Ao refletir sobre como a literatura tradicional frequentemente coloca a humanidade no centro de tudo, vale a pena explorar movimentos radicais que tentaram subverter essa lógica, a começar pelo enigmático *Nouveau Roman* francês.
No vídeo anterior, eu fiz a distinção sobre como Émile Zola descreve as coisas em comparação com Gustave Flaubert. Defendi Zola — não contra Flaubert, de quem também gosto muito, mas contra Georg Lukács, que tem um asco profundo por Zola e o reprova bastante. Falei de uma descrição que Zola faz que, sim, é gratuita, mas acaba sendo antropocêntrica, girando em torno do homem e da humanidade. No entanto, é tão gratuita quanto as outras. Só que pensei: eu gosto das descrições gratuitas do Zola. Será que tem como um livro ser totalmente sobre isso?
Bem, tem um carinha que chama Alain Robbe-Grillet, que é o grande expoente do *Nouveau Roman*. Não é que o *Nouveau Roman* inteiro seja sobre isso, mas a obra de Robbe-Grillet é exatamente sobre isso. O nome desse cara é muito francês, Alain Robbe-Grillet é o mais próximo que você vai conseguir de aportuguesar. Eu tenho dois livros dele aqui que já li, são bem curtinhos, romances com menos de 200 páginas: um se chama *O Ciúme* e o outro se chama *A Goma* (que na verdade é uma borracha, não uma goma de mascar). Nessas obras, ele faz descrições totalmente gratuitas do cenário. Claro, ele fala dos personagens, o que está acontecendo; tem uma trama, uma intriga, uma historinha até interessante e normal. Sabe, o cara que está com suspeita de a mulher o trair, ou o outro que tem que fazer uma entrega de um produto que pode ser tanto algo normal quanto drogas. A história é ok, normal, legal, tem intriga um pouquinho, mas há um monte de descrições sobre o cenário que não têm conexão nenhuma com a trama ou com os personagens. Não servem nem para caracterizar os personagens nem para mover a trama, e você se pergunta o que isso pode significar e como isso pode mudar nosso olhar sobre as coisas.
Olha que interessante: eu descobri Alain Robbe-Grillet por meio de Roland Barthes. Eu primeiro li sobre Robbe-Grillet nos *Ensaios Reunidos* de Barthes, cuja obra completa está ali na outra estante. Havia ali uns três ou quatro artigos que não estavam em sequência, mas acabei lendo o livro todo e encontrei coisas muito instigantes sobre o que Barthes dizia. E talvez fosse isso o que Robbe-Grillet queria fazer: mostrar que o homem está tão alienado que também está alienado do seu meio, de modo que os objetos ao seu redor não têm significado, não se conectam com ele, e o máximo que conseguem espelhar no homem é a sua total gratuidade e alienação. Seria isso, pensei.
Só que, quando fui ler Robbe-Grillet de fato, percebi que não há ali nenhuma simpatia do ambiente pelo personagem. Muitas vezes, nos realistas e naturalistas, quando alguém está triste, o ambiente é meio escuro, chove, faz frio, é inverno ou há silêncio; parece que o ambiente próximo está sentindo simpatia pelo personagem, entristecendo-se com ele ou refletindo seus estados de alma. Em Robbe-Grillet, o caso não é esse. O ambiente está ali por si só, parecendo belo em sua própria existência. O interessante é que ele contrapõe os grandes e pequenos problemas dos personagens a essas descrições gratuitas do ambiente, gerando uma sensação intensa de que os problemas dessas pessoas simplesmente não são nada. É uma literatura que consegue apequenar o homem a ponto de tornar suas situações quase pífias diante da imensidão e da extensão do cenário ao redor.
Ele não descreve cada detalhe miúdo, mas diz, por exemplo, que há um jardim, descrevendo as plantas que mexem com o vento de forma simples. Ele não diz se são belas, sublimes, feias ou melancólicas; não usa adjetivos valorativos. Ele fala: a planta é rosa, mexe aqui, tem um inseto ali. Há uma alternância entre a historinha da intriga e essas descrições rápidas de uma página ou página e meia. Seguindo esse ritmo, você vai se interessando pelo ambiente — que é o cenário de uma intriga que também te interessa —, mas percebe a efemeridade do ordinário e do extraordinário humano diante da aparente eternidade das coisas. O mundo está ali, funcionando perfeitamente, e não há nada que o homem possa fazer para mudar substancialmente isso. O homem vem e vai, mas o mundo continua gigante, extenso, detalhado. Ainda que não tenha profundidade, segredos ocultos ou emoções manifestas, é como se o mundo fosse magnífico por si só, independentemente de significado ou justificativa.
É quase como um olhar amoroso e amorfo, o olhar para as coisas exatamente como elas são e desejá-las exatamente assim. Imagino que Robbe-Grillet não estivesse querendo passar mensagem nenhuma; ele só queria escrever uma história em que há uma intriga e personagens cujos nomes muitas vezes nem sabemos (às vezes são apenas uma letra, como K). Ele tenta diminuir os personagens, tornando-os superfícies lisas que fazem coisas normais. Ele substitui a descrição do homem pela descrição do mundo. Enquanto o romantismo tenta descrever o homem de forma absoluta, quase renegando o ambiente, e o realismo o descreve com o auxílio do ambiente, e o naturalismo parece descrever o ambiente com o auxílio do homem, o *Nouveau Roman* faz o oposto de tudo isso na outra ponta: descreve o ambiente sem auxílio de nenhuma descrição do homem, como se o ser humano fosse apenas mais uma daquelas coisas que compõem o cenário. Os objetos e as pessoas são opacos, descritos apenas em sua superfície total.
Enfim, lembro que amanhã teremos uma live sobre *O Curioso Caso de Benjamin Button*, uma história um tanto diferente do *Nouveau Roman*, que talvez possamos encaixar em um realismo quase mágico (gênero que quero abordar mais aqui no canal em breve). Inscrevam-se, ativem o sininho, deixem o like e comentem aqui embaixo se querem um vídeo dedicado a explicar o que é o *Nouveau Roman* na próxima sexta-feira (precisamos de 10 comentários de pessoas diferentes para o vídeo acontecer, mas farei o esforço de qualquer forma). Muito obrigado, espero ter ajudado, e vejo vocês na live de amanhã sobre a obra de F. Scott Fitzgerald. Valeu e até mais!