Ao analisar a clássica jornada de Dorothy e seus companheiros na terra de Oz, muitas vezes nos concentramos apenas na superfície lúdica ou nos aspectos mais evidentes da aventura infantil. No entanto, por trás dessa fachada aparentemente simples, L. Frank Baum construiu uma narrativa rica em simbolismos filosóficos profundos, onde cada personagem carrega dilemas existenciais complexos. Entre eles, a melancolia particular do Homem de Lata oferece uma perspectiva fascinante e surpreendentemente madura sobre a natureza dos sentimentos, da dor e do propósito humano.
Contos de fada fazem parte da humanidade desde as tribos mais antigas que se reuniam ao redor de uma fogueira partilhando mitos, lendas e contos místicos que tinham como objetivo, além do entretenimento, ensinar aos mais novos lições valorosas sobre a vida. Até as mais recentes histórias que vemos ilustradas nas telas de nossas televisões, o ser humano anseia por histórias. Cientistas já discutem sobre o quão importante essa habilidade, presente unicamente em nossa espécie, nos permitiu alcançar tudo o que alcançamos. As perspectivas filosóficas sobre o porquê dessa ânsia existir e como ela implica determinados parâmetros analíticos são variadas, havendo para alguns o intrínseco valor da narrativa para a evolução pessoal — como Aristóteles dizia, depois de nutrir a alma com histórias, ela cresce. Outros, como Platão, enxergavam desde muito a narrativa como uma ferramenta poderosa de controle; em suas próprias palavras, os contadores de histórias governam a sociedade. A modernidade trouxe consigo visões ainda mais cinzentas sobre o tópico, mas o que eu mais gosto nos contos de fada é como eles parecem se casar com a literatura como nenhuma outra mídia. Quando bem feito, o conto de fadas há de proporcionar não somente uma fonte maravilhosa para o seu público infanto-juvenil, mas também, interessantemente, por forçar a habilidade do autor em fazer com que até mesmo uma criança compreenda o que se conta, ele igualmente permite ao autor tratar temas muito mais profundos em suas obras.
Se nos primeiros contos de fadas a história mais servia de palco para a lição, na literatura do século XIX para o século XX ela conseguiu inverter habilmente tais elementos, transformando completamente essa ordem hierárquica. L. Frank Baum captou um equilíbrio invejável da essência dos clássicos de Hans Christian Andersen, que para muitos leitores eram contos lúdicos até demais, e do teor visceral das narrativas de Charles Perrault e dos Irmãos Grimm. *O Mágico de Oz* é o produto de um autor que soube incluir majestosamente camadas de compreensão e apreensão do conflito de sua história e, mais ainda, utilizar de seu charmoso e caricato mundo e personagens para simbolizar problemáticas e temas de profundo teor filosófico.
A perspectiva infantil de Dorothy, a protagonista da maior parte das histórias, e sua respectiva personalidade já denotam a sabedoria em criar algo palpável para os leitores jovens, mas também tornam cristalina a proposta de discussões aos adultos, se assim desejarem mergulhar em sua narrativa. Diferentemente de Alice, que essencialmente representa a criança média teimosa, bagunceira e brincalhona, Dorothy é a personificação da criança ideal, ou seja, uma visão romântica da menina que obedece a seus pais e busca apenas fazer o bem. Seu cachorrinho e companheiro de viagem, Totó, é a prova de que Dorothy é uma pessoa afetuosa e que necessita de companhia ao longo de sua jornada.
A narrativa de *O Mágico de Oz* é muito simples de ser resumida: basicamente, um ciclone atinge a casa de Dorothy, transportando-a e a seu cãozinho Totó para a terra de Oz. Ao chegar, sua casa cai em cima da Bruxa Malvada do Leste, matando-a. A Bruxa Boa do Norte, Glinda, dá a Dorothy os sapatos prateados da Bruxa Má e a orienta a seguir a estrada de tijolos amarelos até a Cidade das Esmeraldas para encontrar o Mágico de Oz, que pode ajudá-la a voltar para casa. No caminho, Dorothy faz amizade com três personagens: o Espantalho, que deseja um cérebro; o Homem de Lata, que quer um coração; e o Leão Covarde, que busca coragem. Cada um acredita que o mágico pode conceder seus desejos e, ao chegar na Cidade das Esmeraldas, o mágico concorda em ajudar, mas só depois que eles derrotarem a Bruxa Malvada do Oeste. Após uma série de aventuras, Dorothy e seus amigos conseguem derrotar a Bruxa Malvada do Oeste e retornar ao Mágico. No entanto, descobrem que o mágico é um impostor sem poderes reais. Glinda, a Bruxa Boa do Sul, revela a Dorothy que os sapatos prateados têm o poder de levá-la para casa. Dorothy retorna ao Kansas com Totó, deixando para trás seus novos amigos. Simples, não?
Mas, por detrás dessa história e conflito aparentemente minimalistas, há importantes temas sendo tratados. Cada um dos personagens daria um vídeo à parte; se eu quisesse realmente cobrir todos os livros de L. Frank Baum e o que eles escreveram em cada um deles, este vídeo teria muitas horas de duração. Para mim, no entanto, a problemática mais interessante da narrativa envolve o personagem do Homem de Lata. Dorothy e o Espantalho encontram o Homem de Lata enferrujado, por muito tempo sem conseguir se mover após uma chuvarada. Derramando um pouco de óleo para que ele conseguisse funcionar novamente, a dupla propõe que ele se junte à jornada em busca do mágico.
