A tradução do livro da Antofá é bem diminuta. Algumas pessoas criticaram a tradução feita pelo Pedro Tamancini — não sei se é assim que se pronuncia o nome desse tradutor — e recomendaram a tradução feita pelo Modesto Carone, acho que é esse o outro tradutor. Mas, para ser bem sincera, eu só critico traduções aqui porque não sou formada em letras, não tenho nenhum embasamento para falar sobre traduções; só critico traduções que realmente se tornam ilegíveis. Já falei várias vezes de traduções aqui para o canal que são traduções que de fato impedem a leitura do livro, mas não tenho nenhum comentário para fazer sobre a tradução específica deste livro aqui, porque o achei legível.
Por que vamos conversar sobre ele esta semana? Porque cometi um grande erro. Cometi o grande erro de fazer um comentário super despretensioso nas minhas redes sociais mais informais, o Twitter, dizendo que não havia gostado do livro e, mais do que isso, que não havia me cativado pela premissa inicial, que todo mundo conhece, que é a premissa de que Gregor Samsa havia se transformado do dia para a noite em um inseto monstruoso. E por que eu disse isso? Porque a maior parte das resenhas que você vê aqui no YouTube, a maior parte dos textos sobre esse livro, acha que isso é uma coisa fantástica. "Meu Deus do céu, olha como esse livro começa!" O livro começa e geralmente leem a primeira página dizendo que Gregor Samsa, o personagem principal deste livro, num belo dia de sol, acorda e vê-se transformado em um inseto monstruoso. Sempre leem esse trechinho: "Quando Gregor Samsa certa manhã despertou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado em um inseto monstruoso". E uau! A partir daqui, o livro se torna uma coisa fantástica.
Aí começam as inúmeras interpretações. O professor José Mindlin diz que tem até um catálogo de interpretações possíveis para esse livro, que já está na casa das 150 interpretações possíveis, tentando explicar o que Kafka quis dizer quando afirmou que alguém se transformou em um inseto monstruoso. E eu só disse…
Primeiro, o nome do tradutor lá é Modesto Carone. As pessoas acham que, a partir do fato de ele ter virado um inseto, começa uma história fantástica. Quer dizer, começa literalmente uma história fantástica nesse sentido, uma coisa fantástica aconteceu. Mas a grande questão é que parece que a Débora não anda lendo muito livros desse tipo, dessas narrativas. Não sei que tipo de livro ela anda lendo, porque a grande diferença que todo mundo enxerga em Kafka — eu li Kafka, conheço *A Metamorfose*, conheço um conto dele chamado *O Veredito*, conheço *O Processo*, *O Castelo* não, *Na Colônia Penal*, conheço bastante coisa, sim — é que, se eu não me engano, em todos eles você já tem o tom do livro na primeira frase ou no primeiro parágrafo.
Então, diferente do que se espera de um livro, em que você precisa ter uma primeira frase marcante — o que é quase uma regra que o pessoal ensina em cursos de escrita criativa e em livros —, apesar de você ter uma frase marcante para prender o leitor e uma primeira página inteira marcante, alguma coisa tem que acontecer antes de virar a página. E isso é mais para os livros de agora. Não é bem isso que acontece nos livros de Kafka: ele realmente entrega a coisa mais doida do livro logo no começo, e os leitores acostumados com qualquer tipo de leitura comum de ficção não estão habituados a isso. É de se esperar que, quando a pessoa pegue uma primeira frase tão doida, tão esquisita assim, fique um pouquinho surpresa, mesmo que o livro seja uma bosta depois. É muito curioso você começar o livro e o cara já virar um inseto. Então, é estranho que a Débora não ache isso estranho também. Ela achou a coisa mais normal do mundo o livro começar assim: "O cara virou um inseto". Ela achou normal, sabe? É muito estranho.
Enfim, continua aí. Não sei se você quer comentar alguma coisa, mas isso é muito esquisito da parte dela. Parece que ela não lê nada, lê só coisas de política, sei lá o quê. E aí, quando lê ficção, não entende o que está acontecendo, não entende os padrões. Kafka se acostumou a quebrar um monte de coisas a que a gente está acostumado, e é por isso que as pessoas também tomam um susto. É muito natural isso, mesmo que você não goste depois do livro.
Vamos lá. Você mencionou aqui *O Processo*, *O Castelo*, *O Veredito*… *O Castelo* não, *O Castelo* não li, mas *O Processo*, *O Veredito*, *Na Colônia Penal*. Em *O Processo*, a primeira frase é a seguinte: "Alguém certamente havia caluniado Joseph K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum". O cara foi preso sem saber por que estava sendo detido, e começa a entrar em um diálogo dentro da casa dele com um monte de gente que vem falar com ele, tratando-o como se ele já fosse um super suspeito, dizendo: "Você vai ter que ver isso com o juiz". E para ver o juiz… aí vocês vão ter que ler a história.
