Menu fechado

ARISTÓTELES ignora o lado romântico e experimental da poética?

ARISTÓTELES ignora o lado romântico e experimental da poética?

Sobre a questão de que Aristóteles supostamente ignoraria o lado romântico da composição e um lado mais experimental, vamos abordar os dois pontos. Aristóteles falar sobre o lado mais romântico e experimental da composição está no capítulo 17 da Poética, onde ele afirma que, tanto quanto possível, o poeta deve bem completar os enredos com gestos. Com o mesmo talento, os poetas mais convincentes são aqueles que sentem as emoções: quem sente fúria transmite fúria, e quem está irritado mostra a irritação de forma mais realista. Por isso, a arte da poesia é própria dos gênios e dos loucos, já que os gênios são versáteis e os loucos deliram.

Quando ele diz na primeira frase sobre "completar os enredos com gestos", não significa fazer didascalias, como indicar que o personagem fez isso ou aquilo — embora isso não fosse proscrito, não é disso que ele está falando. Os gestos aqui referem-se à composição, ao fato de que o poeta tem que entrar no gesto do personagem. Por exemplo, há anedotas sobre um dramaturgo de quem perdemos toda a obra — não restou nada dele —, que, quando ia compor sobre mulheres, vestia-se de mulher, colocava sapatos femininos, vestido, saia, maquiagem e saía andando por aí imitando mulheres, como uma drag queen. Ele queria entender como era ser mulher, frequentava lugares com mulheres, ouvia-as falar e tentava copiar sua fala para conseguir entrar na pele do que é ser mulher.

Há também uma peça muito engraçada e excelente que vocês podem se interessar, que é *As Nuvens*, na qual Aristófanes — o único autor cômico do período clássico grego do teatro que sobrou para nós — faz piada tanto com Sócrates quanto com Eurípides. Eurípides era um dramaturgo contemporâneo àquela época. Imagine Eurípides assistindo a uma peça com um personagem que o representa e pensando: "Caramba, sou eu! Não é alguém como eu, sou eu com meu nome!". E o Sócrates olhando a mesma peça e pensando: "Caramba, sou eu, ele está me representando ali!". Na comédia de Aristófanes, Eurípides quer escrever sobre um personagem que tem um problema no pé e não consegue andar direito, e para conseguir escrever sobre isso, ele coloca as pernas para o alto em cima da mesa e fica tentando escrever assim. Claro que ninguém faz isso na prática, mas o autor vai brincando com a ideia de ter que escrever sobre alguém que não consegue andar, ou sobre um morto — fazendo com que o personagem entre no caixão com medo de morrer, o que é muito engraçado.

Portanto, há esse lado experimental de tentar, através de mudanças físicas, entrar no personagem e entender como as coisas funcionam. Não se trata apenas de pensar, mas de fazer mudanças físicas reais. Por exemplo, se o poeta precisa descrever o golpe de uma espada, ele pega uma espada e fica praticando fora de cena para conseguir descrever melhor a lâmina descendo sobre o punho como um raio — já que o raio é o centro do círculo, ele tenta praticar para entender como funciona.

Inclusive, ao falar de golpes mortais, o golpe mais conhecido pelos militares, que é mortal porque todos conhecem (inclusive Aristóteles, que passou pelo serviço militar), é o golpe no pescoço, como Aquiles faz com Heitor na Ilíada. É o golpe na jugular, onde a armadura dórica não oferece proteção. Quando o autor menciona que um personagem matou o outro cortando-lhe o pescoço em combate, entende-se imediatamente que é uma referência à Ilíada, ao duelo entre Aquiles e Heitor, em que o primeiro golpe de Aquiles corta o pescoço de Heitor com sua lança e vence a batalha.

Quanto ao lado romântico, seria o lado de inventar, de conseguir tirar coisas do próprio gênio, de ser um poeta criador. Estou parafraseando aqui uma questão que já vimos anteriormente, se não me engano do poeta Agatão, que inventava vários personagens, tramas e tudo o mais, sem encontrar correspondência em nenhum lugar do cânone — perdidos no tempo, mas elogiados por inventarem tudo. Os românticos prezam exatamente por isso: pela invenção, por criar coisas tirando-as da própria cabeça.

Voltando a Eurípides, por pouco ele não fez a primeira metanarrativa da história. Se alguém escrevesse sobre o que aconteceu e o próprio cara estivesse assistindo à sua história na peça, já teria sido a primeira metanarrativa. Isso me faz lembrar da própria Poética, quando Aristóteles fala do paralogismo e dá um exemplo: "Passou por aqui um cara parecido com você; logo, esse cara sou eu". Fico imaginando a situação de Eurípides assistindo à peça e pensando: "Caramba, o que é isso? Esse cara se parece comigo, logo esse cara sou eu!".

Vale notar que a crítica política de Aristófanes não era uma simples alusão ou alegoria distante. George Orwell faz uma grande alegoria da União Soviética em *1984* e em *A Revolução dos Bichos* (*Animal Farm*), mas sem citar diretamente Stalin — este é mencionado indiretamente através da leitura de um livro de um pseudorrevolucionário. Já Aristófanes, quando queria sacanear um político, usava o próprio nome do político, com um ator vestido como ele, empregando os discursos e as palavras que o político realmente usava, sacaneando-o na frente de todo mundo. Ele não perdoava ninguém; nem Eurípides nem Sócrates foram poupados.

E, sobre a metanarrativa, na *Apologia de Sócrates* — que é de longe o texto mais conhecido de Platão, junto com *O Banquete* e *A República* —, o personagem de Sócrates menciona justamente esse Sócrates das nuvens da peça de Aristófanes: um Sócrates que vive nas nuvens, que faz com que os argumentos fracos pareçam fortes e os fortes pareçam fracos, enganando as pessoas. O próprio Sócrates, dentro de uma obra de Platão, faz referência a uma ficção sobre ele mesmo criada por Aristófanes, estabelecendo assim uma metanarrativa.