O criador de conteúdo conhecido como Panda continua sua série de vídeos reagindo às análises de Débora Luciano sobre os escritos de G. K. Chesterton. Nesta etapa, ele questiona a interpretação de que o personagem Gregor Samsa, de *A Metamorfose* de Franz Kafka, já vivia de forma monótona como um inseto antes de sua transformação, além de debater as ideias de causalidade e a romantização do absurdo defendidas no material.
Ovo e galinha são ao menos tão distantes quanto o urso e o príncipe, já que nenhum ovo sugere por si mesmo uma galinha, enquanto alguns contos sugerem ursos. Afinal, Gregor Samsa já não estava vivendo a sua vida tão no automático quanto o inseto vive? Então assim, ela meio que já sugere que ele se transformaria em certo, certo?
Dado, vamos lá, né? Ela voltou mais para a história um pouquinho, né? Ela, claro, ainda falando do Chesterton, tomando apoio na ortodoxia do Chesterton ainda, mas é que ela voltou um pouco mais para a obra, né? Eh, sobre o Gregor Samsa, sobre ele, né? Sobre não ser esperado que ele virasse um inseto, porque ele já vivia como inseto.
Vamos com calma, né? Porque a gente só descobre essas informações depois dele virar inseto, né? Então ele virou um inseto, ele acordou transformado em inseto, e depois você descobre as informações, né, sobre a vida profissional dele. Então não faria muito sentido você já esperar, você abrir o livro e ele virou um inseto. Claro que ele virou um inseto, ah, porque isso, isso, isso. Pô, mas isso aqui tá nas páginas seguintes, pô! É o que tu leu antes, o livro? Tu conhecia a história antes, né? Porque aí é diferente, né? Eu li esse livro aqui a primeira vez há sete anos atrás. Eu abri ali e falei: "Caraca, o cara virou um inseto, bicho! Eu nem sei quem é esse cara, e a primeira coisa que eu sei dele é que ele teve sonhos intranquilos, né? Teve pesadelo, sei lá, algo assim, e ele acordou, virou um inseto, velho". Falei: "Caraca, meu irmão! Depois que eu fui ver sobre a vida dele, né?".
Então já começa errado por aí, né? Você tá usando partes posteriores do livro, não tão distante, né? Nas 20 páginas seguintes você já tem isso, cara, cinco páginas seguintes você já tem isso aí, né? Mas essas informações vêm depois.
Segunda coisa: ainda que essas informações viessem antes, não, ele não vivia a vida no automático, bicho. A vida dele justamente é uma correria, ele é um caixeiro-viajante. Você acha que um caixeiro-viajante faz o que da vida, velho? Vou te falar, uma vida no automático, a vida com previsibilidade, vida mais tranquila, a minha é. Porque a minha vida ela é isso aqui, ó, era isso aqui, era isso aqui, a minha vida é isso aqui, ó, é isso aqui, a minha vida é isso aqui, é isso aqui. Eu vou ter que botar tudo isso no lugar depois, é isso aqui, entendeu? É isso aqui, é isso aqui, é isso aqui, ó, isso aqui também, entendeu? É isso aqui também que eu comprei ontem, mas isso aqui é a minha vida.
Eu passo os dias lendo. Nos últimos dois anos, a vida mais previsível do mundo é a minha. Todo mundo sabe o que que eu vou fazer todo dia, todo mundo sabe, todo mundo que me conhece sabe o que que o Panda, o que que o Gabriel vai fazer hoje e amanhã: ele vai ler. Quando eu não ler, as coisas ficam estranhas, eu sumo de casa, sabe? Minha mãe chega aqui e ela não me vê lendo ou dormindo ali — porque eu dormi ali perto, né? Se ela não me vê dormindo na minha cama ali ou na cozinha ou em casa ou aqui lendo, ela fala: "Alguma coisa de errado não está certo, Gabriel não está lendo, isso é esquisito", entendeu? É uma coisa extraordinária, né?
Então, assim, depois eu arrumo isso aqui, né? Mas enfim, eh, a minha vida ela é previsível. Claro, né, que eu tenho que imaginar o que que eu vou falar, eu tenho que pensar bastante, tenho que ver, pô, o que que eu vou falar nos vídeos, enfim, como é que eu vou trazer um conteúdo bom para o pessoal do canal, blá, blá, blá, blá, blá, blá. Claro, eu tenho preocupações como todo mundo, mas assim, não é tipo "o que que eu vou fazer hoje?", não é tipo "eu estou sem ideias, eu vou ler alguns livros interessantes". Eu tenho um bilhão de clássicos aqui na estante, né? Eu vou ler eles, eu vou achar alguma coisa interessante, né, ou eu vou tentar lembrar de alguma coisa que eu já li e talvez releia para, né, falar uma coisa interessante.
