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Como compreender dois movimentos literários a partir de um chapéu! ••• Panda

Realismo vs Naturalismo: Compreenda com um Chapéu!

Neste vídeo, o autor utiliza uma análise comparativa entre as obras de Gustave Flaubert e Émile Zola para discutir as distinções fundamentais entre o realismo literário e o naturalismo, dialogando com as teorias estéticas de György Lukács. A partir de um exemplo simples envolvendo a descrição de um chapéu, o texto explora como cada movimento literário enxerga e retrata o mundo e o ser humano.

Ontem eu falei de Flaubert, falei de *Madame Bovary*, e hoje vou falar também, como prometi, de uma parte disso, de um pequeno pedacinho. Na verdade, vou usar *Madame Bovary* como um exemplo comparativo. Na estética de Lukács — cujos tomos não estão aqui na estante porque os aluguei, já que cada um custa 36 euros e eu estava (e ainda estou) sem dinheiro para isso, mas se quiser mandar dinheiro pelo Pix ou de alguma maneira para eu comprar a estética de Lukács e reler, fique à vontade —, ele é um grande defensor do realismo literário. Lukács tem uma tese que chama de "O Triunfo do Realismo". Aqui eu estou modificando uma ideia dele, usando a mesma premissa, mas com exemplos diferentes, porque acho que os exemplos que ele usa não são tão bons assim.

Segundo Lukács, o naturalismo e o realismo são opostos; eles não são irmãos congêneres em que um é o exagero, a continuação ou o aprimoramento do outro. Para ele, são estéticas opostas, e eu consigo entender e pensar a mesma coisa, mesmo que os exemplos entre mim e ele mudem levemente. O Lukács diz o seguinte — na verdade, isso sou eu que digo, porque estou modificando a ideia dele, então não vou creditar a ele integralmente. A gente consegue ver isso comparando a obra de Zola com a de Flaubert, mais especificamente o início de *Madame Bovary*. *Incipit* é o começo de uma história; *incipit* significa "aqui começa" em latim. Embora se escreva *incipit*, o 'c' em latim é sempre pronunciado com som de 'k', não importa se vem seguido de 'i' ou 'e'.

Quando Émile Zola, o pai do naturalismo francês, descreve um chapéu, ele o faz porque na superfície desse chapéu encontra-se a cor preta, na sua forma encontra-se a figura de um cilindro, e dentro dele está o material usado para fabricá-lo. Ele está falando de uma cartola, detalhando nos mínimos detalhes a cor, a forma e o material. Já quando Flaubert fala de um chapéu, ele faz isso porque o pequeno Charles Bovary está embaixo daquele chapéu. Ao descrever aquele amontoado de trapos amalgamados e costurados de maneira caótica e asquerosa, Flaubert mostra como aquilo se assemelha à maneira como Charles conduz a própria vida, sem sequer se dar conta. A pobreza daquele chapéu que Charles usa é um reflexo do que o próprio Charles é.

Portanto, quando o Zola vai falar do chapéu, debaixo daquele chapéu tem o próprio chapéu — com suas propriedades, cor, forma e processo de fabricação. Para o Zola, o chapéu é o objeto em si. Para o Flaubert, debaixo do chapéu tem alguém, tem um homem, um ser humano, uma alma vivente. O que eu quero explicar com isso, inspirado pelo que Lukács defende, é que o realismo é antropocêntrico. Por mais que descreva em minúcias as diversas coisas prosaicas que existem no mundo, o realismo sempre mira no homem. Ele tenta dizer: "Olha, isso aqui reflete o ser humano; este é um mundo feito de espelhos". Os realistas não perdem tempo descrevendo aquilo que não remete ao ser humano, que não seja um reflexo da alma humana, dos costumes, dos modos de pensamento ou da vida do homem.

Já os naturalistas descrevem o mundo pelo mundo, seja isso interessante ou não para o leitor. Se por acaso isso se conecta com o homem, beleza; se não, tudo bem. Porém, aqui eu faço uma leve defesa de Zola. Embora ele faça essas descrições gratuitas — do mundo pelo mundo —, eu o defendo em relação a Lukács. Zola muitas vezes descreve muito melhor do que Flaubert, Balzac e outros escritores realistas os detalhes do meio que refletem a superfície e a profundidade dos personagens, inclusive de vários deles ao mesmo tempo, até de secundários, de uma forma extremamente interessante.

Para quem ficou curioso — embora eu não tenha tempo de aprofundar agora —, recomendo o primeiro capítulo de *A Fortuna dos Rougon*, o volume inicial da saga dos Rougon-Macquart. É o momento em que Silvère e Miette, o jovem casal, saem do cemitério de Saint-Mittre e andam por um beco qualquer que tem saída. Ali está uma das descrições mais substanciais, belas, importantes e interessantes que já li na vida. Não tenho tempo de explicar agora, mas é muito fácil de entender; não há uma ideia oculta por trás, é aquilo ali mesmo. Leia aquilo e você verá quão magnífico é, mesmo sendo de um autor e de um livro naturalistas.

Embora Flaubert tenha me impactado bastante, eu nunca vi nem nele nem em Balzac — e olha que não li tudo deles, assim como não li tudo de Zola — uma descrição que chegasse perto dessa do Zola.

Lembrei agora de algo muito interessante conectado a essa maneira que Zola tem de descrever as coisas. Era um vídeo que eu queria fazer, mas não estava planejando gravar justamente agora, e vou fazer para amanhã. Vocês vão ver que tem a ver com descrições gratuitas. Será que dá para fazer um livro ou toda uma poética que gire em torno de descrições gratuitas? Será que tem algo de interessante nisso? Bem, vocês vão ter que descobrir no próximo vídeo. Para isso, inscreva-se aí, ative o sininho, deixe o joinha, comente o que achou e aguarde, porque amanhã tem mais. Até mais!