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AQUILES de pés velozes • Adjetivos e Epítetos na ILÍADA [HOMERO]

Aquiles de Pés Velozes: Adjetivos e Epítetos na Ilíada

Neste trecho de análise literária, discute-se como o poeta grego Homero utiliza epítetos e adjetivos de forma funcional e narrativa nas epopeias épicas. O autor examina como características repetidas dos personagens na *Ilíada* e na *Odisseia* funcionam como promessas narrativas que eventualmente se cumprem na trama.

Como o Homero vai usar adjetivo? Ele vai falar assim: "Aquiles de rápidos pés", "Aquiles de pés velozes", "Aquiles do pezinho rapidinho", "Aquiles das pernas de gazela", "Aquiles que corre para caralho", "Aquiles que corre, que compete e vence cavalos". Como é que ele vai descrever Heitor? "Heitor, domador de cavalos", "Heitor, rei dos alazões", "Heitor, tomador de cavalos", "Heitor, o mestre dos cavalos", o "cavaleiro" mesmo, do cavalo, sabe? O Heitor cavaleiro, entende? E aí, toda vez que o Aquiles vai atrás — vai correndo atrás de um soldado —, ele fala: o soldado, o soldado troiano estava correndo do Aquiles, mas o Aquiles é rápido dos pés. Aí você fala: "Opa, entendi essa parada que ele fica repetindo o tempo todo, esse adjetivo que ele usa o tempo todo para o Aquiles". É verdade, porque o Aquiles está correndo atrás do cara para acabar com ele. Como é que eu não pensei que ele ia fazer isso? Porque você tá lendo, e toda vez ele fala "Aquiles de rápidos pés"; ele fala: "O cara estava correndo, estava lá longe", mas ele fala: "Mas o Aquiles", lembra? "rápidos pés", o Aquiles alcança o cara e mata ele, saca?

E aí, o Heitor, a mesma coisa. Tem uma parte lá — não lembro qual canto, acho que é um dos últimos cantos — em que o Heitor, ele tá sem o cavalo dele, e eu não sei se ele encontra um cavalo inimigo ou um cavalo aliado, mas que não é dele, né? E ele sobe no cavalo, e ninguém achou que ele ia conseguir domar ele. Mas quem que é esse cara? Heitor, mestre domador de cavalos, dominador de cavalos. Aí ele consegue domar o cavalo rapidinho, e você fala: "Ah, pô, aí, véi, claro, porque ele tá me prometendo isso direto, toda vez ele me promete essa bagaça".

E lá no finalzinho — não é o finalzinho da Ilíada, mas é um dos últimos cantos —, em que o Aquiles tá correndo atrás do Heitor para vingar o Pátroclo, eles começam a dar voltas na muralha. Só que o Heitor tá correndo do Aquiles, e o Heitor tá em cima de um cavalo, e o Aquiles atrás dele. Mas o que o Homero diz para você dez bilhões de vezes até ali? "Aquiles, que compete e vence cavalos". E ele alcança o Heitor. E aí você fala: "Caraca, maluco! Caraca, ele corre mais rápido do que um cavalo!". E ele tá falando isso o texto inteiro. Como é que eu não imaginei que, nessa cena aqui, ele ia conseguir alcançar? Porque, da primeira vez que eu li, eu tava lendo assim, tipo: "Ah, ele deve lançar a lança assim, deve chamar alguém para pegar ele, deve atirar com *hacker flash* alguma coisa", né? Não precisa. Ele tá me descrevendo que ele é rápido, é que ele só não me mostrou ainda. E aí chega lá e mostra, e você fala: "Cara, que irado, irmão, que irado demais!". Sacha, estoura a cabeça. Quando eu li a primeira vez, estourou minha cabeça, que eu falei: "Cara, não é só repetitivo. É repetitivo, mas com sentido".

Agora, eu concordo com o Ryan: se você fala "astucioso", "astucioso, esse cara aqui, ele é astucioso", e o cara não é — você falou lá três vezes que ele é astucioso no mesmo parágrafo, e o cara não é astucioso, você não mostrou —, pô, irmão, palhaçada. Se você quer usar adjetivos que não são, como o do Lovecraft, né? "Ah, ele é impossível, sabe, advém de uma geometria não euclidiana". Tem muito isso, né, velho? Essa geometria não euclidiana, eu vi no Stormlight também, já tá virando clichê essa porra, toda vez fala: "Geometria não euclidiana", coisa assim, tá ligado? No Stormlight ele fala de uma geometria impossível, ele não fala de uma geometria não euclidiana, porque não tem Euclides, né, no Stormlight. Mas, enfim, você não precisa fazer, usar adjetivos assim, saca? Tipo, indefiníveis, né? Adjetivos que não definem, né? Você pode usar adjetivos comuns, cara. É corajoso? Fala: "Ele é corajoso". Você fala assim: "Ele é muito corajoso e desajeitado", mas você nunca mostra. E aí, na hora que você vai mostrar, você mostra o cara sendo corajoso e desajeitado. O que que ele faz? Ele vai tentar enfrentar — é uma cena que seria gloriosa, mas ele é desajeitado, acaba morrendo. E você pode fazer isso ser não exatamente engraçado, você pode fazer isso ser triste, sabe? Que todo mundo que tinha capacidade para, sei lá, enfrentar aquele momento ali em que precisava-se de coragem… O pessoal que tinha capacidade não foi corajoso, fugiu — não, não foi corajoso e fugiu. O cara que tinha coragem, mas que era desajeitado, foi. Só que ele é desajeitado e ele morre, e você fica triste, você fala: "Pô, cara, tipo, o cara que não tava preparado foi para cima", sabe?

