Uma outra crítica que as pessoas fazem é que a *Poética* não reconheceria alguns dos arquétipos que temos hoje, limitando-se aos do herói e do vilão, de forma bem preto no branco. O pessoal diz que a percepção de Aristóteles sobre a arte era muito simplista, mas isso é uma bizarria e uma leitura muito rasa.
Isso se deve simplesmente a quem não prestou atenção. É estranho ver pessoas que produzem conteúdo sobre a obra, tendo lido a *Poética* justamente para fazer vídeos sobre ela, encontrarem um Aristóteles preto no branco que só admite o herói e o vilão. Como é que sabemos que há muito mais do que isso em Aristóteles? Basta continuar a ler e chegar ao capítulo dois. São apenas duas páginas de distância do capítulo um.
Lendo o capítulo dois, Aristóteles diz o seguinte: "Uma vez que quem imita representa os homens em ação, é forçoso que estes sejam bons ou maus, melhores do que nós, piores do que nós, ou tal como somos, semelhantes a nós. Assim, Homero representa os homens melhores do que são; Cleofonte, exatamente como são; e Égmon de Tasos, o primeiro que escreveu paródias, assim como Nicocares, o autor da *Ilíada*, os representam piores do que são".
Ou seja, Aristóteles traz para nós os conceitos de caráter bom, mau, melhor que nós, pior que nós, ou no meio — o preto, o branco e o cinza. E ele não só fala disso como dá exemplos. Infelizmente, dos autores citados, apenas a obra de Homero resistiu integralmente ao tempo; afinal, não se pode culpar Aristóteles pela perda dos textos. Ele cita Cleofonte, Égmon de Tasos e Nicocares como aqueles que representam pessoas do meio ou piores do que nós. Portanto, não é nada preto no branco.
Além disso, em outros capítulos da obra, ele fala sobre a caracterização de personagens e sobre o teatro de sua época. Ele admite — e não era difícil para ele perceber, já que vivia no século IV a.C. — que boa parte das peças e tragédias de seus contemporâneos apresentava personagens que não tinham um caráter definido. Eram personagens cinzentos, cuja índole não se sabia ao bem se queriam o bem ou o mal. Portanto, já na Antiguidade, havia personagens moralmente misturados.
Existe um mito muito difundido ao se falar de histórias de cavalaria e literatura medieval, como se a princesa indefesa e o cavaleiro bonzinho fossem a representação máxima da perfeição, enquanto os bandidos fossem absolutamente do mal, sem nenhum meio-termo ou ambiguidade. Quando vamos ler de fato a literatura medieval e a tragédia grega, descobrimos que não é assim. Eu mesmo já li tragédias inteiras de Ésquilo, Sófocles e Eurípides, e juro que não encontrei esses personagens perfeitos, impecáveis, nem o vilão unidimensional que todo mundo odeia por pura maldade.
O que Aristóteles diz é que, desde a Antiguidade, isso não existe na literatura. Quem afirma o contrário demonstra um desconhecimento gigantesco e uma leitura preguiçosa dos materiais antigos, preferindo falar mal sem conhecer. Se pegarmos romances arturianos e novelas de cavalaria anônimas — como *Yvain, o Cavaleiro do Leão*, *Perceval, o Conto do Graal*, *A Morte do Rei Artur*, entre outros —, não vamos encontrar o cavaleiro perfeito que nunca tem medo ou dúvidas, nem a princesa passiva e burra numa torre.
No entanto, o erro de leitura persiste. Dou um exemplo: lia recentemente o poema de uma poetisa contemporânea muito boa, mas que aparentemente não leu bem a *Odisseia*. No poema, ela reconstrói a história sugerindo que Odisseu viaja em sua lenda enquanto Penélope fica em casa tecendo e desfazendo a rede para despistar os pretendentes abusivos que consomem seus bens. A autora propõe uma visão lírica onde Penélope deveria simplesmente abandonar o tear, ir viver aventuras e amar outros homens, como uma adolescente moderna adepta da contracultura.
Mas quem leu a epopeia percebe o problema: os pretendentes não são apenas pretendentes românticos, são homens armados ocupando a casa dela à força, ameaçando sua segurança e exigindo uma escolha por sobrevivência. Uma leitora que valida a ideia de que Penélope deveria apenas ter aceitado os invasores demonstra um desconhecimento profundo do contexto e da literatura antiga, querendo interpretar textos clássicos a partir de premissas rasas que acabam por distorcer completamente a obra original.
Enfim, essa seria mais uma suposta limitação da *Poética* ou de Aristóteles que simplesmente não faz sentido. Recomendamos que leiam o livro com calma, pois nele há uma farta construção de personagens que vai completamente na contramão dessa ideia de que Aristóteles defendia personagens puramente pretos no branco.