Quando nos deparamos com obras de ficção, frequentemente nos questionamos sobre o que torna elementos absurdos ou fantásticos tão convincentes para nós, criando o que chamamos de verossimilhança. A partir de estudos sobre escrita criativa e da análise de diversas obras, compreende-se que a construção de uma narrativa realista na literatura ou no cinema difere profundamente da realidade cotidiana.
Estudando sobre escrita criativa, percebi que muitos blogs de escritores traziam dicas pontuais sobre como escrever bem, mas quase sempre era possível encontrar exemplos em que essas regras não se aplicavam. Eram mais palpites e sugestões restritas do que regras definitivas. Foi nos livros dedicados à escrita — como aqueles focados exclusivamente na construção de diálogos — que encontrei reflexões mais profundas, a exemplo da ideia de que um diálogo, para ser verossímil, não pode ser realista; ele precisa ser de tudo menos realista.
No mundo real, as nossas conversas são cheias de rodeios, imprecisões e repetições. Quando ligamos para alguém, cumprimentamos, gastamos tempo com amenidades e nem sempre vamos direto ao ponto. Isso acontece porque existe um abismo entre o que pensamos, o que conseguimos comunicar e o que o outro realmente entende. No entanto, nem na tela do cinema nem nas páginas de um livro temos todo o tempo do mundo, e a última coisa que o público quer é enrolação. Queremos diálogos concisos, fortes e que complementem a narrativa de forma interessante.
Portanto, se reproduzíssemos o mundo real com exatidão na ficção, ele dificilmente soaria verossímil. O que buscamos na literatura e no cinema é a melhor versão daquela cena: uma apresentação mais poderosa, interessante e enxuta. Na ficção, nós não queremos ver os detalhes enfadonhos de como as coisas acontecem exatamente como no dia a dia, pois disso já nos basta a realidade.
Além disso, quando lemos ficção, invariavelmente associamos os elementos da história às nossas próprias vidas. Comparamos nossas frustrações e anseios com os problemas dos personagens. É por isso que, ao ler um livro como *1984*, percebemos que o cenário retratado não é tão absurdo assim; ele apenas externaliza terrores que já reconhecemos ou tememos no mundo real.
Mesmo em gêneros realistas, que extrapolam minimamente o cotidiano sem o uso de magia, isso já acontece. Imagine então em obras de fantasia, ficção científica ou terror. Saber que existe um dragão em uma história pode atrair o leitor, mas o que o manterá preso ao texto é a forma como os personagens lidam com seus problemas pessoais, seus medos, anseios e traumas diante daquela situação fantástica. A verossimilhança não depende da ausência de dragões, mas de pessoas que pareçam reais enquanto lidam com o fantástico, fazendo sentido para quem lê.
Um exemplo disso é o universo de *Mad Max*. Pode parecer absurdo imaginar uma perseguição desenfreada pelo deserto com carros malucos, incluindo um veículo com um paredão gigante de som e um guitarrista amarrado tocando no meio da ação. No entanto, essa loucura diz muito sobre a natureza humana, afinal, o que não falta neste mundo são pessoas extremas e imprevisíveis. Nós tememos certos tipos de comportamento justamente pelo absurdo que essas pessoas são capazes de cometer.
Para resumir, a verossimilhança na ficção parece precisar justamente de um toque de absurdo ou de irrealidade. É esse exagero, essa extrapolação do mundo real, que consegue se conectar genuinamente com os nossos medos e anseios mais profundos. Embora seja difícil estabelecer uma fórmula exata ou uma definição definitiva que abarque todas as exceções, a literatura alcança a verdadeira verossimilhança quando consegue conectar o absurdo com a nossa realidade emocional. E você, o que acha disso?