Muitos veem o personagem do Homem de Lata como uma metáfora para uma pessoa em depressão, o que, ao meu ver, é errôneo, pois a metáfora da busca pelo coração tem como sintoma a depressão, sim, mas vai muito além disso. Para entender essa dinâmica dentro da narrativa e como ela serve de base para a discussão deste ensaio — e o porquê de parecer tão paradoxal pela justaposição de elementos aparentemente contrários —, precisamos diferenciar esses tipos de tristeza. Começando pela definição mais comum, que diz que a tristeza é uma resposta emocional natural a eventos ou situações adversas e é considerada uma parte normal da experiência humana. Paul Ekman, por exemplo, em seus estudos sobre as emoções básicas, define a tristeza como uma resposta a perdas ou desapontamentos, e afirma que ela é uma emoção transitória que geralmente diminui com o tempo e com a resolução dos fatores estressores.
Apesar do Homem de Lata ter seu grau de tristeza inicial, o sentimento dele está muito mais relacionado a uma falta de sentido do que a uma resposta direta a fatores estressores. Já a depressão é um transtorno mental mais profundo e duradouro que envolve sintomas persistentes de tristeza, desesperança e perda de interesse em atividades antes prazerosas. Ou seja, o Homem de Lata já não se encaixa nesse aspecto, pois está disposto ativamente a lutar pela conquista de um coração, encarando mais sofrimento por isso, e sua percepção, apesar de muito triste, de certa forma não o desabilita. Aaron Beck, um dos fundadores da terapia cognitivo-comportamental, descreve a depressão como uma distorção cognitiva que leva a pensamentos negativos persistentes sobre si mesmo, o mundo e o futuro. O Homem de Lata, nesse caso, cumpre apenas parcialmente essa descrição caracterológica.
Agora, tratando-se da melancolia, já acho que é possível encontrar um paralelo significativo com o personagem. A melancolia é uma forma mais antiga e menos comum de transtorno afetivo que se caracteriza por um estado profundo de tristeza e desamparo, frequentemente associado a uma sensação de perda ou de incapacidade de experimentar prazer. Bingo! O desespero que assola o Homem de Lata se dá muito mais pela incapacidade de sequer experimentar um sofrimento autêntico do que pelo ato de experimentá-lo de fato. Não é incrível? Quer dizer, a suposta maldição deveria fazer com que ele não tivesse sentimentos, mas justamente a ausência de sentimentos pela ausência do coração gera outro sentimento. Nesse caso, a tristeza dele não é nada mais do que um sintoma dessa ausência perceptual, que o atinge tão fortemente quanto a depressão, mas não o desabilita.
A prova desse encaixe, ao meu ver, é que o Homem de Lata poderia ter iniciado a sua busca por um coração a qualquer momento, mas não havia nem mesmo a vontade de perseguir isso, e também não havia a depressão como indutor. A narrativa nos dá a entender que a ausência de um coração nada tinha a ver com a ausência de um propósito, muito pelo contrário, pois os personagens o encontram justamente paralisado por conta do trabalho que tivera antes da chuva. Afinal de contas, a busca pelo coração — e, consequentemente, sua melancolia — começa quando ele se vê incapaz de cumprir o seu propósito, tendo que refletir sobre o que, além de cortar árvores, sua vida tinha a lhe oferecer.
É aqui que, ao refletir consigo mesmo, o desamparo o assola. Como ele mesmo diz: "Eu estava no caminho para fazer minha felicidade e de repente percebi que estava sem coração". O fator que gera essa indagação é muito mais a inércia do que qualquer outra coisa, e o efeito disso nada tem a ver com a depressão enquanto fonte, mas sim como sintoma. Pense bem: o personagem que tem como objetivo consolidar a busca pelo coração enquanto símbolo que representa a busca pelo sentimento haverá de ter um sentimento tão profundo antes mesmo de conquistar esse símbolo? E mesmo quando o conquista, a narrativa nos deixa claro que a melancolia aprendida nada tem a ver com a sensação de sofrimento. O que é interessante nessa busca é que, muito pelo contrário, ela menospreza a felicidade sem sentido. De que adiantaria ao Homem de Lata construir o caminho para a felicidade se a felicidade que ele almeja não o torna mais preparado ou apto a sequer percebê-la?
O que eu gosto é como o autor consegue ir além disso, pois, ao ser indagado a revelar-lhe seus desejos, o Homem de Lata deixa claro que sua tristeza é justamente pela falta de sentimentos, mas que reconhece até mesmo nela o senso de valor, visto que diz: "Quando penso nisso, sinto vontade de chorar, e isso é muito, muito bom para o coração". A consequência disso para a narrativa é que o Homem de Lata atua para o grupo como protetor, e, durante a revoada das criaturas da bruxa, é ele quem protege os amigos com os cortes de seu machado. A narrativa dá a entender que o senso de propósito, quando ele se preocupa com o bem-estar de seus companheiros, é o que o leva essencialmente a transformar sua percepção de sentimentos, simbolizada justamente através do coração mecânico que o mágico lhe oferece como recompensa.
Apesar desta não ser uma citação direta, ela sumariza bem o pensamento do Homem de Lata: não há onde guardar o meu coração exceto dentro de mim mesmo. O Homem de Lata aceita sua recompensa como encerramento da busca pelo sentimento verdadeiro, algo que é verdadeiramente seu, e só descobre a real tristeza quando experimenta a despedida de alguém que estimava, nesse caso, a própria Dorothy. A prova de que sua tristeza atual é real em comparação à que tivera até então é que, por ser dotada de propósito, ela dói mais do que a tristeza de se deparar com o vazio existencial. E é nessa luta que muitas das vezes podemos encontrar nossa redenção emocional: não importa o que o tempo tenha feito ou quão ocos pareçamos, desde que haja um desejo, a luta em busca de realizá-lo será gratificante.