio dois homens quaisquer não conseguem soletrar do mesmo modo. Cada fanático “reformador” particular tem seu grau favorito de mudança; e, a menos que as formas convencionais sejam guardadas com a mais alta assiduidade, alcançaremos, pela derrubada artificial de nossa linguagem, um caos igual ao da época de Chaucer. A etimologia, esse auxílio inestimável para a expressão precisa, seria extirpada, caso os caprichos modernos entrassem em uso.
Até agora, apenas a América parece contaminada pela propaganda insidiosa dos “reformadores da ortografia”, mas a Velha Inglaterra possui alguns exemplos muito ridículos e corre perigo iminente. De maneira sumamente ofensiva, o mal aparece em certas associações de imprensa amadora, cujo pessoal, majoritariamente jovem, cai como presa fácil de novas falácias. Enquanto alguns não se aventuram mais fundo no vício do que escrever “thru”, “tho” e “thoro” em vez de through, though e thorough, outros exibem sintomas mais sérios e estão sujeitos a cometer os piores excessos da ortografia pervertida. Não há críticos sensatos o bastante no meio amador para conduzir uma campanha sistemática, tanto por exemplo quanto por preceito, contra a ortografia “simplificada”? Sabe-se que a maioria do elemento letrado opõe-se à prática perniciosa, e a maioria dos escritores do meio livre abstém-se dela de maneira louvável; mas em outras associações ela grassa descontrolada e desenfreada. Sugere-se aqui respeitosamente que aqueles editores que, embora usando a ortografia normal eles próprios, ainda assim imprimem contribuições “simplificadas” sem emendas, tomem uma posição definitiva em prol da pureza de sua língua pátria, revisando todo o material recebido para as formas autorizadas de Webster, Worcester ou Stormonth.
O radicalismo de hoje logo se tornará apenas uma memória, e a presente geração de poetas livres, defensores da paz, excêntricos socialistas, usuários de gíria, grafistas simplificados e afins, olhará para trás com rubores por sua antiga tolice. Não é melhor, então, auxiliar na extinção da faísca que, se não for contida, poderá perturbar seriamente nossa precisão e uniformidade etimológica e ortográfica? A influência individual é tênue entre nós, mas um esforço concertado para salvar o meio amador de usos corruptos pode ser sentido mesmo fora dos limites do nosso pequeno mundo.