Mas enfim, outra coisa que o Lucas falou é que a história na primeira frase já começa a ser fantástica. Sim, Débora, isso é justamente o registro do fantástico! Pô, uma pessoa que vira um inseto gigante é o ápice do fantástico. Tudo bem que ela pode ter dito "fantástico" no sentido de "ah, muito incrível, muito diferente, meu irmão, olha…". Ela gostou muito de *Moby Dick*, eu gosto também. A primeira frase de *Moby Dick* é "Chamem-me de Ismael". Beleza, é uma referência à Bíblia, show, tem um paralelo entre o capitão Ahab e o Ismael, legal, mas não é um registro do fantástico. A gente começa a entrar no fantasioso de forma mais marcante só depois na obra, e não é a parte principal.
Mas enfim, você tem outros inícios que são tão marcantes quanto, mas nenhum deles denota o fantástico como Kafka. Vários vão denotar, obviamente, mas muitos não. Kafka já começa na parada mesmo, entendeu? Ele não perde tempo. E assim, eu acho estranho, velho. Pensem o seguinte: vocês devem morar com algum parente, namorado, namorada, esposo, esposa, filho, filha, pai, mãe, enfim. Imagina que amanhã tu bate na porta dessa pessoa para ver como é que ela está, ou algo assim, tu abre a porta e tem um inseto gigante. Para a Débora, isso não é nada. Para mim, seria algo como: "Abro a porta do quarto dos meus pais, minha mãe virou um inseto. Caraca, maluco, pera aí, velho!". Mas para a Débora não, para ela é uma coisa corriqueira virar um inseto. É como se ela abrisse a gaveta do quarto dela e saísse um palhaço soltando fogo pela boca.
De onde é que ela tirou aquele negócio? "Ele virou um inseto e daí?" Está no título: *A Metamorfose*, entre parênteses, Kafka. Entendeu? É "ele virou um inseto, e daí?". E daí, velho? Caraca, e daí, pô? Como é que uma pessoa que já conhece o básico do livro, sem levar em conta a novidade que ele trazia… Pode ser uma coisa bem estúpida de fazer. Tudo bem, você pode de fato… "Eu já sabia que o Gregor Samsa virava um inseto muito antes de eu pegar esse livro para ler". Mentira, não sabia! Eu li pela primeira vez e nem sabia que era Kafka, mas quando voltei para ler depois que descobri que era Kafka, falei: "Caraca!", fui reler e até li uns trechinhos antes de fazer essa última leitura, que foi há alguns dias atrás.
Cara, você pode não se surpreender depois que já ouviu falar, aí você abre o livro e pensa: "Tá bom, a história é sobre um inseto e tem a relação com a família dele que é meio conturbada". Mas e a primeira vez que você ouviu? E a primeira vez que você teve contato com essa frase? Se ela estiver fazendo referência a isso — a não ser ao que ela leu ali depois de saber quem é Kafka —, da primeira vez que ela viu a frase, ela pensou: "E daí que virou um inseto?".
Aí beleza, agora está falando. Porque nos dois casos é burrice, pô. Ou é esquisito para caralho: o cara virou um inseto e ela pensa "ah, que livro, todo livro é assim", ou ela está falando de ter lido a primeira frase já sabendo dela há muito tempo. É óbvio que ela não vai ligar para a surpresa da obra, mas ela está falando da obra! Ela está dizendo que isso não é surpreendente na obra. É por isso que eu acredito que ela não está falando da primeira experiência dela com o livro, mas da primeira vez que ela ouviu essa frase. Ela ouviu a frase e achou normal: "Ah, normal". Quando o livro diz que alguém se transformou em um inseto monstruoso…
Eu só disse que não gostei. Eu tinha lido até a metade quando fiz o meu primeiro comentário; disse que não havia gostado do livro simplesmente, e que não acho que o fato de o livro ter interpretações possíveis salve um livro que é ruim. Eu concordo — não, eu não concordo que esse livro seja ruim, enfim —, mas ele não seria um livro bom só porque tem interpretações. Não gostar de uma obra não implica que você esteja errado nem nada. Ninguém é obrigado a gostar de uma obra. Ou concordamos com ela que, objetivamente, precisamos gostar do livro pelo que ele é, e as inúmeras interpretações possíveis só acrescentam mais ao livro, certo?
O livro *Os Demônios*, de Dostoiévski, por exemplo, é um romance legal, uma narrativa legal, e tem um bônus que é uma discussão de filosofias ali dentro, que são discussões interessantes. Mas se você quiser ler *Os Demônios* sem entender nenhum tipo de filosofia, vai ser uma leitura legal mesmo assim. Ponto final. Esse era o meu ponto inicial: explicar por que a premissa de Gregor Samsa ter se transformado em um inseto monstruoso para mim não é uma premissa mágica muito interessante, certo? Então, tudo bem que ela falou aqui: para ela, ela vai explicar por que não é interessante, vai dar os motivos dela. Este aqui é um vídeo muito mais heurístico do que argumentativo, então tem que levar isso em conta.