https://www.youtube.com/watch?v=6dkMTVB6CSY
Explorar a distopia clássica de Ray Bradbury em *Fahrenheit 451* nos conduz inevitavelmente a reflexões sobre o valor do pensamento crítico e o peso de exercê-lo em uma sociedade alienada. A partir de teorias da inteligência e da análise do percurso de Guy Montag, o vídeo examina o alto custo intelectual e emocional de despertar para a realidade em um mundo que prefere a ignorância e o entretenimento vazio.
O que é ser intelectual? O que torna uma pessoa inteligente, dotada de pensamento crítico e, acima de tudo, capaz de usar esse pensamento crítico de maneira responsável para com a realidade em seu entorno? É difícil não ler *Fahrenheit 451* sem trazer à tona essa questão, não somente porque é uma obra-prima que nos faz refletir sobre diversas questões recorrentes até os dias de hoje, mas porque, dentre todas as distopias, esta é, ao meu ver, a mais verossimilhante.
Mas não podemos nos precipitar. Para elucidar de maneira clara essa questão sobre a inteligência, precisamos primeiro definir o parâmetro através do qual a intelectualidade é adquirida. Howard Gardner, em sua teoria das inteligências múltiplas, por exemplo, propôs que a inteligência — elemento crucial ao intelectual — não é uma entidade única, mas um conjunto de diferentes capacidades específicas. Ele identificou inicialmente sete inteligências distintas: linguística, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-sinestésica, interpessoal e intrapessoal, adicionando posteriormente a naturalista e a existencial.
Já Robert Sternberg, em sua teoria triárquica, sugere que a inteligência é composta de três partes: analítica, criativa e prática. A inteligência analítica envolve habilidades acadêmicas e de resolução de problemas; a criativa envolve a capacidade de lidar com novas situações usando experiências passadas; e a prática diz respeito às habilidades necessárias para a vida cotidiana. O que essas célebres teorias têm em comum é que assumem que o indivíduo seja capaz de pensar por si mesmo e não apenas reproduzir competências comuns. E qual é a fonte que trabalha de maneira mais plural e profunda a intelectualidade? A literatura acaba sendo uma das mais eficientes e, pelo menos do ponto de vista civilizacional, a mais acessível.
Mas e quando o meio através do qual o indivíduo adquire sua intelectualidade torna-se ele mesmo uma forma de controle, senão dos outros, então de si mesmo? Guy Montag faz parte de um corpo de bombeiros em um futuro em que todas as construções são feitas à prova de fogo. Então, qual é o objetivo do corpo de bombeiros? A genialidade da obra está justamente no irônico fato de que essa organização tem agora o dever de incendiar obras de cunho intelectual, ou seja, livros, sob o pressuposto de que estas mesmas obras representam uma ameaça à estabilidade e ao bem-estar social.
Montag é, portanto, o indivíduo que está no limiar da mediocridade. Ele é um adulto letrado fortuito, ciente de seus deveres para com a esposa, mas que não questiona absolutamente nada. Clarisse McClellan, que na estrutura narrativa é aquela personagem responsável por provocar o protagonista à aventura, acaba gerando um interessante contraste com as outras pessoas. Ela mora próximo à residência de Montag, e seu modo de viver pouco usual chama a atenção dele por um motivo simples: para Montag, a vida de Clarisse e de sua família lhe soa retrógrada.
Como assim? Vou explicar melhor, mas aqui cabe salientar o ano de publicação do livro, 1953. Ray Bradbury, o gênio por detrás da história, não somente conseguiu projetar um futuro tecnológico crível e que se provou real em muitos aspectos, como entendeu como esse futuro poderia ocasionar um distanciamento social entre as pessoas. Clarisse e sua família não dispõem de nenhuma antena que permita que transmissões interativas sejam dispostas em televisores sobressalentes, e igualmente rejeitam os fones que isolam a tudo e a todos do mundo através de *reality shows* simplórios e rasos, cujo noticiário tem como papel entreter o público com notícias sobre a quantidade de livros queimados na semana ou simplesmente os fugitivos capturados pelo Estado.
Montag, mesmo com sua vida de sucesso e classe social elevada, parece insatisfeito de uma forma que não tem necessariamente relação com o trabalho, mas que denota a sua predisposição à busca por um sentido. Clarisse, sabendo de seu ofício, questiona-lhe quanto à queima dos livros, e Montag replica as indagações que lhe são oferecidas de maneira protocolar. Mas é claro que todo protocolo tem um limite, e às vezes tudo o que precisamos para agir é uma pergunta. O pensamento socrático utilizado por Clarisse, de forma consciente ou não, é incrível, pois não é invasivo, e sua acessibilidade é tal que até mesmo um homem tão apático quanto Montag consegue entender e apreender. Por conseguinte, isso contribui para o interesse que o personagem tem sobre a vida dessa mulher tão inteligente, tão fora da curva.
Tudo muda, no entanto, quando Montag se depara com uma senhora que se recusa a abandonar sua residência, prestes a ser incendiada por conta da quantidade exorbitante de livros nela escondidos. A pergunta, apesar de provocada por uma personagem secundária, surge de maneira autêntica ao protagonista quando ele se pergunta o porquê de alguém preferir morrer queimado com seus livros em vez de viver sem eles. Montag rupia (rouba) um livro e lê quase como em chacota, mas o que era um se torna dois, e o que era dois se torna três, e de repente já são vários e vários livros.
