Neste trecho de uma discussão literária transmitida online, dois leitores debatem a recepção crítica de um comentário feito nas redes sociais sobre o clássico *A Metamorfose*, de Franz Kafka. A polêmica gira em torno do fato de uma influenciadora ter afirmado que a premissa inicial do livro — na qual o protagonista acorda transformado em um inseto — não lhe causou surpresa nem entusiasmo, gerando um debate sobre o valor estético da obra, o uso do elemento fantástico na literatura e o estranhamento diante do absurdo kafkiano.
Sobre a edição da Antofágica, algumas pessoas criticaram a tradução e recomendaram a versão de Modesto Carone. Para ser bem sincera, eu só critico traduções aqui porque não sou formada em letras e não tenho nenhum embasamento para falar sobre o assunto, a menos que a tradução realmente se torne ilegível, impedindo a leitura do livro. No entanto, não tenho nenhum comentário específico a fazer sobre a tradução desta edição, pois a achei legível. Vamos conversar sobre esse livro porque cometi um grande erro: fiz um comentário despretensioso em uma rede social mais informal, dizendo que não havia gostado da obra e que não me havia cativado pela premissa inicial, conhecida por todos, de que Gregor Samsa se transformara do dia para a noite em um inseto monstruoso.
Eu disse isso porque a maior parte das resenhas e textos sobre este livro trata essa premissa como algo fantástico. As pessoas geralmente leem a primeira página destacando o trecho em que Gregor Samsa, certa manhã, ao despertar de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso. A partir daí, muitos interpretam aquilo como um marco do fantástico. O professor José Molina aponta que existe um catálogo com cerca de 150 interpretações possíveis que tentam explicar o que Kafka quis dizer com essa transformação. O nome do tradutor citado anteriormente é, na verdade, Modesto Carone. Muitas pessoas acham que, a partir do momento em que o personagem vira um inseto, começa uma história estritamente fantástica. Ocorre uma ocorrência fantástica, de fato, mas a questão é que a leitora em questão parece não estar acostumada a esse tipo de narrativa.
Franz Kafka é conhecido por subverter expectativas logo no início de seus textos. Conheço obras dele como *O Veredito*, *O Processo* e *Na Colônia Penal*. Em todas elas, você já encontra o mote principal logo na primeira frase ou no primeiro parágrafo. Diferente dos manuais de escrita criativa, que ensinam a usar uma frase marcante para prender o leitor enquanto algo gradual se desenvolve ao longo da página, Kafka entrega a situação mais extrema logo no início. Leitores comuns de ficção podem estranhar essa abordagem direta, mas é curioso que a leitora tenha achado a situação de um homem virar um inseto a coisa mais normal do mundo. É muito esquisito que ela não tenha achado isso estranho, como se lesse apenas conteúdos de política e, ao ler ficção, não compreendesse os padrões e as quebras propostas por Kafka.
Analisando outras obras, em *O Processo*, a primeira frase diz: "Alguém certamente havia caluniado Joseph K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". O personagem é preso sem saber o motivo e passa a dialogar com pessoas que o tratam como suspeito, mandando-o se entender com o juiz. A história de *A Metamorfose* registra o fantástico logo de cara, pois uma pessoa que vira um inseto gigante é o ápice do gênero. Pode-se gostar ou não, assim como ela disse gostar de *Moby Dick*, cuja famosa primeira frase ("Chame-me de Ismael") faz uma referência bíblica e estabelece um paralelo com o Capitão Ahab, mas não utiliza o registro do fantástico da mesma forma que Kafka, cujo absurdo é deflagrado imediatamente.
Pense nisso: imagine que você vai visitar um parente ou parceiro e, ao abrir a porta, encontra um inseto gigante. Para a leitora, isso parece não ser nada; ela age como se fosse algo corriqueiro, equivalente a abrir a gaveta e encontrar um palhaço soltando fogo pela boca. Ela chegou a postar algo como "ele virou um inseto e daí?", acompanhado de um subtítulo sobre a metamorfose. Como alguém que conhece o básico da premissa ignora completamente a novidade e o impacto que o livro traz?
Pode-se argumentar que a surpresa se perde quando a pessoa já conhece a história de antemão. Eu mesmo já sabia que Gregor Samsa virava um inseto muito antes de ler o livro pela primeira vez, sem nem saber quem era Kafka. Quando voltei a ler depois de descobrir o autor, reli com outro olhar. No entanto, se o comentário dela se referia ao impacto da primeira vez em que ouviu a frase, seria compreensível que não houvesse surpresa hoje; mas, pelo contexto, ela criticava a obra em si, como se aquela premissa não fosse surpreendente por natureza.
Quando fiz meu primeiro comentário, eu havia lido apenas até a metade do livro e disse simplesmente que não o havia gostado, pois o fato de uma obra possuir inúmeras interpretações possíveis não a torna automaticamente boa para todos. Isso não significa que a pessoa esteja errada, afinal ninguém é obrigado a gostar de uma obra literária. Podemos concordar que as interpretações acrescentam valor, assim como *Os Demônios*, de Dostoiévski, é uma narrativa excelente que ainda traz discussões filosóficas profundas — embora pudesse ser lida e apreciada pelo enredo mesmo sem o viés filosófico. Esse era o meu ponto inicial: explicar por que a premissa de Gregor Samsa se transformar em um inseto monstruoso não é, por si só, algo cativante para todos os leitores. Este é um vídeo muito mais heurístico do que argumentativo, e isso deve ser levado em conta.