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Refutação à Poética Sartreana ••• Panda

Refutação à Poética Sartreana: Análise e Crítica • Panda

A discussão em torno do terceiro capítulo de *O Que é Literatura?*, de Jean-Paul Sartre, especificamente na seção intitulada "Para quem escrevemos?", revela um ponto crucial sobre o impacto da escrita na sociedade. Enquanto a literatura da práxis, associada aos romances engajados da época, atua de forma contundente — comparável a um tsunami que colide frontalmente contra a grande estrutura da má-fé generalizada para abalá-la em sua totalidade —, obras menores muitas vezes operam de maneira quase imperceptível, como a água do mar que desgasta lentamente uma rocha. O objetivo do engajamento político e literário defendido por Sartre e Simone de Beauvoir era justamente confrontar essa recusa sistemática em encarar a verdade. No entanto, a rigidez da tese sartreana sofre abalos severos quando se examinam as fronteiras entre poesia e prosa, revelando as contradições da própria taxonomia proposta pelo filósofo.

Para Sartre, a literatura em prosa utiliza a linguagem como instrumento de comunicação e ação, enquanto a poesia estaria no polo oposto: nela, o escritor se rende passivamente às palavras, permitindo que elas o utilizem para gerar efeitos estéticos sonoros e visuais, abdicando da intervenção direta no real. Contudo, essa dicotomia desmorona diante de evidências históricas e literárias. O *Poema sobre o Desastre de Lisboa*, de Voltaire, autor citado pelo próprio Sartre, é um exemplo cabal de poesia altamente retórica. Longe de ser apenas um exercício estético descompromissado, o poema utiliza métrica rigorosa, como o verso alexandrino, e musicalidade para confrontar o leitor, questionar a teodiceia e incitá-lo a refletir sobre a dor humana e as crenças dogmáticas. Trata-se de uma poesia que provoca mudanças e mobiliza a imaginação rumo a uma tomada de consciência, contrariando a premissa de que o verso é incapaz de engajamento intelectual ou prático.

Essa porosidade entre os gêneros também se manifesta na existência da prosa poética e dos poemas em prosa, formatos que desafiam a separação estanque entre a função utilitária da prosa e a função ornamental da poesia. O pioneirismo de Aloysius Bertrand em *Gaspard da Nuit* introduz narrativas em prosa marcadas por densas figuras de linguagem e pela personificação extrema de conceitos abstratos, ultrapassando os limites da tradicional alegoria ao tratar ideias como se fossem entidades físicas autônomas. Essa mesma vertente inspira Charles Baudelaire em *O Spleen de Paris*, cujos poemas em prosa — a começar pelo diálogo enigmático de "O Estrangeiro" — misturam a liberdade formal da prosa com a atmosfera densa, melancólica e sugestiva típica da grande poesia.

O colapso da tese sartreana torna-se ainda mais evidente quando se analisa o surrealismo literário francês. Em *Nadja*, André Breton emprega o método do automatismo psíquico desenfreado, escrevendo um romance inteiro guiado pelo fluxo imediato do pensamento, sem os filtros convencionais da construção narrativa tradicional, mas mantendo-se estruturado em prosa. Essa obra demonstra que é perfeitamente possível produzir uma escrita caudalosa, caótica e profundamente poética sem recorrer à métrica ou à versificação. Ao fim e ao cabo, a coexistência de poesias profundamente retóricas e de prosas intensamente poéticas invalida a rigidez da oposição formulada por Sartre, atestando que a força transformadora da literatura não reside na escolha formal entre verso e prosa, mas na capacidade irredutível da palavra de tocar, perturbar e transformar o leitor.