Tem uma parada chamada Batalha do Estábulo, que é basicamente a primeira batalha que eles têm com os humanos, a primeira batalha depois da revolução. Isso ainda no segundo regime, que é uma democracia direta. Os porcos foram escolhidos para ficar no comando porque os animais pensaram: "Pô, o Major era um porco, ele era sábio e tem os outros porcos aqui". Então, quem é porco é sábio, que os porcos fiquem aí dirigindo a gente. Então é isso. E aí tem a Batalha do Estábulo, em que o Bola de Neve faz as estratégias ali. Ele estudou as estratégias do Júlio César, e ele faz as estratégias ali e tem um momento que ele toma um tiro no ombro e mesmo assim ele consegue avançar e morder a perna do Jones. O Jones dá um tiro nele com a carabina e ele avança e morde a perna do Jones. Eles acabam por vencer essa batalha. Eles vencem essa segunda batalha, porque tem a primeira lá da revolução e essa é uma segunda batalha que fica conhecida por eles como Batalha do Estábulo. E aí o cavalo Sansão é condecorado; tem uma cabra que morre e é condecorada também, e o Bola de Neve também é condecorado.
Só que depois que o Bola de Neve é expulso, já no terceiro regime, o que acontece no regime totalitário lá, o que acontece é que o Garganta vira e fala: "Gente, teve uns animais aí que espalharam uns boatos de que, na Batalha do Estábulo, o Bola de Neve, o traidor Bola de Neve, seria aquele que teria salvado a gente, tomou um tiro… enfim, o cara que salvou a gente. Mas não, o Bola de Neve, na verdade, ele estava trabalhando para o inimigo, ele era um agente duplo. A estratégia dele era justamente tentar fazer a gente perder". Aí o Sansão fala: "Pô, mas o Bola de Neve tomou um tiro". "Não, mas camarada, isso aí é tudo parte do plano, entendeu? Isso é parte do plano dele, é que deu errado porque, graças ao camarada Napoleão, a gente conseguiu vencer". Ou seja, ele está substituindo uma memória por uma imagem. O espetáculo justamente é isso. O espetáculo começa com a substituição de memórias por imagens, de substâncias por sombras, entendeu?
E aí, só que mais para frente, o Garganta vai chegar e falar: "Gente, teve um pessoal aí, uns animais aí, que espalharam rumores de que o Bola de Neve, o traidor Bola de Neve, na Batalha do Estábulo, levou um tiro no ombro e que ele mordeu a perna do Jones, que ele estava do nosso lado… mesmo que agindo pelo inimigo. Mas não, camarada, isso é mentira. O que estava acontecendo mesmo é que" — olha que doido — ele fala que o Bola de Neve estava do lado dos humanos, partindo para cima dos animais, gritando "Morte aos animais, viva a humanidade!", e que quem tomou o tiro, na verdade, foi o Napoleão. Foi o Napoleão que tomou o tiro no ombro e foi o Napoleão que mordeu. Aí você fala: "Pô, ele está refutando a própria mentira". Sim, mas é que está, ele está transferindo a mentira que ele construiu, aquela primeira imagem que ele usou para substituir a memória, ele está botando isso na conta de outros animais, seja quem for, e ele está substituindo essa imagem por outra, mais fictícia ainda.
O espetáculo para Debord é justamente isso: primeiramente, é a substituição da memória pela imagem, e depois a imagem por outra imagem, e uma imagem por outra, e por outra, e por outra, e por outra, até você não saber mais. Porque o mais longe que você consegue lembrar é uma mentira também; você já esqueceu da memória. O que você mais lembra para trás são imagens. Então você está preso. O espetáculo é isso, é uma prisão que, se você se deixar levar por tempo suficiente, você já não consegue mais lembrar.
O Garganta é esse cara do espetáculo. E é interessante porque ele usa diversos meios, ele conta a parada com muito entusiasmo e ele tem a mania de balançar o rabo. Ele fica balançando o rabinho dele, aquele rabinho de porquinho, aquele rabinho enroladinho, ele fica balançando assim, entendeu? E os outros acham divertido. Ou seja, ele fala com ênfase, ele se mexe muito, ele tem uma linguagem corporal muito convidativa, muito entusiasmada. E já no terceiro regime tem vários cachorros que ficam seguindo ele para todo canto. Então as pessoas chegam perto dele um pouquinho para falar, para fazer uma pergunta, e os cachorros começam a rugir.
E tem um personagem que confronta ele de vez em quando, que é o Sansão, que fala: "Não, mas o camarada Bola de Neve é um bom camarada, ele não era traidor não, eu confio nele". Só que o Sansão tinha uma máxima antes, que é: "Vou trabalhar mais". Deu um problema, Sansão? "Vou trabalhar mais". Estamos com problema? "Vou trabalhar mais". É só isso. Ele é o homem do trabalho, com grande coração. Só que no terceiro regime ele começa a adotar uma segunda máxima junto, que é: quando dá um problema, "Vou trabalhar mais e o camarada Napoleão nunca se engana". Deu um problema? "Vou trabalhar mais e o camarada Napoleão nunca se engana".
E aí, quando ele vai confrontar o Garganta, o Garganta fala: "Ô, amigo, não se esqueça que todas essas informações que eu estou trazendo para vocês aqui vieram diretamente do nosso camarada Napoleão". Aí o que o Sansão faz? "Ah, tá, se foi Napoleão que disse, deve ser verdade". Não tem uma hora que é pior ainda, que o Garganta fica irritado porque o Sansão está insistindo que ele lembrava? "Não, o que eu lembro não é assim não". Aí ele fala assim: "Presta atenção, o nosso líder Napoleão decretou assim". "Ah, então tá bom, ah, então deve ser verdade, deve ser isso mesmo". Pronto, acabou.