As histórias que parecem mais realistas costumam ser justamente aquelas que apresentam os maiores absurdos. Não absurdos no sentido de um elefante azul que voa e fala mandarim, mas coisas como o conto *A Máscara da Morte Vermelha*, de Edgar Allan Poe. A história se passa nas primeiras páginas durante uma peste terrível que está matando muita gente na Europa. Um príncipe muito poderoso e rico decide dar uma festa para convidar uma pancada de nobres, enquanto muralhas cercam o castelo e um monte de gente lá fora sofre e morre. Ele decide dar uma festa do fim do mundo que dura meses. É um conto excelente, um dos poucos de terror que realmente me deram medo enquanto eu lia, especialmente por causa da atmosfera no meio da narrativa. É absurdo ver tudo indo para a merda e o cara simplesmente se fechar para dar festas intermináveis só porque tem dinheiro e recursos para muito tempo. Embora seja um absurdo, parece muito real e plausível que algo assim aconteça, mesmo que a gente imagine que alguém tentaria resolver o problema em vez de dar festas enquanto os outros se ferram.
Essa sensação de contrastes e absurdos verossímeis também aparece nos filmes mais recentes de *Mad Max*, especificamente em *Mad Max: Estrada da Fúria* e *Furiosa*. Nos dois filmes, existe uma sensação contraditória perfeitamente harmonizada: a de uma escassez enorme. Parece que para cada gota de água que cai no chão você sente sede, como se faltasse absolutamente tudo. Por outro lado, se pensarmos em franquias como *Duna*, especialmente nas partes um e dois assistidas em sequência, você não tem essa sensação total de escassez. Mesmo que haja escassez em Arrakis, a história lida com outras coisas e mostra outros reinos, como o do Imperador e o dos Harkonnen, onde as coisas não parecem estar acabando o tempo todo.
Já em *Mad Max*, está um calor absurdo, não há água nem comida, e os caras estão explodindo gasolina em tudo quanto é canto. É muito doido ver os caras fazendo gambiarras em carros possantes para dirigir em alta velocidade no deserto. Os War Boys são todos fodidos, cheios de bolhas na pele, passando spray prateado na boca antes de morrer e explodindo tudo. Eles fazem coisas insanas, como colocar ventiladores gigantes de barco nas costas com paraquedas para voar com motos. É absurdo, mas é sensacional. O mais louco é que, com tudo na merda e com pouquíssimos recursos, a maior parte dos esforços deles é direcionada para fazer máquinas de guerra, conquistar, destruir e matar os outros. Parece que a cada batalha vai estourar a última caixa d'água e todo mundo vai morrer de sede, mas eles continuam gastando tudo.
No mundo de *Mad Max*, que se passa no deserto da Austrália, existem três lugares principais: a Fazenda de Balas, a Cidade da Gasolina e a cidadela do Immortan Joe. A Cidade da Gasolina é cercada por um lago que parece ser de petróleo ou gasolina, onde qualquer fagulha explodiria tudo. A Fazenda de Balas parece uma mina de trabalho real, e a cidadela do Immortan Joe é onde há água e comida, o que o torna o comandante de tudo, afinal bala e gasolina são legais, mas é preciso água para viver. Embora pareça que esses lugares vão explodir ou acabar a qualquer momento devido às decisões malucas das pessoas, tudo isso ainda soa plausível. O mundo está em ruínas, todo mundo está se ferrando, e a maior parte do tempo as pessoas estão fazendo grandes desgraças, guerra e escravidão. Parece exatamente isso que aconteceria.
Esse *insight* me veio justamente porque tanto em *Nausicaä do Vale do Vento* quanto nos últimos filmes de *Mad Max* os recursos são extremamente escassos. Mesmo em *Nausicaä*, onde há bastante recurso no final e eles estão replantando e reconstruindo o vale, a história coloca tudo na perspectiva de que mil anos antes havia uma civilização, fazendo o que eles têm parecer muito pouco em comparação. Mas em *Mad Max* a urgência é brutal: há um exército vindo, as pessoas estão se matando, e embora seja terrível, as ações fazem sentido dentro da lógica daquele universo. É claro que você não faria aquilo, mas faria se estivesse do lado deles. Em duas horas de filme, os diretores conseguem construir essa imersão perfeitamente. A sensação de escassez em *Mad Max* é constante, dando a impressão de que o próximo tiro vai ser o último, o motor vai ficar sem gasolina de vez e a última gota d'água vai secar. Tudo parece estar acabando o tempo todo por causa de decisões absurdas de guerra e destruição, como caminhões cheios de machados e bolas de aço giratórias, mas no fim das contas o ciclo continua.