A minha vida vai mais no automático, mais próximo do que eu acredito que ela está dizendo que é o automático, do que a do Gregor Samsa. Ele é um caixeiro-viajante, ele não para quieto no lugar, pô! Ele tá acostumado a dormir e acordar em lugares diferentes todo santo dia. Ele é um caixeiro, meu irmão, que vida, cara! Ele tem a vida mais próxima de um aventureiro que você pode imaginar, pô. Ele é tipo um fotógrafo, sabe, de top models, ele viaja o mundo assim, conhece um monte de gente, indo para países que ele nem sabe falar a língua, entendeu? Tipo, ele é uma outra parada, pô! A vida dele é tudo menos tranquila, tudo menos como a vida de um inseto, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo. E eu nem sei se a vida de um inseto é tranquila, tá, tá? Porque talvez a vida de um inseto realmente não seja tranquila, mas ela tá dizendo que a vida dele é monótona como a de um inseto. Eu não sei se a vida do inseto é monótona, eu não sei, não vou dizer que a vida do inseto é monótona, tá? Não sei se é, mas monótona a vida dele não é, não, tá? Se for por essa razão, não é. E talvez, talvez dos insetos também não sejam monótonas, né? Mas aí, enfim, aí já são outros quinhentos.
Eh, eu acho que eu organizei certinho aqui, né? Acho que tá, tá certinho, sim. Enfim, show. E vamos lá. Ele fala nas páginas seguintes, né, ele vai dizer que ele ia pra empresa todo dia, lá conseguia chegar na hora, enfim, mas que tinha uma correria, que tinha que trabalhar para caralho, que tinha que penar, era difícil, enfim, era complicado fazer. Então isso não parece ser uma vida tranquila, entendeu? Eh, pensa você aí, não sei se você que tá aí tem emprego, mas pensa no teu emprego. O seu emprego, tudo bem que ele pode te preocupar, todo mundo fica preocupado com emprego, imagina, a maior parte das pessoas devem ficar preocupadas com trabalho, com alguma coisa assim em algum nível, né? Mas assim, você acorda e você pensa: "Caraca, véi! Caraca, não sei o que que vai ter no meu trabalho, não sei se vai dar certo, não sei, velho, caraca, tipo, eu não sei, tipo, é muito imprevisível".
Tem empregos que são assim. Eu já tive emprego assim, já tive trabalho assim que eu não sabia o que que era no dia seguinte. Não sei se vocês sabem, eu trabalhei um tempo para o Myorin do A Linguagem, e todo dia as coisas mudavam, velho. É muita aventura, tipo, a gente, eu não sei o que que eu vou fazer no dia seguinte, cara, não tenho ideia, tá ligado? Então é assim, não é todo mundo que tem trabalho assim, velho. E um caixeiro-viajante definitivamente é assim, cara, um caixeiro-viajante é assim para caralho, eu acho que é pior do que como eu era, velho.
Então não, o Gregor Samsa não tem uma vida tranquilinha, não, beleza? E eu acho que dá tempo de continuar assim mais um pouquinho, vamos lá, né?
"Então que algumas transformações realmente acontecem é essencial que as consideremos ao modo filosófico dos contos de fada e não ao modo pouco filosófico das ciências e das leis naturais. Quando nos for questionado o porquê dos ovos se tornarem pássaros ou das frutas caírem no outono, devemos responder exatamente como a fada madrinha responderia se Cinderela perguntasse o porquê dos ratos se transformarem em cavalos ou de sua roupa de princesa desaparecer à meia-noite: devemos responder que é magia."
Enfim, eu posso ficar lendo aqui esse capítulo, cara. Eu gostei disso, eu realmente gostei disso aí, tá? Eu gostei disso aí para caralho, velho. Da próxima vez que eu cometer um erro ou algo assim, alguém me acusar que eu cometi erro, né, e eu falar "pô, realmente eu tava errado", a pessoa: "Mas por que que você fez isso?", eu falar: "Cara, é magia". Eu vou adorar. Lucas, da próxima vez que tu vir me perguntando por que eu penso alguma coisa de alguma coisa, ou por que que eu fiz alguma coisa, porque eu disse alguma coisa, porque você perguntar qualquer coisa ligada à causalidade sobre mim, eu vou falar: "É magia, amigo, vocês se virem com a magia, você que vai se virar com a magia", beleza?
Muito bom, cara. Não devemos — né, que ela tá lendo o texto ali, né — pô, não devemos responder as perguntas da vida, o porquê das coisas, com as com a com as respostas rasas dos homens de ciência, do, enfim, né, coisa e tal, né, dos homens letrados acadêmicos, nós devemos responder como os personagens de conto de fadas: "É magia, rapaz!".
Caraca, que resposta profunda! É magia! É isso, a grande resposta é essa mesmo? Eu te pergunto por que alguma coisa aconteceu, você fala: "É magia!". Você acha isso profundo? Caraca, que esquisito, véi! Que negócio… isso é profundo? Magia? Isso é… É magia, porra!
