Apesar de ter começado a leitura com expectativas baixas devido a críticas negativas, o criador do canal Universo Antares compartilha sua surpresa positiva ao resenhar o suspense *O Demonologista*, do autor canadense Andrew Pyper. Ele analisa os pontos fortes da obra — como a carga dramática, o luto e as referências a John Milton — e discute também suas escolhas técnicas e narrativa.
E aí, pessoal do Universo Antares, sejam bem-vindos a mais um vídeo de resenha. Eu ando meio sumido do canal, mas gostaria até de me desculpar com vocês. O motivo foi bem simples: eu peguei uma gripe que acabou ferrando com a minha garganta. Eu ainda estou com a garganta um pouco ruim, então, se eu acabar tossindo ao longo do vídeo, saibam que é por conta disso, pois ainda estou no processo de recuperação. No geral, não foi nada grave, mas o que me afetou mesmo foi a garganta. Eu ainda estou um pouco debilitado, mas não podia deixar de falar deste livro. Acabou que só pude fazer o vídeo muito depois, infelizmente, porque eu queria ter feito logo em seguida à minha leitura, que é justamente este livro aqui: *O Demonologista*, do Andrew Pyper.
Por que eu decidi ler esse livro? Na verdade, eu basicamente não tinha nenhuma pretensão de lê-lo, mas a referência que ele tem justamente a John Milton me fez ter uma percepção um pouco diferente dessa obra. Do que se trata? *O Demonologista* é escrito pelo autor canadense Andrew Pyper e é um thriller, ou seja, uma narrativa de mistério e terror com aquele gênero mais policial e investigativo, em que acompanhamos a história de David Ullman. Ele é um demonologista, mas especificamente especializado na obra de John Milton, *O Paraíso Perdido*.
Eu não li *O Paraíso Perdido*. Sei que é um crime grave, sei que tenho que endereçar isso, mas acho muito interessante — eu já tinha ouvido falar da obra de John Milton antes — como o Andrew Pyper traz uma visão mais metafórica do que é um demonologista. Até porque o David, enquanto personagem principal, começa como um cético, um acadêmico cético, mas que vê valor nas mensagens bíblicas e, consequentemente, nas repercussões que isso gerou para outros autores, incluindo o próprio John Milton.
O que eu acho mais interessante dessa obra em específico é como o conceito do demonologista acaba sendo um tabu para muitas pessoas. Ou seja, para as pessoas religiosas — eu não sou religioso, mas para muitos religiosos — o demonologista acaba tendo esse quê de se embrenhar no ocultismo, nessas histórias, nesses manuais não convencionais, não ortodoxos, que muitas vezes questionam a ideia da igreja através dos seus rituais e tudo mais. Não cabe aqui neste vídeo discutir sobre isso, até porque eu não tenho tanto conhecimento nessa área, mas sei que existem discussões acerca do tema.
O que eu acho tão interessante em *O Demonologista* é que eu vi muita gente reclamando desse livro. Se não me engano, no Goodreads ele tem uma avaliação média baixa até. Muitas pessoas, inclusive amigos próximos, odiaram este livro. Então, quando eu comecei a leitura, a minha expectativa era bem baixa, mas me surpreendeu a qualidade dessa obra.
Não no que diz respeito ao terror. Por incrível que pareça, eu acho que se você quer ler *O Demonologista* e pensa basicamente em desfrutar de uma história de terror, você vai ter uma história bem clichê no geral. A narrativa principal acompanha David Ullman, um acadêmico que é convidado por uma figura misteriosa a comparecer a um suposto caso de possessão. Ele acaba viajando para a Itália. Está tendo problemas familiares, mas tem uma conexão muito forte com a filha; então, embora esteja enfrentando problemas com a esposa, a forte ligação com a filha mantém a família unida, e eles decidem viajar para a Itália não só a trabalho, mas para curtir a viagem.
O *plot* principal da história é que ele é confrontado por um demônio verdadeiro. Esse demônio não somente comprova sua existência através da testemunha ocular, que é o próprio David Ullman, como também toma a vida da filha dele. A partir desse momento, a história se torna uma jornada, basicamente uma odisseia intimista na busca por identificar esse demônio antes que seja tarde demais, e também na tentativa de salvar a alma da filha do David.
