Neste trecho de uma transmissão ao vivo, discute-se como escrever contos mais profundos e complexos por meio de estruturas narrativas paralelas, adaptações de mitos clássicos e técnicas inspiradas em obras consagradas.
O conto pode ser muito mais profundo se, para além do arco principal, você inventar algo super complexo que faça parte da história de outra pessoa. É possível pensar em uma maneira de escrever contos estruturados com várias camadas já construídas — onde há uma outra história acontecendo que é muito mais importante do que a do protagonista —, mesmo sem passar pelo mesmo processo que o Lisboa passou. Existem jeitos fáceis e jeitos difíceis para fazer isso. O jeito difícil, caso você não tenha uma parada prévia escrita, é recorrer à literatura contemporânea ou dos últimos cem anos, como a literatura policial, com personagens que são, em sua maioria, bem previsíveis. O jeito fácil é pegar mitos de qualquer lugar e adaptá-los, sem precisar fazer uma cópia exata.
Por exemplo, digamos que você goste do mito de Hércules. Você não vai escrever estritamente sobre um homem que cumpre doze trabalhos, mas sobre alguém para quem armaram uma cilada, assim como fizeram com Hércules. Ele acaba cometendo um crime por causa dessa armação e precisa cumprir uma série de tarefas para se redimir. No entanto, quando ele finalmente está prestes a se redimir, armam para ele mais uma vez na última tarefa. Ele acaba se dando mal, mas não exatamente da maneira que planejaram. Ele se sente culpado, castiga a si mesmo, mas ainda assim é redimido, porque no momento em que poderia ter se safado, ele escolheu não fazer isso.
Toda essa é a história da redenção de Hércules. Você pode adaptar isso transformando o protagonista em alguém que teve que trabalhar para a máfia, para policiais corruptos ou em algo do gênero. Armam para ele, transformam-no em um peão, e quando armam de novo, tudo dá errado de outra forma. Ele se castiga e encontra a redenção. Como não estamos falando de mitos gregos literais, ele pode ser redimido no sentido de que aquilo que ele mais queria — mesmo após a morte — foi alcançado, ou ele foi visto como um grande herói e virou um símbolo para a sua comunidade.
Outra questão comum é como criar uma personagem feminina forte. Existe aquele desafio famoso na internet que propõe construir uma história em que uma mulher converse com outra sem falar de homem. Mas a verdadeira construção de uma personagem feminina forte não está em simplesmente dar a ela a força de um homem, mas sim em dotá-la de uma força equivalente, operando dentro das limitações de uma mulher — a menos que ela tenha magia, técnica avançada ou tecnologia.
Pense em Antígone. Por que as personagens da autora daquele desafio desapareceram com o tempo enquanto Antígone continua viva até hoje? Porque Antígone é uma jovem que luta pelos direitos dos mortos e, para provar sua convicção, aceita ser enterrada viva aos dezessete anos de idade. Isso demonstra uma força imensa. Se você quer trazer isso para uma ambientação mais atual, pode criar uma personagem feminina que lute, por exemplo, pelo perdão ou pela compra de dívidas privadas de pessoas da comunidade que seriam presas. Se ela decide assumir e pagar todas as dívidas daquele indivíduo — mesmo sabendo que ele tem um passado ruim e que a comunidade o rejeita —, ela enfrenta uma oposição feroz no tribunal. A punição que ela recebe é que a dívida é muito maior do que imaginava; ela perde a casa, a família a abandona e ela perde tudo o que tinha. Assim como Antígone, ela é, de certa forma, enterrada viva, mas aceita essa consequência pelo que está defendendo: o direito de se sacrificar pelo próximo. Ela sofre uma ruína financeira e moral perante a comunidade local, mas mantém uma força moral gigantesca porque agiu de acordo com princípios maiores de perdão e humanidade, aceitando o preço cobrado por esses valores.
Não é obrigatório usar mitos gregos, mas recorrer a mitos facilita porque os personagens que amamos costumam compartilhar traços fundamentais com essas figuras ancestrais. Quando falamos de um protagonista para quem armam ciladas e que é forçado a realizar trabalhos perigosos onde tudo dá errado no final, estamos descrevendo essencialmente a premissa de filmes como *John Wick*. Não é uma releitura literal de Hércules, mas há um claro paralelo estrutural. Antes de querer inventar algo totalmente do zero, é excelente aprender com o que já foi feito e que resistiu ao teste do tempo. A mitologia grega, romana, nórdica ou egípcia continua viva até hoje exatamente por isso.
Podemos observar uma dinâmica semelhante em *Os Simpsons*. Pelo menos até a décima temporada, os episódios frequentemente começavam com um enredo menor — um plot inicial com começo, meio e fim — que parecia não ter relação com o resto do episódio. No meio desse primeiro conflito, algo acontecia e servia de transição para o tema central do episódio. Por exemplo, se o objetivo era fazer um episódio em que o Homer vira prefeito, os roteiristas inventavam um plot menor envolvendo a Maggie tendo problemas com álcool; Homer tenta resolver isso, faz um discurso inspirador, alguém diz que ele seria um ótimo candidato, e assim ele acaba concorrendo à prefeitura.
A sugestão técnica aqui seria fazer algo parecido, mas talvez ao contrário. Em *Os Simpsons*, eles abandonam o primeiro plot para focar no secundário, que passa a ocupar o centro da história. No estilo de escrita como o do Lisboa, é como se esse primeiro plot nem chegasse a ser contado explicitamente na introdução; a história já começa direto no segundo plot, mas o autor continua evocando o primeiro ao longo de toda a narrativa sem nunca introduzi-lo formalmente. O leitor percebe que há algo correndo por fora, uma camada oculta que sustenta a narrativa principal.
Quando pensamos nas estruturas narrativas, Robert McKee, em seus estudos sobre roteiro, diferencia a *ar-trama*, a *mini-trama* e a *anti-trama*. A mini-trama, por exemplo, funciona como um recorte da ar-trama (que podemos associar à própria Jornada do Herói). Se analisarmos uma série inteira como *Os Simpsons*, veremos que eles praticamente esgotaram todas as estruturas narrativas e arquetípicas possíveis, dialogando com grandes textos fundament প্রতিষ্ঠাতা da humanidade.
Outra alternativa excelente para criar tramas profundas é pegar qualquer clássico bem enraizado no imaginário popular e criar uma história paralela — ou seja, um *spin-off*. É essencialmente o equivalente a uma fanfic, mas sem a necessidade de explicitar qual é a obra de origem. O segredo é escrever sem explicar nada, tratando o leitor como alguém que já conhece profundamente a fonte original. Eu mesmo costumo escrever assumindo que o leitor já sabe exatamente o que está na minha cabeça.
A partir disso, chegamos a mais uma diretriz criativa: você pode bolar uma história ou um esqueleto de plot principal, mas decidir não escrevê-lo diretamente. Em vez disso, você escreve sobre um evento completamente secundário e paralelo que aconteceu nos bastidores daquela história principal. Esse plot original continua correndo por fora, invisível, enquanto você narra com profundidade um desdobramento periférico que se conecta a ele de maneira sutil e estruturada.