Neste vídeo da série dedicada à análise da obra de H.P. Lovecraft, exploramos os mistérios e o horror psicológico do conto "Os Ratos nas Paredes", discutindo sua atmosfera gótica, os segredos sombrios da família de la Poer e a descida inexorável à loucura.
O conto foi escrito entre agosto e setembro de 1923 e publicado pela primeira vez em março de 1924 na revista *Weird Tales*, famosa por abrigar os originais de Lovecraft. A história acompanha um descendente da antiga família inglesa de la Poer, o último remanescente de uma linhagem marcada pela tragédia. Seu pai havia sido o único sobrevivente do assassinato dos próprios familiares que viviam no priorado de Exham, situado na região rural da Inglaterra, nos arredores de Londres. O motivo desse massacre permaneceu como um grande mistério na narrativa. Durante muito tempo, o protagonista não investigou o caso, pois estava dedicado a cuidar de seu filho e a lidar com o falecimento da esposa. Quando o filho partiu para a Primeira Guerra Mundial e retornou severamente ferido como inválido, o último dos de la Poer dedicou sua vida aos cuidados dele, até que o jovem faleceu dois anos após voltar da guerra.
Com a perda da família, o protagonista decide retornar à Inglaterra — já que seu pai havia migrado para os Estados Unidos no passado para construir uma nova vida — com a intenção de comprar e restaurar a ancestral propriedade da família no priorado de Exham. Essa construção gótica, erguida sobre fundações que datavam da época dos romanos, supostamente servira de palco para cultos abomináveis. Ao adquirir a propriedade, ele encontra na restauração um processo terapêutico e revigorante. Ele também reconecta a linhagem ao seu nome original, grafando novamente "de la Poer" para afastar os boatos locais, com o plano de transformar a fama supersticiosa e maligna da família em algo benéfico.
Contudo, como em toda boa história de Lovecraft, as coisas logo dão errado para o protagonista, que já carregava uma vida marcada pela decadência e pela tristeza. À medida que a reforma avança — um processo difícil, já que os moradores locais recusavam-se a trabalhar na casa por medo da superstição, obrigando-o a recorrer a amigos para trazer trabalhadores de fora —, ele percebe que os gatos da casa ficam extremamente alertas, desesperados e medrosos à noite. Ele próprio passa a ouvir barulhos nas paredes, não de roedores comuns, mas de grupos inteiros, de verdadeiros enxames de ratos perambulando entre os painéis de madeira instalados para modernizar o ambiente.
Somado a isso, ele é atormentado por pesadelos recorrentes com um guardador de porcos que comanda essa horda de ratos à procura de alimento. Como os criados e seu amigo Norris não conseguem ouvir os roedores, decidem buscar auxílio em Londres com arqueólogos e antropólogos para desmistificar a fama do local. No entanto, antes disso, após novos episódios de frenesi dos gatos, eles descobrem no porão da casa um altar que remonta à época dos romanos — ou a tempos ainda mais antigos.
Ao explorarem a cripta com uma expedição acadêmica, deparar-se com uma gruta antiga onde rituais grotescos eram realizados. Lovecraft descreve o local como um verdadeiro tapete de ossadas humanas, muitas delas irreconhecíveis até para os padrões de neandertais, pertencentes a criaturas ainda mais antigas, além de ossos de quadrúpedes. Com maestria, o autor insere doses de horror ao mostrar criaturas que parecem pertencer a outros planos, enquanto os esqueletos reconhecíveis estão em posições de pânico e luta. Há também jaulas com mais esqueletos e um mausoléu onde outros membros da família de la Poer foram enterrados.
O clímax ocorre quando o protagonista encontra poços gigantescos transbordando de ossadas. Ao ouvir a horda de ratos emergindo, ele entra em um estado de psicose frenética. Através da prosa, é como se ele invocasse um antepassado distante, estabelecendo uma conexão visceral entre sua própria mente e o comando daquelas criaturas — ligação sutilmente sugerida pelo autor. O conto termina tragicamente: Norris é trucidado pelos ratos, e o protagonista, junto a outro sobrevivente da expedição, acaba internado em um manicômio. Enlouquecido, ele passa a ouvir incessantemente o barulho dos ratos se aproximando em todos os lugares.
"Os Ratos nas Paredes" é uma obra fascinante que brilha pelo tom visceral e pela decadência desde o início. O protagonista compreende os horrores que levaram seu pai ao assassinato dos familiares, revelando um mal inominável ligado a antigas divindades mitológicas (inclusive com menções a Nyarlathotep). A narrativa demonstra como os próprios humanos podem ser vilões cruéis, já que a família realizava cultos e capturava moradores locais e fazendeiros para rituais e oferendas, justificando a péssima reputação histórica que carregavam. Lovecraft constrói magistralmente esse horror estático, onde a mansão ancestral funciona como um personagem central. É um conto excelente, sem pontos negativos aparentes, que consolida a genialidade do autor no horror cósmico e psicológico.