O que eu acho muito interessante nesses personagens é o quão humanos eles são. Eu gosto muito do David Ullman e da sua melhor amiga, a Aubrey, que é psicóloga e está com câncer em estágio terminal. Eu gosto muito da relação entre eles, e de como o David é compassivo com os problemas ao redor dele até certo ponto. Vejo muitos personagens que às vezes acabam tendo agência demais na história — apesar da agência ser algo positivo —, ou seja, muitas das coisas que ele de fato controla e quer combater por causa de seus dogmas, ideais ou crenças, essa luta às vezes acaba se tornando cansativa para nós, porque afasta a narrativa da realidade e acaba romantizando ideias um tanto quanto espalhafatosas, sabe? Principalmente quando se trata de histórias sobrenaturais.
O que eu gosto neste livro é que ele é muito mais a jornada intimista de um pai lidando com o luto e com os traumas de infância. Lógico que eu não vou dar *spoiler* aqui, mas gosto muito da maneira como ele é narrado. Apesar de eu ter uma forte discordância técnica — esta edição da DarkSide é muito bem traduzida, por sinal (deixa eu ver aqui quem traduziu para poder comentar: traduzido por Cláudia Guimarães; se não me engano, a primeira edição foi publicada em 2013 e esta da DarkSide em 2015, fazendo parte meio de uma trilogia, embora não seja necessariamente conectada) —, o que eu não gostei nessa história do ponto de vista técnico é a escolha do narrador em primeira pessoa.
Eu pretendo fazer um vídeo no futuro sobre isso: o narrador em primeira pessoa é uma forma muito rápida de criar conexão com o leitor, porém, se não for bem definida ou bem construída, pode gerar um senso de desconexão e desentendimento com muita facilidade. Por exemplo, quando temos o narrador enquanto personagem — ou seja, eu estou contando para você a minha história, para quem quer que seja —, é necessário que haja uma coerência entre o que eu faço enquanto personagem e a maneira como comunico essas ações para quem está lendo.
Isso acaba gerando algumas incoerências no que diz respeito à prosa, e isso incomoda. Às vezes a prosa é rápida, mas não deveria ser; às vezes é muito truncada. O autor dá aquela impressão de que tudo o que está sendo descrito tem uma conexão com o personagem, mas, por conta do narrador em primeira pessoa, é tão intimista — o que pode ser uma coisa boa — que acaba desacelerando um pouco a narrativa. Um exemplo: às vezes o David está viajando por vários estados e fica basicamente descrevendo como está comendo em um restaurante, e aí surge uma memória. Isso até contribui para a história, mas vai se repetindo, repetindo, repetindo. Às vezes ele está abrindo uma televisão, vendo um comercial, ou simplesmente perambulando por aí, e temos essa repetição que torna a narrativa um pouco cansativa.
No que diz respeito aos outros fatores, eu gosto da construção do sobrenatural aqui, gosto da relação entre os personagens e dessa conspiração mais sutil, mais realista. Embora existam alguns momentos que parecem coincidência demais — sabe quando o autor está forçando a barra para uma cadeia de eventos que pode até parecer natural, mas começa a degringolar? —, ainda assim não chega a incomodar tanto.
No geral, eu gosto muito dessa narrativa pela referência a John Milton, já que há várias referências acadêmicas à obra dele. Quero muito ler no futuro e, quem sabe, reler daqui a alguns anos ou conferir em audiolivro, para saber como isso foi retratado aqui. A forma como vi, pelo menos, me fez ter muito interesse em procurar mais sobre a obra de John Milton. Se vocês já leram John Milton, deixem aí nos comentários se recomendam, se é de fato uma obra boa e se há traduções que vocês indicam, porque com certeza vou dar uma olhada depois.
Eu acho que o melhor de *O Demonologista* não está no terror. Acho que isso vai ajudar muito se você estiver procurando uma leitura mais intimista, mas que ao mesmo tempo tenha o terror como pano de fundo. O terror dele não dá medo, mas, a partir do momento em que você o encara como uma forma de o personagem refletir sobre os acontecimentos — é uma obra que trata muito sobre luto, sobre depressão, sobre a falta de agência no cotidiano —, vale muito a pena.
Então, aqui eu dou meu selo de aprovação. Eu gosto desse material. Vi muita gente reclamando e odiando o livro em vídeos de resenha até meio ácidos, e eu respeito a opinião, claro, mas tenho que discordar da maioria e dizer que de fato gostei muito deste livro.
Se vocês quiserem acompanhar mais obras de terror, estou fazendo a playlist de Lovecraft. Em breve vou lançar mais um vídeo sobre ele, assim que eu estiver um pouquinho melhor da garganta e a cadência de vídeos voltar ao normal. Até lá, vou fazendo à medida que posso. De qualquer forma, vejo vocês no próximo vídeo. É isso, até a próxima!