Neste trecho de uma madrugada de estudos, o autor reflete sobre a teoria estética de Platão e aponta o que considera uma contradição fundamental na forma como o filósofo grego define a literatura e a mímese.
O Platão vai dizer que a mímese é imitação, mas ele define como se dá essa imitação. Existem três tipos de poetas, três tipos de poesia, três tipos de autores e obras de arte. O tipo de obra de arte que ele tolera na *pólis*, que ele acha que deve ser tolerada e vangloriada mesmo, é a poesia tirânica, a literatura tirânica, a literatura que não tem imitação. Como assim? É uma literatura em que o autor não finge falar em nome de alguém e não tenta imitar essa pessoa através de sua aparência ou da modulação de sua voz. A poesia mista é o que mistura essas duas coisas. E a outra coisa, que é justamente a mímese, é o autor (ou algum cúmplice do autor, atores no caso) imitarem alguém, ficcional ou não, através de sua aparência ou da modulação de sua voz. Tipo, imagina que eu tentei vestir uma roupa como a do Lucas, cortei o bigode, deixei só a barba aqui embaixo, cortei um pouquinho o cabelo para ficar bem calvo, cortei meus cachos e falo: "É o que, rapaz? O que é isso, Panda?" Essa modulação de voz, um travestir da minha aparência para aparecer com ele, isso é mímese. Mímese é isso para o Platão.
Para provar isso, fui buscar na internet o texto em grego do livro três da *República* para ver se era isso mesmo. É isso mesmo. O trecho diz: "Ora, conformar a si mesmo a um outro, seja pela voz, seja pela aparência externa, é imitar aquele a quem a gente se conforma, não é?". E o outro responde: "Sem dúvida". Então, fazer isso é mímese. É o ato de imitar pela modulação da voz ou da aparência externa, é falar como se fosse alguém, travestir a própria voz e a própria aparência externa. Só que aí tem um problema, amigo, porque ele tá falando do poeta, da pessoa que escreve, e na escrita você não tem imitação. Pense o seguinte: digamos que o Lucas me manda uma mensagem escrita com algo que ele disse para a esposa dele, e eu decorei. Se alguém me pergunta com quem eu estava falando, e eu repito exatamente a mesma frase segundo as definições do Platão, para eu mimetizar isso eu teria que imitar pela voz, pela aparência ou com ambos. Eu ia pegar o que o Lucas falou, mandar um áudio ou ligar para a pessoa e tentar imitá-lo.
Por exemplo, se o que ele falou para a esposa dele foi: "Queria eu ter olhos de lua para destilar a minha luz na noite dos teus cabelos" (acabei de inventar isso), e eu viro para a pessoa e ligo dizendo: "Ah, cara, ele me disse que queria ter olhos de lua para destilar a luz dele na noite dos cabelos dela", isso não é mímese, porque estou contando indiretamente. O que o Platão diz que é mímese é eu imitá-lo diretamente. No teatro, o ator fala direto as falas do personagem; ele não diz "e aí o meu personagem disse tal coisa".
Beleza, só que na escrita isso não existe. Não existe isso na escrita. O que o Lucas me escreveu e o que eu escrevi não precisa nem copiar; se eu decorei e escrevi a mesma coisa, é exato. E o Platão, no diálogo do *Crátilo* — que é onde ele fala sobre linguagem —, diz através de Sócrates que toda imitação é imperfeita, porque uma imitação perfeita não é uma mímese, é a mesma coisa. Se eu conseguisse reproduzir exatamente a mesma aparência e a mesma voz do Lucas, eu não estou imitando, estou apresentando, estou repetindo. Uma repetição não é uma imitação. Se eu fosse um metamorfo com superpoderes na vida real e me transformasse fisicamente igualzinho ao Lucas, falando com a voz e os trejeitos exatos dele, isso não é imitação, é repetição, segundo o próprio Platão no *Crátilo*.
Ou seja, tem um problema. Se na escrita eu consigo fazer uma repetição perfeita — que deixa de ser mímese e vira repetição —, não existe mímese na escrita. Ou seja, a teoria do Platão de que toda arte repousa sobre a mímese… No caso da poesia do Homero, por exemplo, na *Odisseia*, do primeiro canto até mais ou menos o quinto é o narrador falando (o que o Platão diria que é o Homero falando), e do sexto canto para a frente é o Odisseu narrando. O Platão diria que é o Homero fingindo ser o Odisseu, é o Homero narrando fingindo que é o Odisseu. Só que o próprio Platão define que a imitação é pela voz ou pela aparência. O texto que o Homero escreveu não tem voz.
Vocês estão ouvindo alguma coisa aqui? Se eu escrever aqui "olhos de lua" e ficar quietinho, quero que vocês contem até 10 na cabeça de vocês e instalem os dedos quando ouvirem esse texto falar com vocês. Não é o que eu disse, não é a voz interior de vocês, é o texto. Vamos lá, começando agora… E aí, foi? Vocês ouviram? Não, né? Só texto. Vocês podem me ouvir falando "olhos de lua", mas não teve voz, não teve aparência, não tem ninguém se vestindo. Ou seja, a base da dicotomia que o Platão faz, a diferenciação e o distanciamento que ele faz entre a poesia tirânica, a poesia mista (que é a do Homero) e a poesia mimética (como a tragédia e a comédia), é inexistente. É inexistente por quê? Porque se na linguagem, na escrita, eu consigo passar exatamente o que foi dito ou escrito — claro que sem a voz da pessoa, mas com as palavras exatas ditas ou escritas —, isso é uma repetição na escrita, não é mímese, porque a mímese tem que ter voz ou aparência. Não tem voz e aparência aqui, é só escrita.
Quando estamos falando de personagem ficcional, não existe transcrição; é a própria criação. Se eu pego o que o Lucas falou ou o que o Napoleão falou e transcrevo exatamente o que ele disse, não é imitação, é uma transcrição perfeita, uma repetição. Agora, se estou escrevendo alguma coisa de alguém que nunca existiu, que nunca existiu na realidade, repetição do quê, meu amigo? Se já se mostrou que não é imitação, então não é imitação nem repetição. É o quê? É criação, é concretização, é constituição do próprio discurso. E é por isso que o Platão está errado em relação à literatura, fundamentalmente errado em relação à literatura — ele e o Aristóteles, mas o Aristóteles fica para outra hora, que é até mais fácil de explicar.