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Sócrates está errado se Sócrates estiver certo! ••• Panda

Paradoxo de Sócrates: Platão, Escrita e Poesia

Neste trecho, o autor reflete sobre as críticas de Platão à poesia e à escrita, explorando um aparente paradoxo na obra do filósofo grego.

O Platão trata dos poetas em vários livros, como na *República*, no *Íon* e nas *Leis*, abordando a arte, a poesia e a escrita, com foco especial em Homero. Segundo Platão, existem três tipos de composição literária: a poesia narrativa, em que o poeta fala em seu próprio nome; a poesia mimética, presente no teatro, na tragédia e na comédia, em que o poeta fala através da voz de outro personagem; e a poesia mista, que une narrativa e mimese. No diálogo *Crátilo*, Sócrates concorda que uma representação perfeita deixa de ser mímese e se torna uma replicação idêntica, a própria coisa em si. Platão não gostava dessa indecisão e da multiplicidade de opiniões conflitantes presentes na poesia, o que para ele submetia o mundo ficcional ao real e deixava o espectador perdido. No entanto, o mundo ficcional inspira-se no real, mas não se resume a ele.

Mais do que isso, surge um aparente paradoxo que chamo de o "paradoxo de Sócrates". No *Fedro*, Sócrates afirma que a escrita é ruim, uma bobeira que não consegue passar o essencial da fala. Diante disso, duas hipóteses se apresentam: ou a escrita passa somente o essencial da fala, descartando as contingências secundárias, o que tornaria a escrita superior à fala (afinal, por que contar com as contingências da oralidade se o essencial está registrado?); ou a escrita não consegue passar o essencial, transmitindo apenas o secundário.

Contudo, quem nos transmite essa crítica à escrita não é o Sócrates vivo, nem Platão, mas sim o Sócrates *escrito* — um personagem ficcional de um texto. Se levamos a sério o que esse personagem diz, temos uma contradição: um ente textual afirma que os textos não trazem o essencial. Se o que ele diz está certo e a escrita realmente não traz o essencial, então a própria mensagem dele falha e ele está errado. Por outro lado, se a escrita traz o essencial e nós compreendemos sua mensagem, então a premissa de que a escrita é falha cai por terra, tornando-o errado novamente. Em suma, seja porque a escrita funciona perfeitamente ou porque falha, a própria existência desse argumento escrito gera uma contradição interna.

Isso ainda não esgota a questão sobre a tese de Platão de que, por trás de todas as vozes dos personagens, quem fala é sempre o autor dissimulado. Deixei essa discussão mais aprofundada para um vídeo futuro, após ler uma indicação de livro enviada por um inscrito do canal chamado Johan, que me ajudou a debater o tema. Afinal, ironicamente, enquanto a escrita consegue condensar o essencial, a minha fala oral aqui acaba vindo carregada de contingências e elementos secundários. Mas é assim mesmo. Para encerrar, deixo um presente para vocês: vejam só quem está deitada no meu colo, essa cachorrinha fofíssima que não me deixa levantar. É isso, fiquem em paz, e até a próxima!