Eu não sei mais o que que é profundidade, não. Eu acho que eu perdi a noção, eu literalmente perdi a noção do que que é profundidade. Não é noção da profundidade, é o que que é profundidade? Não sei mais o que que é o que que é profundidade, o que que é profundidade? Será que a Débora, quando ela, né, quando alguém faz uma coisa ruim com ela, ela fala: "Por que que você fez isso?". Será que essa pessoa fala: "É magia, Débora, é magia"? Essa ideia surgiu na minha cabeça, mas por quê? "Você não pensou?" "Não pensei, porra, você é idiota? Não é magia, magia, você não tá entendendo, tudo é magia, tudo é magia, tudo é mágico".
E outra coisa, né? Se vocês viram os vídeos anteriores, o que eu vou falar agora faz sentido, tá? No que ela diz, né? E ela devia se admirar com isso, né? É realmente o *amor fati* do Nietzsche, né? Eu acho que nenhuma ideia chega mais próxima do *amor fati* do Nietzsche do que isso aí, né? Que é o amar todas as tudo o que acontece, tudo em absoluto. É o desafio do Schopenhauer. O Schopenhauer faz faz esse desafio, né? Ele fala que a vida só é suportável, todo o sofrimento e o todo o sofrimento e as alegrias esfumaçantes, né? As alegrias que vão como fumaça, que surgem e são fascinantes e desaparecem tão rápido e volta aquele sofrimento, né, que é o contínuo da vida pro Schopenhauer era isso, né? O sofrimento, né? Enfim, e como pros budistas também, né, a dor é o absoluto da vida, né?
E ele diz que essa vida só é suportável e só dá para de fato ter uma alegria genuína se alguém abraçar tudo o que acontece na realidade. Só um doido para abraçar isso. O Nietzsche, aluno de Schopenhauer e crítico dele também — aluno, tá, gente? É aluno, ele leu Schopenhauer, mas que se ele teve aula com Schopenhauer, eu acho que não, se eu não me engano ele não teve, não, Schopenhauer já tava morto quando o Nietzsche estava lendo sobre ele, né, lendo os livros dele, no caso.
E o Nietzsche vira, né, e fala: "Eu abraço, né, eu abraço tudo, *amor fati*, pronto, eu abraço tudo o que aconteceu, né? Eu quero que tudo se dê exatamente como se dá, eu quero que o que se dará se dê como se dará, eu quero que o que se deu se dê de novo, eu quero tudo de novo, exato, se tudo puder acontecer do mesmo jeito de novo infinitamente, eu quero que aconteça do mesmo jeito de novo infinitamente".
É você olhar para uma cena de uma criança sendo abusada por um adulto e você falar: "Eu adoro, eu quero isso de novo". Eu te dou poder aqui, né? De "imagine que eu consigo te dar, que eu tenho o poder de te dar o poder de mudar alguma coisa no passado, no seu passado, no passado da humanidade, não interessa, não interessa, não interessa, no teu passado, nos outros, alguma coisa que você não fez, que você deixou de fazer, né, ou que você fez e que você queria que fosse diferente, né?".
É você olhar para isso e estar diante desse poder, desse poder real, e você falar: "Não, eu quero tudo exatamente como aconteceu, eu quero que tudo o que aconteça seja exatamente como tá acontecendo". Tem crianças, sabe, passando fome em algum lugar do mundo, eu quero que elas passem fome, exatamente, se elas saírem da fome, eu quero que elas saiam da fome, se elas morrerem de maneira… eu quero que elas morram de maneira terrível, eu quero exatamente o que acontece, o que o mundo me dá, o que os fatos me dão, eu abraço com todo o meu amor, né?
Essa ideia de que se maravilhar com tudo o que acontece, né, que é a ideia da Débora, não é do Chesterton — do Chesterton se maravilhar com tudo aquilo que é ordinário, né? As coisas que são extraordinárias, ele se maravilha menos, pode se maravilhar, mas menos. Esse é o que ele acha que deve ser feito. Para a Débora, não, para a Débora, na distorção que ela fez, né, isso eu explorei nos últimos dois vídeos, né, se você não sabe o que eu tô falando, volta lá, para ela, tem que se maravilhar com tudo. Então, por que não se maravilhar com as coisas mais terríveis da vida, né? Eh, enfim, quem garante que as coisas não vão melhorar, né? Quem… enfim.
E eu vou ficando por aqui. O próximo vídeo, né, o de amanhã, que é o de sexta-feira, eu acho que vai ser o último, né? Eu acredito que vai ser o último, sim. E bora, né? Eu vou amanhã continuar exatamente do ponto em que eu pausei esse vídeo aqui, e eu imagino que a gente fecha aqui esse capítulo, né? E aí já na semana que vem, já na nessa próxima live agora, nesse domingo agora — domingo não, nesse sábado agora, perdão —, nesse sábado agora e na semana que vem já é outro assunto, outra parada, né? Já é outra coisa, né? Vamos lá, vou fechar o vídeo aqui e até mais, até o próximo vídeo.