E aí você tá pagando uma promessa, só que você tá pagando uma promessa, tá conseguindo cumprir isso, né, como faz o Homero. Outras coisas assim, eu acho que até, cara, no conto dele, tinha várias oportunidades para ele fazer isso aí, que é motivo também, tá ligado? Porque o carinha, ele não podia ser só aspirante, ele tinha que subir para ele poder ficar com a menina, falaram isso para ele. Então, tinha muito momento ali que ele não precisava ser corajoso, ele só precisava que o sangue não estivesse na cabeça, né? Tá ligado?

Sim, sim. Agora, agora, passando a parada aí, ele sobe… Quando você insiste num adjetivo, você tem que ser leal a ele. Se você fala que ele é muito, como pode dizer?, que ele é muito apaixonado no sentido erótico da palavra, bem *Eros* mesmo, muito apaixonado, meu irmão, assim que a mulher estiver em outro canto e aparecer uma outra menina tão boa de apertar quanto, ele tem que ceder. Por quê? Porque ele é um cara muito apaixonado, você não vai mudar o negócio, né, cara? Você vai dizer que ele é muito apaixonado, ou você pode, se quisesse brincar, você podia falar que ele era um cara, eh, que um cara muito apaixonado, porém também muito púdico. Ou seja, toda vez que a mulher tava assim quase que aberta para ele, ele freava. Por quê? Porque ele é muito apaixonado, ele flerta bastante, ele cativa muito, escreve poema, não sei o quê, vai tentar, vai ficar tentando a mulher, mas ele é púdico, e ele fala: "Não, não posso, não posso". E você fica brincando com isso, cenas em que o cara… Você fala assim: "Com certeza vai acontecer isso aqui agora", e ele: "Não, não, não posso, não sei quê", entendeu? Seja leal! Seja leal!

Quando você vai insistir no adjetivo, seja leal. E se você não for fazer assim, não for fazer o adjetivo lá do Homero, né? Eh, cara, eu concordo com o Ryan: não use tanto. Às vezes você não precisa mesmo, não. Advérbio, adjetivo, você não precisa tanto assim usar, realmente não precisa tanto assim usar. Você usa quando precisa. E não tenha medo de repetir um adjetivo, cara. Quando você precisar repetir, repita. Mas não vai falar que o cara, tipo, sabe, o cara é astucioso, e você não mostra esse astucioso — é uma promessa que não foi paga. Você fala que ele é inteligente, e você não mostra esse inteligente; você fala que ele é inteligente e não mostra ele sendo inteligente, pô. O cara é palhaçada, entendeu? Quem é inteligente é alguém que resolve problemas; alguém que sabe resolver problemas é alguém inteligente, engenhoso, coisa assim. Na Odisseia mesmo, pô, como é que fala do Odisseu? Engenhoso! Odisseu engenhoso, engenhoso. A primeira frase da Odisseia é uma parada: "Ah, o Odisseu engenhoso, não sei o quê", o Odisseu, o cara engenhoso.

Como é que ele escapa da toca lá do Polifemo, do ciclope Polifemo? Como é que ele escapa? Ele pega os caras lá, né? Ele trava um… Ele fala que o nome dele é "Ninguém", né? Fala: "Meu nome é Ninguém", e tal, que o Polifemo pergunta para ele. Aí ele, com os outros de noite, crava uma estaca no olho do Polifemo. Eles correm, ficam debaixo da das ovelhas gigantes do Polifemo. O Polifemo sai correndo para fora assim com as ovelhas, vai falar: "Ah, me atacaram, me atacaram!". Os outros gigantes falam: "Atacou quem? Quem te atacou?". Ele fala: "Ninguém, ninguém me atacou". Os caras ficam: "Ué, como assim, ninguém te atacou?". E aí, depois, o Odisseu e a trupe dele descem das ovelhas, saem correndo, tá ligado? Vão embora. E ainda fala: "Ah, fui eu, Odisseu, que não sei o quê, que acabei contigo". Mas você vê, ele é engenhoso, pô! Ele enganou o cara, velho, ele deu um nome falso, que é paradoxal, ele fala: "Eu chamo Ninguém". Ele conseguiu, eh, como dizer, desprover o cara de um dos, de um dos sentidos dele, e ele conseguiu fazer com que o cara, com que o Polifemo levasse ele e a trupe dele para fora, ficando embaixo das ovelhas. Pronto, sabe? Não precisa ser assim, que sabe fazer desse jeito assim, entendeu?

Mas você vê que, toda vez que ele fala "Odisseu engenhoso", você fala: "É mesmo, tá paga a promessa". O Odisseu, ele é engenhoso mesmo, ele realmente é engenhoso, saca? Isso é bom, esse uso de adjetivos é interessante, porque você consegue fixar uma característica no personagem, tá ligado? Você consegue fixar isso muito bem, entendeu? Você consegue fixar isso muito, muito, muito, muito bem mesmo, né? Então, até gente que nunca leu a Ilíada, não sabe que o Homero fica falando toda vez: "Ah, o Aquiles de rápidos pés", "Aquiles de pés velozes", "Aquiles compete com cavalos e os vence", mesmo quem não leu, sabe. Sabe que o Aquiles é um guerreiro rápido, sabe que o Aquiles é um guerreiro muito ágil, entendeu? Mesmo quem não leu, mesmo quem só viu ali de relance, fala: "Ah, o Aquiles é um tal do guerreiro, né? Ele fica em cólera lá, vai vingar um amigo, vai vingar o amigo dele, né? E ele é meio ágil, rápido assim, ele é muito veloz", com para a coisa assim, entendeu? Mesmo quem não leu, sabe. Mas não precisa ser assim, é um jeito, é um jeito. Se quiser usar, é um jeito.