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Personagem com MOTIVAÇÃO CLARA não é obrigatório • Panda

Personagem com Motivação Clara Não é Obrigatório | Panda

Neste corte de transmissão, o criador reflete sobre como a falta de motivação clara em personagens de ficção nem sempre prejudica uma obra, desde que a trama e outros elementos sejam bem construídos.

Recentemente, fui ver com meu irmão a nova adaptação francesa de *O Conde de Monte Cristo*. O filme é grande, com uma parte inicial muito legal, mas os últimos trinta minutos foram uma verdadeira desgraça que estragou a experiência. Como eu nunca li o livro — apesar de ter os dois volumes em casa —, acabei pesquisando o final na internet e lendo para o meu irmão. Ele concordou que o final da obra original é infinitamente melhor. No entanto, o ponto que quero destacar não é apenas a derrapada no final, mas a questão da motivação dos personagens, ou melhor, a falta dela, ou o fato de ser uma motivação escondida. Eles estão motivados, mas não sabemos exatamente por quê.

Essa estranheza não significa necessariamente que o filme precisava ser diferente ou que isso seja um defeito imperdoável. Quando digo que "precisava melhorar isso", é porque fiquei descontente com algum aspecto específico, como aconteceu no final desse filme. Mas, no geral, a trama é muito bem arquitetada. O fato de os personagens não serem tão multidimensionais, serem um tanto previsíveis e terem motivações pouco claras acaba sendo tranquilo. O problema real seria se a trama fosse ruim; aí sim seria insuportável. Existem filmes em que a trama não é grande coisa, mas o personagem é super bem desenvolvido e você assiste à obra só por causa dele.

Portanto, não diria que a falta de uma motivação cristalina é um ponto negativo; é mais uma estranheza, algo a que não estamos acostumados a ver. Existem obras em que não entendemos muito bem o que está acontecendo com os personagens e onde a trama não parece estar tão bem posta. Contudo, há algo além do personagem e da trama que casa com essa estrutura e faz com que isso funcione, tornando a obra até melhor.

Em alguns livros e filmes, é melhor não entender exatamente o porquê de o personagem estar fazendo o que faz, nem para onde as coisas estão indo. Isso costuma funcionar quando há um forte apelo no cenário, nas observações que eles fazem ou no que dizem uns aos outros — a parte retórica da obra. Às vezes, isso é necessário porque há tantos personagens que não dá para aprofundar em todos. Se você aprofundasse em alguns específicos, perderia a escala global da observação, dando a impressão de que a história é apenas sobre meia dúzia de pessoas enquanto os outros viram meros coadjuvantes. Não estou lembrando de nenhum título específico agora para ilustrar perfeitamente, mas é sempre assim: daqui a quatro dias vão me vir à mente bilhões de exemplos.