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Débora Luciano (@academiabocault), René Girard e a Teoria Mimética • Lisbôa

René Girard e a Teoria Mimética • Lisbôa

O vídeo em questão funciona como uma resposta a comentários anteriores feitos pela criadora de conteúdo Débora Luciano (do canal Academia Bocault) a respeito de René Girard e sua teoria mimética. No centro da discussão está a obra de Girard e a forma como ela se manifesta na literatura e na cultura, com foco especial na relação entre o pensador francês e a obra de William Shakespeare.

A argumentação parte da constatação de que René Girard não apenas estudou Shakespeare extensivamente, como dedicou a ele seu maior livro em número de páginas: *Shakespeare: Teatro da Inveja*, publicado no Brasil pela editora Realizações. Enquanto a obra *E Vade Satanás Cair como um Raio* é frequentemente lida por iniciantes, ela não se configura como a melhor introdução ao pensamento de Girard. Em contrapartida, *Teatro da Inveja* é apontado como a porta de entrada ideal para a teoria mimética, pois utiliza peças shakespearianas variadas para ilustrar de maneira prática e acessível os conceitos fundamentais do autor.

O primeiro grande conceito explorado é o desejo mimético. Ao contrário do que o senso comum dita, o ser humano não deseja um objeto por suas qualidades inerentes, mas sim porque outra pessoa o deseja. O desejo, portanto, é triangular: envolve o sujeito, um mediador (aquele que deseja primeiro) e o objeto desejado. Quando esse objeto é escasso — como uma joia, um carro único ou até mesmo um estilo de vida que o objeto denota —, o conflito torna-se inevitável. Peças como *Os Dois Cavaleiros de Verona* exemplificam essa estrutura básica do triângulo amoroso e da rivalidade mimética inicial.

Contudo, a teoria mimética vai muito além de simples desentendimentos passionais ou triângulos amorosos; ela se propõe a ser uma teoria abrangente sobre a origem e a dinâmica da própria cultura humana, funcionando de forma análoga a teorias científicas fundamentais, como a evolução ou o Big Bang. Por essa razão, não é estritamente necessário que um artista ou cineasta tenha lido René Girard conscientemente para que sua obra reflita a teoria mimética. Como a teoria apenas descreve a engrenagem natural das relações humanas, qualquer criador talentoso pode retratá-la organicamente em suas criações.

À medida que o conflito mimético avança, ele sofre uma escalada perigosa. O que começa entre duas pessoas atrai apoiadores de ambos os lados, transformando-se em uma briga generalizada onde o objeto original perde totalmente a importância. As partes envolvidas passam a lutar puramente pelo conflito em si, em uma dinâmica presente em diversas obras de Shakespeare, como *Troilo e Crássida*, *Júlio César* ou *Sonho de uma Noite de Verão*.

Para conter essa violência generalizada e restaurar a paz na comunidade, surge o mecanismo do bode expiatório. Tradicionalmente, as culturas elegem um elemento externo — um marginal ou estrangeiro — para ser culpado por todas as mazelas sociais e, em seguida, sacrificado. No entanto, a análise de peças como *Júlio César* revela que o bode expiatório também pode ser alguém de dentro da própria estrutura social, especificamente a figura central e isolada do poder, como um rei ou um imperador, cuja posição única o torna o alvo ideal para unificar a comunidade em torno do sacrifício e encerrar o ciclo de violência.

Em suma, grandes autores como Shakespeare destacam-se justamente por expor essas engrenagens ocultas desde a fundação do mundo. A teoria mimética não se esgota em uma única peça, mas se distribui por comédias e tragédias, revelando a violência inerente e estrutural das sociedades humanas através da lente de um dos maiores dramaturgos da história.