A consequência e ponto principal deste vídeo surge agora, pois resvala diretamente no desenvolvimento do personagem principal e pode nos oferecer interessantes reflexões: qual é o preço que se paga por ser intelectual? É claro que, enquanto distopia, *Fahrenheit 451* usa dessa alienação coletiva como contraste direto ao seu ponto de discussão. Na verdade, a obra aborda vários pontos, mas quero discutir apenas um dos elementos aqui: a intelectualidade.
Montag, um homem passivo, obediente e desmotivado, torna-se ácido, provocativo, questionador e revoltado. Não consegue ver com bons olhos sua esposa sofrendo ataques nervosos por conta da quantidade excessiva de comprimidos que toma. Cada sessão frente à TV é sofrida; as conversas com amigos, familiares e conhecidos de sua amada se tornam supérfluas demais para ele. Porém, aquilo que antes ele mesmo considerava rústico agora é atraente, apaixonante de tal maneira que ele começa a tomar riscos, e seus colegas de trabalho parecem perceber aos poucos tais deslizes.
É engraçado como essa dinâmica apresentada na narrativa é tão semelhante à realidade. Eu tenho certeza de que você já passou por uma situação parecida na vida: você estava numa conversa com amigos, quem sabe flertando com alguém, discutindo um projeto escolar, acadêmico, profissional, ou apenas trocando conversa com um desconhecido. De repente, surge um tópico para o diálogo, a coisa mais rasa do mundo. Você tolera porque acha que, eventualmente, haverá algo de interessante a ser conversado, mas o assunto seguinte lhe soa ainda mais superficial, e o que vem depois, pior ainda. De repente, você pensa consigo mesmo: "Esta deve ser a pessoa mais burra que eu já vi, falando as asneiras mais laboriosas que alguém pode dizer".
Mas o que te irrita não é isso — pois pessoas burras estão em todos os lugares, especialmente, ao que parece, nos lugares mais altos —, mas sim essa outra pergunta que surge logo em seguida: "Por que eu tolero isso?". E você descobre que, na maioria das vezes, ao responder a esta pergunta com sinceridade, os próprios motivos lhe soam mesquinhos. Eu acredito que cabe ao intelectual a aceitação de que estes níveis existem e que, muitas das vezes, estamos inseridos neles, queiramos nós ou não. Mas a intenção que move todo o intelectual é a busca por, através do pensamento, encontrar melhores formas de viver e de pensar, para que o que se viva tenha sentido, até mesmo o sofrimento.
E voltamos à pergunta: qual o preço da intelectualidade? Para Montag, pelo menos, esse preço é alto. O chefe do Corpo de Bombeiros, que antes estimava a persona de montag e que tinha como objetivo promovê-lo, agora vê nele o mesmo comportamento de seus suspeitos. Mas o que eu mais gosto é como o antagonista da narrativa, este mesmo chefe do Corpo de Bombeiros, é um intelectual ele próprio. Em determinado momento da história, ele confronta as atitudes de montag, convidando-o à reflexão. O monólogo que se segue é um dos mais profundos da literatura mundial, e vou explicar o porquê, mas primeiro vamos lê-lo:
> "Se não quiseres fazer um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda: não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso. Paz, Montag. Promova concursos em que vençam as pessoas que se lembrarem da letra das canções mais populares, ou dos nomes das capitais dos estados, ou de quanto foi a safra de milho do ano anterior. Enche as pessoas com dados incombustíveis, entupi-as tanto com fatos que elas se sintam empanzinadas, mas absolutamente brilhantes quanto a informações. Assim, elas imaginarão que estão pensando; terão uma sensação de movimento sem sair do lugar, e ficarão felizes, porque fatos dessa ordem não mudam. Não as coloque em terreno movediço como filosofia ou sociologia com que comparar suas experiências. Aí reside a melancolia. Todo homem capaz de desmontar um telão de TV e montá-lo novamente — e a maioria consegue hoje em dia — está mais feliz do que qualquer homem que tenta usar a régua de cálculo, medir e comparar o universo, que simplesmente não será medido ou comparado sem que o homem se sinta bestial e solitário."
Este monólogo é brilhante pois surge justamente do antagonista do livro, o chefe daqueles que são responsáveis por queimar os livros, dando a entender — como a adaptação para a peça de teatro posteriormente provou — que ele mesmo é um consumidor daqueles livros e, portanto, um intelectual. Beatty, diferente de Montag, acha que o preço que se paga pela intelectualidade é custoso demais; o protagonista o acha essencial.
Ao ver como as coisas parecem erradas ao seu redor no livro — para nós, enquanto leitores, há claramente uma ameaça de guerra, visto que caças são vistos sobrevoando o céu e o noticiário trata de modo muito superficial um conflito global, mas as pessoas estão tão alienadas em suas bolhas que ninguém parece prestar atenção nisso (no filme tal elemento não chega a ser abordado, pois a ameaça da perda do senso crítico já é o motivador suficiente) —, na obra original isso representa a luta pela sobrevivência, visto que o clímax da narrativa é diretamente atrelado ao bombardeio nuclear.
E neste mesmo cataclismo, mesmo com todo o sofrimento que vem com a mente questionadora, crítica e reflexiva, qual é a única coisa que salva o homem de si mesmo em *Fahrenheit 451*? Pelo menos é a busca pelo conhecimento, a natureza do pensar que faz com que pessoas memorizem livros inteiros para que no futuro possam registrá-los, não para se sentirem melhores do que os outros, mas para provarem que, com o pensamento crítico, até a mais escura das trevas pode ser superada.