Embora o vídeo parta de reflexões literárias sobre autores clássicos e sua relação com a filosofia, o foco central da discussão acaba recaindo sobre o conceito real de amor platônico a partir da leitura das obras de Platão.
No vídeo passado falei de Proust, mas no final mencionei um outro escritor que, embora eu não tenha lido tanto quanto Proust, acabou mudando a minha visão sobre algo. Esse escritor é o próprio Platão. Vocês devem pensar que vou começar a falar de filosofia, da Caverna de Platão ou das três partes da alma, mas não vou falar nada disso. Vou falar de um detalhe que considero que passa despercebido, algo que nunca vi ninguém dizendo, mas que ficou muito claro para mim após algumas leituras.
O livro que li primeiro não foi por ser o mais antigo ou o mais importante, mas simplesmente porque esta edição é organizada em ordem alfabética. O responsável pelo prefácio é o Luc Brisson — que organizou tudo —, e ele apresenta a ordem cronológica das obras, mas decidiu ordená-las alfabeticamente, o que achei sensacional porque facilita muito para encarar. O primeiro texto que li foi o *Alcibíades I*, um dos textos canônicos de Platão. Não vou explicar o texto em si, embora não seja difícil, porque quero focar em um detalhe que não deveria passar despercebido.
Platão era um filósofo que rompeu com a literatura — ele escrevia peças de teatro e estava indo para a dramaturgia, mas acabou se tornando aluno de Sócrates, converteu-se à filosofia e abandonou seus trabalhos anteriores. No entanto, é inegável que o diálogo platônico mantém uma forma muito próxima da escrita dramatúrgica, do teatro, da literatura e da arte. No *Alcibíades I*, vemos o personagem de Sócrates chegando direto para Alcibíades, um jovem nobre e aspirante a rei de Atenas, confessando que o ama e que vive o seguindo por aí. Alcibíades provavelmente já sabia disso, mas não dava muita atenção a Sócrates porque este era velho e feio, enquanto Alcibíades, jovem e rodeado de rapazes bonitos, não via motivo para perder tempo com ele.
Sócrates, então, diz o seguinte: eu sei de tudo isso, mas acredito que o verdadeiro amor não é sobre coisas carnais — esse é o amor mais baixo que existe. O verdadeiro amor, o amor de filósofo, busca contribuir para a purificação e a edificação da alma da pessoa amada. Em meio a um diálogo sobre a justiça, Sócrates afirma algo paradoxal — no sentido etimológico antigo, ou seja, contrário à opinião comum (*doxa*) —, dizendo que a justiça é sempre útil e que quem age de maneira justa sempre se dá bem. Alcibíades fica confuso, e Sócrates passa a demonstrar isso. Se vocês quiserem que eu explique essa demonstração, deixem nos comentários: se houver dez pessoas diferentes pedindo, eu explico no vídeo da próxima terça-feira.
Após a demonstração de Sócrates, Alcibíades fica encantado e diz que vai à assembleia defender a justiça. Sócrates fica muito feliz. Alcibíades não lhe dá um beijo nem declara amor; na verdade, parece completamente indiferente ao amor romântico de Sócrates, mas fica muito agradecido, alegre e renovado, muito mais elevado do que no início.
É aí que eu pensei: este é o amor platônico. Tudo bem que temos *O Banquete*, que é um diálogo formidável sobre o amor, mas este aqui é o verdadeiro amor platônico. O que sempre me contaram — e que me fazia achar que Platão não era tão inteligente ou interessante assim — era a ideia de que amor platônico seria olhar para uma jovem ou um jovem da sua idade, achar a pessoa linda, sonhar em dar beijinhos e fazer outras coisas mais. Mas não, esse é o amor imaginário, espetacular — e "espetacular" não no bom sentido, como expliquei na live sobre *A Revolução dos Bichos* de George Orwell. Esse é o amor de imagem, um amor que é sombra e não substância.
Isso não tem nada a ver com o amor de Platão. O amor platônico é puramente substancial e inteiramente independente de reciprocidade. Você não precisa ser correspondido para continuar amando; você ama a tal ponto que, ainda que seja impossível ou improvável realizar qualquer sonho carnal com a pessoa, o seu amor é tão grande que se contenta em edificar o outro. Para Platão, edificar o outro significava fazê-lo entender coisas profundas, como o fato de que a justiça sempre resulta em um bem útil, agradável e verdadeiro para quem a pratica. Mais uma vez: se quiserem que eu explique essa ideia da justiça, deixem pelo menos dez comentários até a próxima terça-feira.
Essa concepção de amor me lembrou uma outra obra, que fala mais diretamente sobre o assunto, mas cujos aspectos centrais muitas vezes tentam ser reduzidos a outras coisas pelas análises tangenciais que fazem dela. No vídeo de amanhã, vocês verão meu comentário sobre essa obra. Não vou contar a história nem fazer um resumo da intriga, pois há vários resumos na internet e o livro em si tem pouco mais de 300 páginas, podendo ser lido em uma semana ou menos, sem pressa. É um livro que me marcou profundamente, lido por mim em francês original antes de voltar para o Brasil e recentemente após voltar para a França. É uma obra que aborda o amor de uma maneira diferente da que estamos acostumados — e que já era diferente para a sua própria época. As pessoas tentam fingir que não é um livro sobre amor, que é uma obra contra o amor romântico, mas eu defendo que é, sim, um livro sobre amor.
Que livro é esse, por que acredito nisso e o que me faz pensar assim? Isso você vai descobrir amanhã. Inscreva-se, deixe o like, comente, ative o sininho, e amanhã tem mais vídeos para revelar do que estou falando. Até mais!