O terror cósmico pode ser compreendido com profundidade quando o comparamos à estrutura da tragédia clássica, seja ela grega ou a francesa do século XVII. Em ambas as formas narrativas, a narrativa opera sob a dinâmica de que, independentemente da escolha do protagonista, o desfecho será catastrófico, resumindo-se ao dilema de que, se o indivíduo corre, o bicho pega, e se fica, o bicho come. Contudo, a natureza dessa inevitabilidade e os motivos que levam os personagens a esse destino divergem fundamentalmente entre os dois gêneros.
Na tragédia clássica, o conflito central orbita em torno de um crime cometido pelo protagonista. Esses heróis trágicos, frequentemente figuras nobres, aristocráticas ou intelectualmente superiores dotadas de grande capacidade de agência e auxílio de servos, cometem transgressões graves movidos por paixões intensas como amor, ódio, raiva ou desespero, buscando um fim legítimo ou compreensível através de meios terríveis. O enredo trágico impõe uma punição implacável: se o protagonista cruza os limites morais, ele é severamente punido; se ele se abstém, perece tragicamente, como ilustram os destinos de Fedra na obra de Racine — que caminha para um estado de inércia depressiva comparável ao banzo antes de sucumbir ao veneno — e de Prometeu na dramaturgia de Ésquilo, cujas boas intenções para com a humanidade o levam ao suplício eterno nas rochas, preso entre a dor física e o peso de um segredo guardado.
Em contrapartida, o terror cósmico abdica do crime moral e da motivação estritamente passional. Enquanto a tragédia é essencialmente passional, o terror cósmico constitui o equivalente intelectual da tragédia. Nele, os personagens não rompem limites morais por paixão, mas buscam compreender o desconhecido movidos pela curiosidade e pela investigação intelectual. Exemplos claros disso manifestam-se em *Um Sussurro na Escuridão*, de H.P. Lovecraft, onde investigar as entidades misteriosas atrai a perdição imediata, enquanto a omissão conduz inexoravelmente ao mesmo fim trágico, e no conto *A Biblioteca de Babel*, de Jorge Luis Borges, onde o narrador habita um universo infinito e incompreensível no qual a busca por limites e respostas conduz à loucura e ao suicídio, enquanto a apatia tampouco oferece salvação. No terror cósmico, a sanha investigativa e a experimentação substituem o crime passional, transformando a busca racional por respostas na própria força motriz da ruína humana.